brain rot
Família

Brain rot, descanso analógico e outras tendências da era digital 

Por Maiara Lima

Estimativa de leitura: 12min 34seg

30 de julho de 2025

Entenda como o consumo excessivo de telas e redes sociais impacta nossa função cognitiva. 

Você já ouviu falar no termo alemão zeitgeist? Ele se refere ao “espírito do tempo” descrevendo a atmosfera cultural e intelectual de determinando período capturando as tendências e os sentimentos coletivos de uma época. 

As palavras que fazem parte do nosso vocabulário também são um reflexo do nosso tempo representando o que está presente no nosso dia a dia.  

É por isso que em 2024, a Oxford University Press anunciou que a palavra do ano foi “brain rot”, em tradução livre: “apodrecimento cerebral”, um termo que ilustra a deterioração mental que estamos enfrentando diante do foco excessivo em telas e dos conteúdos hiperestimulantes que impactam diretamente nossa cognição e nossos comportamentos. 

Mas essa não é a única expressão que traduz as tendências recentes da era digital, venha entender melhor o que é o brain rot e quais outros termos têm sido criados para descrever os anseios e angústias do mundo hiperconectado.

brain rot: o que é

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O que é brain rot? 

Brain rot é um termo popular da cultura digital criado para descrever um estado de entorpecimento mental causado pela superexposição as telas e aos conteúdos repetitivos, superficiais e excessivamente estimulantes encontrados em redes sociais como TikTok, Instagram Reels ou YouTube Shorts.  

Traduzido como “podridão ou apodrecimento cerebral” a expressão reflete diretamente os efeitos negativos desse comportamento que pode levar à perda de foco, ansiedade e sensação de inutilidade. Apesar de não ser um termo médico ou um diagnóstico formal, a palavra entrou no vocabulário das pessoas por ser uma forma de descrever a sobrecarga digital e seu impacto na função cognitiva.  

Segundo relatório de 2025 do DataReportal, enquanto a média mundial de tempo diário na internet, em qualquer dispositivo foi de aproximadamente seis horas e meia, o Brasil se manteve em segundo lugar, totalizando mais de nove horas usando internet ao longo do dia.  

Pense na quantidade de tempo que passamos em frente a uma tela durante o dia e como nos momentos que seriam de “descanso” navegamos pelas redes sociais para logo em seguida nos sentirmos mentalmente esgotados, inquietos e incapaz de nos concentrarmos, isso é o brain rot. 

brain rot
Tralalero Tralala, meme brain rot que se categoriza pelo tom absurdo, repetitivo e sem sentido .

Impulsionado pelo acesso às inteligências artificiais, no início de 2025, um vídeo feito com IA de um tubarão de três pernas com tênis repetindo o bordão Tralalero Tralala, foi um fenômeno do brain rot “italiano” no Tik Tok. O conteúdo, que reúne humor absurdo e estética visualmente caótica, mostra o quão surreal tem sido o consumo de mídia ao redor do mundo e o quão longe os vídeos de estímulos rápidos, mas vazios de conteúdo, podem chegar. 

  

O que o brain rot causa? 

Memória ruim, dificuldade de raciocínio e falta de interesse em coisas que não envolvam o celular? Você pode estar vivenciando o brain rot. 

falta de foco

É a partir desses sintomas que o médico e oncologista Drauzio Varella define os sintomas do apodrecimento cerebral.  De acordo com o especialista estamos sendo diariamente bombardeados por vídeos curtos, sensacionalistas, sem contexto nenhum e que não nos desafiam em nada e isso está diretamente ligado ao empobrecimento das nossas funções mentais e cognitivas, gerando dificuldade de concentração, fadiga mental e desatenção. 

Drauzio afirma que a longo prazo os efeitos começam a aparecer: você não consegue se concentrar da mesma maneira, sempre esquece as coisas que ia fazer, sente que não tem criatividade e não consegue processar informações se sentindo sempre cansado, estressado e ansioso.  

Isso não é coincidência, o cérebro está perdendo as suas capacidades, em um efeito similar ao uso de substâncias tóxicas. Mario Peres, neurologista do Hospital Israelita Albert Einstein explica que existe um impacto direto do uso prolongado das redes sociais na forma como pensamos. 

Em entrevista sobre o tema para o blog do Albert Einstein, o neurologista sinaliza que por conta dos estímulos das redes sociais (como cenas impactantes, sons e músicas provocantes) nós ficamos condicionados ao sistema de recompensa cerebral, que libera dopamina gerando um impulso rápido, mas fugaz de prazer, o que nos torna mais dependentes de gratificações imediatas.  

E o algoritmo das redes sociais, que é quem determina o que você vai ver na tela, sabe exatamente disso, estimulando esse tipo de reação. O design das plataformas explora padrões cognitivos naturais, mantendo nosso cérebro em estado de busca de novidade. 

Isso faz com que nossa rede neural seja reconfigurada e ficamos menos tolerantes a processos que demandam mais tempo e mais esforço, o que nos deixa incapaz de analisar as coisas com profundidade. Você já deve ter notado como hoje na sociedade há pouquíssimo espaço de tolerância para o tédio e as frustrações o que gera inquietude, impaciência e irritabilidade. 

Não por acaso, o Brasil é um dos países que mais consome redes sociais e que tem uma das maiores taxas de pessoas com ansiedade. De acordo com o relatório “Panorama da Saúde Mental”, do Instituto Cactus e da AtlasIntel, dos 36,9% dos brasileiros que passaram três horas ou mais por dia nas redes sociais, 43,5% possuem diagnóstico de ansiedade.   

Sinais de alerta do brain rot: 

  • Irritabilidade; 
  • Dificuldades para dormir; 
  • Acordar cansado; 
  • Dificuldades para se conectar com os outros; 
  • Problemas de interação; 
  • Redução de atividades fora do mundo off-line; 
  • Sensação de isolamento. 

Cuidados para evitar o brain rot: 

  • Estabelecer limites de tela; 
  • Desativar notificações; 
  • Marcar encontros presencias; 
  • Fazer refeições sem celular; 
  • Não usar o celular antes de dormir; 
  • Fazer trabalhos manuais; 
  • Ter contato com a natureza; 
  • Praticar atividade física. 
digital overload

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Brain rot e outras tendências da era digital 

A desatenção devido à exposição prolongada a telas e redes sociais com conteúdos digitais de baixa qualidade não é momentânea e pode ter efeitos a longo prazo como: 

  • Capacidade de atenção reduzida: dificuldade em focar em tarefas mais longas e complexas. 
  • Fadiga mental: sobrecarga do cérebro com informações superficiais, gerando esgotamento. 
  • Retenção de memória prejudicada: mudar constantemente o foco entre distrações digitais afeta a capacidade de lembrar informações importantes. 

Conheça outras tendências e termos que estão diretamente ligados ao brain rot e aos comportamentos da era digital: 

  • Brain rot: estado de entorpecimento mental causado pela superexposição às telas e aos conteúdos repetitivos, superficiais e excessivamente estimulantes encontrados em redes sociais como TikTok, Instagram Reels ou YouTube Shorts. 
  • Infoxicação: Excesso de informação com baixa utilidade, que nos paralisa ou nos vicia. 
  • Doom Scrolling: hábito compulsivo de rolar feeds e consumir notícias negativas sem parar, especialmente em tempos de crise (como pandemia, guerras ou colapsos climáticos). Alimenta o pessimismo crônico e intensifica a sobrecarga de informação.  
  • Cultura da hiperconexão: A todo momento estamos on-line, o que intensifica práticas de doomscrolling e leva ao brain rot.  
  • Fadiga digital: Sintoma comum entre quem trabalha e vive conectado, resultando em exaustão mental, perda de criatividade e produtividade.  
  • Burnout digital: Esgotamento causado pelo excesso de demandas on-line, hiperconectividade e ausência de pausas reais.  
  • Nomofobia: Medo ou ansiedade e por estar longe do celular.  
  • Economia da atenção: Plataformas competem pelo nosso tempo e atenção, gerando conteúdos curtos, viciantes e superficiais que alimentam o brain rot. 
aprendizagem

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Reflexos do brain rot na aprendizagem 

Hoje a atenção humana é encurtada e constantemente disputada por estímulos digitais. A exposição constante a notificações, links, redes sociais e aplicativos diferentes fragmenta o nosso foco e reduz nossa capacidade de concentração.  

De acordo com Gloria Mark, autora do livro Attention Span: A Groundbreaking Way to Restore Balance, Happiness and Productivity, que fala sobre nossa capacidade de atenção, o tempo médio de foco para indivíduos olhando para uma única tela caiu de 2,5 minutos em 2004 para uma média de 47 segundos em 2021.  

Isso significa que em 17 anos tivemos uma queda de aproximadamente 70% em nossa capacidade de atenção. A autora ainda traz outro dado importante: leva 25 minutos para trazer nossa atenção de volta para uma tarefa após uma interrupção e nós nos interrompemos mais do que somos interrompidos por outros. 

Se adicionarmos as inteligências artificiais nessa equação, a situação pode ficar ainda mais complicada. Segundo estudo recente do MIT Media Lab, intitulado “Your Brain on ChatGPT: Accumulation of Cognitive Debt”, as pessoas que utilizam IA, como o ChatGPT, para tarefas intelectuais ativam menos áreas do cérebro ligadas à memória, à atenção e ao raciocínio crítico. Essa “economia ao pensar” reduz o esforço cognitivo e com ele a aprendizagem profunda, o que faz com que a aprendizagem e a memorização sejam menores e o exercício da dúvida, algo importante para fortalecer a mente, seja inexistente. 

Como reflexo da era digital, até mesmo os vestibulares estão tendo de se adaptar para atender estudantes mais cansados e distraídos que, além do conteúdo, precisam enfrentar a dificuldade em manter o foco. A piora na concentração levou a USP e a Unicamp a reformularem seus exames para tentar reduzir o desgaste dos candidatos. 

Na Fuvest, responsável pelo processo seletivo da USP, as mudanças incluem uma reformulação gráfica, trazendo uma diagramação mais espaçada e de fácil leitura, e mais questões interdisciplinares para valorizar a aplicação do conhecimento e reduzir o tempo gasto na interpretação do enunciado. Já a Unicamp reduziu o número de questões discursivas na segunda fase de 20 para 18 para oferecer mais tempo para que os estudantes consigam desenvolver o raciocínio nas suas respostas. 

Na tentativa de ajudar os estudantes a terem momentos de pausa e recuperarem o foco, a Lei 15.100, de 2025, definiu que crianças e adolescentes não poderão mais utilizar de forma indiscriminada aparelhos eletrônicos portáteis, como celulares, nas escolas públicas e privadas de Educação Básica de todo o Brasil.   

A norma aprovada pelo Congresso Nacional foi criada com o objetivo de preservar a saúde mental, física e psíquica de crianças e adolescentes, para que tenham maior aproveitamento durante o período de estudo nas salas de aula e nos momentos que deveriam ser destinados à socialização, como recreio ou intervalos.  

Como evitar o brain rot? 

descanso

Pausas do mundo digital como os períodos off-line propostos com a retirada dos celulares nas escolas brasileiras são muito bem-vindas. Isso porque muitas vezes quem sofre com uma dependência digital não reconhece os sintomas ou não sabe como sair do círculo vicioso que as redes sociais alimentam diariamente. 

Se desconectar propositalmente de telas e ambientes digitais, nos permite valorizar atividades presenciais, o que ajuda na busca por equilíbrio, foco e bem-estar mental. 

Para evitar o brain rot e a fadiga mental causada pelo consumo excessivo de telas siga essas dicas: 

  • Faça pausas regulares 

Siga a regra 20-20. A cada 20 minutos de tela, faça uma pausa de 20 segundos para olhar para algo a seis metros de distância. Essa prática pode ajudar a reduzir a fadiga digital e melhorar seu foco geral. 

  • Defina limites para o tempo de tela 

Muitos aplicativos e dispositivos já possuem ferramentas que permitem o monitoramento e limitação do tempo de tela. Use esses recursos a seu favor e limite o tempo nas redes sociais. 

  • Participe de atividades no mundo real 

Equilibre sua vida digital com hobbies off-line, como a prática de exercícios ou interações presenciais para dar ao seu cérebro a variedade que ele precisa para se manter fortalecido. 

  • Pratique o consumo consciente 

Em vez de “scrollar” o feed sem pensar, aborde o conteúdo on-line com propósito. Siga perfis e contas que ofereçam conteúdo significativo, educativo ou inspirador e evite fontes conhecidas por desinformação, negatividade ou caça-cliques.  

  • Priorize o sono 

Olhar para telas, especialmente antes de dormir, pode atrapalhar os padrões de sono e contribuir para a fadiga cognitiva. Faça a chamada “higiene do sono” e estabeleça uma rotina antes de dormir que minimize a exposição digital para ajudar seu cérebro a se recuperar e recarregar.  

Brain rot e o descanso analógico 

Em um contraponto ao mundo hiperconectado e as consequências negativas da exposição exagerada as telas, o descanso analógico tem se tornado um grande aliado de quem busca vencer o excesso de estímulos. 

Desacelerar e apostar em práticas manuais tem estimulado a presença de corpo e mente, além de promover momentos de relaxamento. Ler, cuidar de plantas, tricotar, bordar, tocar um instrumento, escrever à mão, e até mesmo colorir virou um ritual de autocuidado, fenômeno que pode ser visto com a febre dos livros de colorir da Bobbie Goods. 

Escola propõe momento coletivo de colorir no intervalo.

Com mais de 150 mil exemplares vendidos em poucos meses no Brasil e mais de 142 mil vídeos com a hashtag da marca no Tik Tok, a trending mostra que o analógico virou tendência e expõe a necessidade urgente da sociedade de ter momentos de pausa e reconexão com o mundo real. 

Aliado a outras tendências como o uso consciente da tecnologia e o minimalismo digital, o descanso analógico tem sido usado para recuperar qualidade de presença, foco e bem-estar mental e emocional em uma rotina sobrecarregada por estímulos virtuais. 

Dentre os benefícios do descanso analógico estão: 

  • Redução do estresse e da ansiedade; 
  • Melhora na qualidade do sono; 
  • Estímulo à criatividade e ao pensamento crítico;  
  • Recuperação da atenção e da memória; 
  • Reforço da conexão com o presente e com os outros; 
  • Prevenção de sintomas associados ao brain.  

Gostou desse tema? Então confira o artigo “Dependência Digital: Descubra se você está em um relacionamento tóxico com as tecnologias” e aproveite para assinar nossa newsletter mensal e receber conteúdos exclusivos.  

Há mais de 10 anos, atua como jornalista, produtora de conteúdo e entusiasta da Educação. Ama cultura pop e falar pelos cotovelos.
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