Participação de Luiz Carlos Borges
“No dia 14 de maio, eu saí por aí
Não tinha trabalho, nem casa, nem pra onde ir
Levando a senzala na alma, subi a favela
Pensando em um dia descer, mas eu nunca desci
Zanzei zonzo em todas as zonas da grande agonia
Um dia com fome, no outro sem o que comer
Sem nome, sem identidade, sem fotografia
O mundo me olhava, mas ninguém queria me ver
(…)” — Lazzo Matumbi
Essa música, de Lazzo Matumbi, ilustra de forma contundente o que aconteceu no dia 14 de maio de 1888: pessoas negras foram oficialmente “libertas”, mas sem condições dignas de sobrevivência, sem moradia, sem acesso à Educação e sem qualquer política de reparação histórica.
No início do século XX, no período pós-abolição, a população negra foi empurrada para as margens da sociedade brasileira. As políticas eugenistas — termo criado por Francis Galton, derivado do grego e que significa “bem-nascido” — eram consideradas ciência legítima à época. Para seus defensores, a eugenia seria um caminho para o “aperfeiçoamento biológico” da sociedade. Na prática, esse pensamento sustentava projetos de eliminação simbólica e material das populações negras e indígenas no Brasil.1
Nesse contexto, políticas públicas passaram a incentivar e financiar a imigração europeia. Intelectuais como Nina Rodrigues, Monteiro Lobato e Edgard Roquette-Pinto defendiam a ideia de que a chamada “mistura de raças” levaria ao desaparecimento gradual das populações negras e indígenas, partindo da falsa crença de superioridade da população branca.
Entretanto, esse projeto não contava com a força da organização negra e indígena. Mesmo diante da violência estrutural, povos negros e indígenas construíram estratégias de resistência, criaram movimentos políticos, culturais e comunitários e estabeleceram redes de solidariedade e sobrevivência.
Vale lembrar, como afirma o samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira de 2019: *“Não veio do céu, nem das mãos de Isabel / A liberdade”. A abolição não foi um presente da monarquia, mas resultado de inúmeras revoltas, fugas, quilombos e articulações políticas protagonizadas pela população negra e por aliados da causa abolicionista.
Entre essas resistências, destaca-se a Revolta dos Malês, considerada um dos maiores levantes de africanos escravizados da história do Brasil. O movimento ocorreu em Salvador, em 1835, e é frequentemente associado à liderança e articulação de Luísa Mahin, embora sua trajetória ainda seja alvo de debates historiográficos. Apesar de sua relevância histórica, essa revolta ainda recebe pouco espaço nos currículos escolares.
Outros movimentos também pressionaram o sistema escravista e contribuíram para o desgaste da escravidão no Brasil, como a Balaiada, a Sabinada, a Cabanagem e os inúmeros quilombos espalhados pelo território brasileiro. (FAUSTO,2012)
Entre eles, o mais conhecido foi o Quilombo dos Palmares, considerado o maior quilombo da América Latina. Localizado na região do atual estado de Alagoas, Palmares chegou a reunir cerca de 20 mil habitantes e tornou-se um dos maiores símbolos da resistência negra à escravidão no Brasil. O quilombo foi alvo constante de expedições organizadas por portugueses e holandeses até sua destruição, em 1694. Seu principal líder, Zumbi dos Palmares, foi assassinado ano seguinte.2
É importante ressaltar que a abolição da escravidão, sem políticas de inclusão, reparação e garantia de direitos, consolidou desigualdades que permanecem até os dias atuais. Compreender o 13 de Maio para além da assinatura da Lei Áurea é fundamental para educadores comprometidos com uma Educação antirracista, crítica e historicamente responsável.
Territórios afro – referenciados na cidade de São Paulo: rompendo com a invisibilização da história negra – Por Luiz Carlos Borges
Luiz Carlos Borges é historiador, pedagogo, especialista em Educação Antirracista e formador de professores na promoção da igualdade racial. Mestre em Políticas Sociais e doutorando em Educação pela Universidade Federal de São Paulo, pesquisa história da educação e práticas afrocentradas. Professor da rede municipal de São Paulo, também atua no ensino superior em cursos voltados às relações étnico-raciais e à diversidade pelo CIMESB. Morador do Bixiga, antigo Quilombo Saracura, desenvolve estudos e ações ligados à memória negra, patrimônio cultural e educação para as relações étnico-raciais.
As consequências da abolição inconclusa não ficaram restritas ao século XIX. O abandono da população negra após o 13 de Maio também moldou a organização das cidades brasileiras e aprofundou processos de exclusão social e territorial. Em São Paulo, a população negra, historicamente afastada dos centros de poder e das políticas de acesso à moradia, à Educação e ao trabalho, construiu territórios de resistência, memória e pertencimento. Apesar disso, a presença negra na cidade ainda é frequentemente apagada das narrativas oficiais. Discutir os territórios afro-referenciados em São Paulo é, portanto, uma forma de romper com a invisibilização da história negra e reconhecer o protagonismo da população negra na construção social, cultural e política da cidade.
Convidei o historiador Luiz Carlos Borges para participar deste artigo e contribuir para o resgate dessa história, que foi invisibilizada ao longo do tempo e precisa ser contada.
A história da cidade de São Paulo foi profundamente marcada pela presença da população negra desde o período colonial. No entanto, durante décadas, a narrativa oficial sobre a urbanização paulistana privilegiou perspectivas eurocêntricas, invisibilizando a participação afrodescendente na constituição econômica, cultural, política e social da cidade.
Nas últimas décadas, pesquisadores, intelectuais, coletivos culturais e iniciativas de memória urbana têm contribuído para resgatar a importância dos chamados territórios afro-referenciados — espaços onde as experiências negras se manifestaram por meio do trabalho, da religiosidade, das manifestações culturais e das diversas formas de resistência. Entre esses territórios, destacam-se regiões como Sé, Liberdade, Vale do Anhangabaú, Triângulo Histórico, Santa Ifigênia e Bixiga, fundamentais para compreender a presença negra no centro histórico paulistano.
Esses espaços revelam, simultaneamente, processos de violência, apagamento e exclusão, mas também trajetórias de luta, permanência e construção de identidade coletiva. São territórios que guardam memórias ancestrais e evidenciam como a população negra foi — e continua sendo — protagonista na formação da cidade.
O reconhecimento desses lugares por iniciativas como o Inventário Memória Paulistana, aliado às práticas educativas e aos roteiros de letramento racial desenvolvidos por pesquisadores e educadores, fortalece políticas de preservação cultural e amplia o debate sobre direito à memória e à justiça histórica. Mais do que revisitar o passado, reconhecer os territórios afro-referenciados de São Paulo é um passo fundamental para romper com o apagamento histórico e construir uma narrativa urbana mais plural, inclusiva e comprometida com a valorização da história e da resistência da população negra brasileira.
Confluindo para não concluir…
Conhecer a verdadeira história sob a ótica dos povos colonizados nos leva a refletir sobre as consequências de uma abolição inconclusa, cujos impactos ainda reverberam na sociedade brasileira contemporânea. O apagamento histórico, a exclusão social, o racismo estrutural e as desigualdades raciais não surgiram por acaso: são heranças diretas de um projeto de país que aboliu formalmente a escravidão, mas negou à população negra condições dignas de existência, cidadania e reparação.
Ao revisitar memórias, territórios e narrativas historicamente silenciadas, rompemos com versões oficiais que insistiram em invisibilizar o protagonismo negro na construção do Brasil. Mais do que olhar para o passado, esse movimento nos convoca a transformar o presente, reconhecendo que a Educação antirracista, a preservação da memória e a valorização das histórias negras são caminhos fundamentais para a construção de uma sociedade mais justa, plural e verdadeiramente democrática.
Notas:
- Disponível em :< https://www.invivo.fiocruz.br/historia/o-que-e-eugenia/> Acesso em 15. maio. 2026
- Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiab/quilombo-dos-palmares.htm Acesso em 15.maio.2026
Referências
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 14. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2012.
MATUMBI, Lazzo; PORTUGAL, Jorge. 14 de Maio. In: MATUMBI, Lazzo. Àjò. Salvador: Independente, 2021. 1 faixa de áudio (3 min 54 s). Disponível em: . Acesso em: 18 maio 2026
DOMÊNICO, Deivid et al. História pra ninar gente grande. Intérprete: Marquinho Art’Samba. In: ESTAÇÃO PRIMEIRA DE MANGUEIRA. Rio de Janeiro, 2019. Faixa 1. Álbum: Sambas de Enredo Grupo Especial 2019.
PREFEITURA DE SÃO PAULO. Inventário Memória Paulistana. São Paulo: Secretaria Municipal de Cultura, 2020. Disponível em: https://memoriapaulistana.prefeitura.sp.gov.br. Acesso em: 18 maio 2026








