Antes de ir embora da cidade onde nasceu, Samuel foi ao pé da estátua de padre Cícero pela última vez. Disso ele ria, dessa ilusão de que aquela estátua branca, imóvel, gigante, estivesse vendo alguma coisa ou preocupada se alguém estava vivo ou morto sobre aquele Juazeiro do Norte. Era a mesma ilusão de sua mãe, sustentada até a morte (A cabeça do Santo, Socorro Acioli).
Em outubro do ano passado, estive em Belém para um evento acadêmico. Levava na mala comigo o livro “A cabeça do santo”, de Socorro Acioli, uma indicação da minha amiga e ávida leitora Marina Mello. Claro que nem consegui tocar no livro, como quase sempre acontece durante as viagens de trabalho, mas em breve o faria, e a viagem a Belém impactou diretamente as minhas percepções sobre essa obra. Falarei sobre ela logo mais adiante.

Nunca tinha estado naquela cidade e fiquei encantada com o campus da UFPA, localizado às margens do rio Guamá. Encantei-me também com a receptividade e a simpatia da população local. Obviamente, fiz um pequeno roteiro de lugares e sabores para conhecer e experimentar durante os intervalos: visitar a Basílica de Nossa Senhora de Nazaré, o Mercado Ver-o-Peso, a Sorveteria Cairu (com seu delicioso e premiado sorvete de cupuaçu e castanha-do-pará, o Carimbó); comer um peixe filhote com açaí (o verdadeiro, não o que a gente come aqui no Sudeste, como sorvete), e, claro, tomar o famoso e cantado tacacá.

Cheguei no domingo seguinte ao Círio de Nossa Senhora de Nazaré e encontrei uma cidade ainda muito movimentada: ruas enfeitadas, tomadas de gente, hotéis lotados. Um ambiente acolhedor e festivo que respirava os resquícios da grandiosa manifestação. A primeira procissão em homenagem a Nazinha, como a ela se referem carinhosamente os seus devotos mais íntimos, aconteceu em 1793. Conta a história que a imagem da santa foi encontrada em 1700 pelo Caboclo Plácido, às margens do igarapé Murutucu que ficava muito próximo de onde se encontra o santuário. Todos os anos, milhares de pessoas participam do Círio e também de outras atividades relacionadas à devoção, como as romarias da juventude, dos corredores, das crianças, da acessibilidade, entre outras.
Envolvida com as atividades do extenso congresso, fui encaixando uma ou outra visita, provando uma ou outra iguaria, calculando o tempo e tentando ver e experimentar o que fosse possível. Porque a vida não é só trabalho, afinal. Congresso finalizado, deixei para visitar a Basílica no último dia em Belém, o sábado. Logo de manhã, durante o café, vi passar na porta do hotel a romaria dos corredores, barulhenta e animada.
Motivada e curiosa, saí acompanhada de Marina, a minha amiga leitora voraz. A Basílica fica localizada na Praça do Santuário; lá está guardada a imagem original, encontrada pelo caboclo Plácido, protegida por uma redoma de cristal e instalada num altar-mor chamado de Glória. Essa Nazinha (olha a intimidade) só desce do altar em duas ocasiões: no aniversário do Santuário e na chamada “Descida do Glória”, na véspera do Círio, permanecendo no presbitério durante quinze dias, quando pode ser vista pelos fiéis. Do outro lado da praça, cortada por um tapete vermelho, estendido durante as festividades, fica a berlinda onde se encontra a imagem peregrina, aquela utilizada durante todo o período do Círio de Nazaré, que percorre as ruas da cidade e viaja pelo Brasil, reverenciada e tocada, ainda que através da redoma.
No momento em que chegamos à Praça do Santuário, acontecia o Círio da acessibilidade. No tapete vermelho, fiéis seguiam em direção à berlinda, onde uma pequena aglomeração já se formava. Entramos na fila junto com cadeirantes, deficientes visuais, crianças e adultos com Síndrome de Down. À nossa frente, vi uma mulher que caminhava de joelhos, ela vestia uma camiseta com a imagem da santa, as lágrimas lhe escorriam pelo rosto. De cabeça erguida em direção ao céu, muito azul naquele dia, ela murmurava baixinho. Certamente eram preces em agradecimento. E foi naquele tapete, que tive uma experiência incrível e emocionante.
Aquela cena toda me gerou uma comoção inesperada. Eu, uma cientista das humanidades, historiadora racional, me surpreendi demais com a enorme emoção que crescia dentro de mim, quanto mais me aproximava da redoma onde se encontrava a imagem peregrina. Emoção física, palpável, uma pressão na garganta e no peito, que me levou às lágrimas assim que me aproximei da imagem. Imediatamente, me veio a memória de minha mãe. Essa forte sensação me acompanhou do Pará a São Paulo e depois me levou ao Ceará, através da obra de Socorro Acioli. Assim que cheguei de Belém tirei o livro da mala.
A memória vívida de minha mãe em terras paraenses, aguçou a minha vontade de iniciar a leitura de uma obra que já tinha me ganhado na sinopse: Samuel, um homem que vivia em Juazeiro do Norte, afilhado do Padre Cícero, o “Padim Ciço”, viaja para a longínqua cidade de Candeia, a fim de cumprir um último pedido de sua mãe, feito pouco antes de morrer. Chegando à cidade, sem ter onde ficar, acaba indo morar dentro de uma gigantesca cabeça oca de Santo Antônio, que fora deslocada do corpo, fixado no alto de um morro, por conta de um acidente. A decapitada imagem do santo é apontada, pelos moradores, como causa e efeito da decadência e maldição da cidade, e por isso é odiada.
Instalado no interior da cabeça do santo, Samuel começa a ouvir vozes e logo descobre que são as rezas das mulheres da cidade pedindo a Santo Antônio para que lhes trouxesse um marido. O fato impacta a vida do personagem e da cidade adormecida:
Candeia renasceu. Voltou à vida pelas mãos das mulheres com sua fé, fazendo novena ao redor da cabeça do santo, rezando dia e noite e esperando uma oportunidade de falar com o mensageiro. Queriam casar. Quase todas guardavam no peito um amor escondido, secreto, por vezes até proibido, mas sempre amor. Outras, nem isso. Nem sequer tinham um destinatário para as orações, uma dica para a ação do santo, mas queriam casar porque, no sertão, mulher que não casa é mandacaru sem flor (A cabeça do santo, Socorro Acioli).
E vai gerar inúmeras situações divertidas e emocionantes, que nos envolvem e tornam a leitura desse livro prazerosa e surpreendente. O livro A cabeça do Santo, foi escrito por Acioli durante sua participação em uma oficina promovida, em Cuba, por ninguém menos que Gabriel García Márquez. É o primeiro romance da escritora cearense direcionado ao público adulto e vejo muito o estilo do grande escritor colombiano nessa obra, cuja leitura recomendo fortemente, sem dar mais spoilers.
A experiência em Belém e a leitura do livro A cabeça do Santo, me trouxeram inúmeras reminiscências da minha infância e de minha mãe, falecida em 2009. Dona Marlene era uma cearense nascida em Fortaleza, que amava a sua terra, e que chegou em São Paulo em 1966 “pra fazer a vida”, como muitos retirantes naquela época. Minha mãe era uma católica muito devota aos santos. Gostava de comprar imagens e de peregrinar à Aparecida, sempre que a vida apertada de mulher viúva com 4 filhas para criar lhe permitia. Também gostava de fazer promessas, e a cada dificuldade surgida, um santo era mobilizado: um problema nas vistas, Santa Luzia, protetora dos olhos. Mente embaralhada, chama Nossa Senhora da Santa Cabeça. Um fêmur deslocado na infância, trabalho para a mais poderosa de todas: Nossa Senhora de Aparecida, segundo dona Marlene. Promessa paga, pela família toda, diretamente na Basílica da santa. Em nossa cozinha, São Benedito, instalado no alto da geladeira, recebia sempre a primeira dose do café recém-coado. Sempre. Ai de quem ousasse beber o café antes do santo…
Minha mãe gostava de conversar com os santos e lhes fazer pedidos, tal como as moças apaixonadas de Socorro Acioli; mas os de minha mãe, pelo que sei, quase sempre eram em intenção da saúde de alguém. Mas não posso garantir que ela não tivesse guardado no peito um amor secreto. Cresci observando Dona Marlene nesse contato íntimo com os santos. Mulher negra, filha de parteira e rezadeira, neta de uma “índia do Paraguai”, como ela gostava de dizer com certo orgulho. Acreditava no poder das orações, mas também nas forças da natureza, crença manifesta no uso constante que fazia de plantas para proteger a casa e folhas e amuletos para tirar o “mau olhado” ou “dar sorte”. Muito mais tarde, no doutorado, quando fui estudar as irmandades construídas por escravizados no Vale do Paraíba paulista, compreendi que minha mãe trazia consigo a herança do caldeamento de povos que formou o nosso país.
O Brasil foi historicamente gestado na violência das armas e da imposição religiosa, mas é fato que os povos originários e africanos souberam resistir e ressignificar para re(existir). Hoje em dia, existem muitos trabalhos acadêmicos que nos revelam as suas múltiplas formas de resistências desde o período colonial, assim como o lento processo de hibridização de crenças e práticas ancestrais indígenas e africanas com a religião do colonizador.
Eduardo Hoornaert nomeou o advento religioso no Brasil de “cristianismo moreno”, por seu “caráter mestiço”, de adaptação às culturas não europeias com as quais manteve contato. Por todo o país, espalhou-se uma postura devocional diferenciada que contribuiu para “morenizar o imaginário cristão”, tornando o nosso panteão menos “estrangeirado”, menos “importado”. Dessa forma, aos poucos, as imagens esteticamente europeizadas, brancas de olhos azuis, foram substituídas por outras “mais escuras”: “pintadas por mãos morenas e beijadas por lábios grossos”. Ainda segundo Hoornaert, em terras brasileiras, as imagens de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito e São Jorge, teriam sido “africanizadas”, em face das “morenizadas” Nossa Senhora de Aparecida ou Nossa Senhora de Nazaré, em Belém do Pará.
A apropriação dessas imagens denota o viés singular de um catolicismo denominado de “popular” ou “barroco”, por Riolando Azzi. Tratados com intimidade e aconchego por apelidos pessoais ou diminutivos carinhosos, os “santinhos” e “santinhas” espalharam as suas curas mágicas para todos os males: de dores, de amores, de entes queridos, mesmo de animais, doentes ou desaparecidos, cuja cura ou o retorno se faziam essenciais para a sobrevivência de cada devoto. Uma religiosidade lúdica, que se espraiou pelos interiores do Brasil. A um só tempo mística e devocional, fortalecida no permanente gosto pelas procissões, romarias, nas festas em torno dos santos, na esperança do milagre divino.
Gilberto Gil tem uma música muito linda que se chama Procissão. Um pequeno trecho me vem à mente, enquanto escrevo essas linhas:
Meu divino São José
Aqui estou em vossos pés
Dai-nos chuvas com abundância
Meu Jesus de Nazaré
Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando
Acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos
Os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na terra
Esperando o que Jesus prometeu
Me lembra Samuel, Juazeiro do Norte e as promessas feitas a sua mãe, Mariinha do Horto. Intencionalmente, terminei de ler o livro no cemitério, quando fui visitar a minha mãe. Senti que devia fazê-lo, na certeza de que acompanhava comigo a saborosa aventura de Samuel. Ela faleceu num mês de novembro, alguns dias depois do feriado de finados. Uma data sempre muito importante para ela, que nos fazia visitar todos os anos o túmulo de meu pai e de meu avô, para render homenagens. Herdei de dona Marlene a crença no “sobrenatural”, nas coisas invisíveis, também o hábito de louvar os mortos e a sua fé nos santos e nas pessoas. Eu, cientista das humanidades, historiadora racional. Me pergunto como cheguei até aqui, entre santos e itinerários de viagens. Acho que posso dizer que essa coluna é sobre devoção e literatura. É sobre nossas origens e aquilo que herdamos e carregamos com a gente, pra onde quer que sigamos.
Referências
- Acioli, Socorro. A cabeça do Santo. Companhia das Letras, 2014.
- Azzi, Riolando. A igreja católica na formação da sociedade brasileira. Editora Santuário, 2008.
- Hoornaert, Eduardo. O Cristianismo moreno no Brasil. Rio de Janeiro: Vozes, 1990.








