A verdadeira educação acontece na interseção entre quem somos e quem estamos nos tornando, em diálogo com os outros.” (Bell Hooks).
À medida que o ano letivo se despede, a escola se enche de gestos que anunciam mudanças. São os ritos de passagem que marcam o fim de um tempo e o início de outro, revelando que aprender e crescer também significam transitar. Cada instituição constrói seus modos de celebrar conquistas e acolher novos começos, mas é essencial que esses movimentos sejam pensados à luz das singularidades de cada segmento educativo.
Neste texto, olharemos para os processos de microtransição que acontecem no cotidiano da Educação Infantil e para as passagens que conduzem as crianças ao Ensino Fundamental — momentos que exigem cuidado, escuta e intencionalidade pedagógica para que continuem sendo experiências de pertencimento e continuidade, e não de ruptura.
Segundo Hoyuelos (2013): “A infância é feita de partidas e chegadas, de passagens silenciosas que tecem o fio da continuidade”. As transições, quando compreendidas como parte do percurso educativo, tornam-se oportunidades para fortalecer vínculos, reconhecer conquistas e acolher as incertezas que acompanham cada nova etapa. Assim, mais do que um simples encerramento de ciclo, o tempo das passagens convida a escola a refletir sobre sua própria função formadora: acompanhar a criança em seu movimento de ser e de vir, garantindo que o caminho entre um ciclo e outro seja um território de continuidade, confiança e sentido.
Compreendendo as transições na Primeira Infância
A Educação Infantil é atravessada por diversas transições significativas na vida de bebês (0 a 1 ano e 6 meses), crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses) e crianças pequenas (4 a 5 anos e 11 meses). Essas transições incluem a entrada na escola, mudanças de turma, a passagem da creche para a pré-escola e, mais adiante, para o Ensino Fundamental.
As transições envolvem mudanças biológicas e psicossociais. No primeiro caso, estão relacionadas ao desenvolvimento e às novas formas de interação e exploração do mundo. No segundo, dizem respeito às relações interpessoais, ampliadas conforme as crianças conhecem outras pessoas e reelaboram suas ações.
A primeira transição: de casa para a escola
O ingresso na escola representa uma mudança profunda na vida da criança. A separação da família, o contato com adultos desconhecidos e a convivência com muitas crianças são experiências desafiadoras. Hoyuelos (2019) ressalta a importância de interpretar o choro como forma de comunicação, expressando diferentes emoções e necessidades.
A colaboração das famílias é essencial nesse momento, como destacam Gonçalves e Damke (2016). Os adultos de referência devem permanecer no ambiente escolar nos primeiros dias, facilitando a criação de vínculos com as professoras e com os espaços.
É importante compreender que adaptar-se à rotina escolar não é o mesmo que ser acolhido. Acolher é oferecer escuta, empatia e presença, reconhecendo os sentimentos das crianças e das famílias.
O acolhimento como processo contínuo
O cuidado com as crianças deve ser contínuo e sensível, ultrapassando os primeiros dias de entrada na escola. Para que esse processo seja mais tranquilo e acolhedor, é fundamental que a instituição planeje uma entrada escalonada, recebendo grupos pequenos de crianças em períodos diferenciados. Essa organização possibilita que cada criança receba atenção individualizada, favorecendo o estabelecimento do vínculo com os educadores e a adaptação gradual ao novo ambiente.
Além disso, a disponibilidade de um espaço acolhedor para que as famílias permaneçam próximas durante esses momentos iniciais contribui para o sentimento de segurança e confiança tanto das crianças quanto dos adultos responsáveis. É imprescindível que a comunicação seja clara e transparente, especialmente no que se refere à ausência temporária dos familiares.
Informar às crianças, de maneira adequada à sua faixa etária, sobre a saída dos adultos e a previsão de retorno ajuda a reduzir a ansiedade e a insegurança, demonstrando respeito às suas emoções e promovendo um ambiente de confiança. Dessa forma, o processo de transição se torna uma experiência mais suave, envolvendo crianças, famílias e educadores em uma rede de cuidado e acolhimento.
Atividades compartilhadas no fim do dia, como rodas de música ou pequenas confraternizações, ajudam a fortalecer os laços entre crianças, famílias e escola.
O cotidiano escolar e as microtransições
Mesmo no cotidiano escolar, as crianças vivenciam microtransições: a chegada à escola, a troca de ambientes, o início e o fim das atividades. Piva (2019) afirma que são mudanças que exigem adaptação e sensibilidade dos adultos.
A previsibilidade é essencial. Utilizar rotinas visuais com imagens reais é um recurso eficaz para que as crianças compreendam o que está por vir. Transições não devem ser abruptas. É necessário anunciar mudanças, respeitar os tempos individuais e construir o cotidiano de forma partilhada.
Nesse sentido, envolver as crianças na organização e no entendimento dos momentos do dia é uma forma de lhes atribuir responsabilidade, favorecendo a autonomia e o protagonismo. Quando as crianças participam ativamente dos processos que estruturam a rotina — como escolher a ordem das propostas preparar o ambiente para uma nova experiência ou ajudar a recolher materiais — elas passam a compreender melhor o fluxo das transições e sentem-se mais seguras diante das mudanças.
Essa participação contribui para que internalizem o ritmo do dia e se sintam corresponsáveis pelo andamento das propostas, reduzindo ansiedades e resistências. Além disso, o diálogo aberto com as crianças sobre o que está acontecendo e o que vai acontecer a seguir fortalece o vínculo entre educadores e crianças, cria um ambiente de respeito mútuo e promove a construção conjunta do espaço escolar.
Assim, as microtransições deixam de ser momentos apenas de passagem para se tornarem oportunidades ricas de aprendizagem social e emocional, em que cada criança é protagonista do seu próprio percurso.
Transições que desenvolvem a autonomia
Deixar a mamadeira, passar do cadeirão para a mesa coletiva ou a mudança do alimento pastoso para o sólido são transições importantes que contribuem para o desenvolvimento da autonomia das crianças. Além dessas, outras situações cotidianas também favorecem esse processo.
Aprender a usar o banheiro sozinho, por exemplo, é um marco significativo, pois envolve o reconhecimento das próprias necessidades e a prática da higiene pessoal, que devem ser acompanhados com sensibilidade pelos educadores. Incentivar que a criança se vista e se despeça de forma independente, escolhendo suas roupas e calçando seus sapatos, também fortalece suas habilidades e a confiança em si mesma.
Outro aspecto importante é a participação na organização dos próprios pertences, como mochila e materiais escolares, bem como a colaboração na arrumação do espaço coletivo, que ajuda a construir o sentimento de pertencimento e responsabilidade.
Permitir que as crianças escolham as brincadeiras ou propostas que desejam realizar incentiva o protagonismo e a tomada de decisões. Cuidar dos momentos de repouso, como aprender a reconhecer o cansaço e acomodar-se para o sono, bem como realizar sua higiene pessoal — lavar as mãos, escovar os dentes — de forma progressivamente autônoma, são etapas que merecem atenção cuidadosa.
Por fim, desenvolver a capacidade de expressar necessidades e emoções é fundamental para que a criança construa sua autonomia emocional e social, encontrando caminhos para comunicar-se e interagir com o ambiente ao seu redor.
Essas transições devem ser planejadas e acompanhadas por educadores atentos, que escutem as crianças, respeitem seus tempos e ritmos, e ofereçam suporte com sensibilidade. Assim, a autonomia é construída de forma segura, significativa e respeitosa, fortalecendo a confiança da criança em suas próprias capacidades.
Mudanças de turno ou segmento
Ao mudar de turma, é essencial que as relações estabelecidas sejam respeitadas. Promover atividades interturmas, conhecer previamente a nova professora e os espaços ajudam a suavizar essa passagem. O mesmo vale para a transição da creche para a pré-escola e, posteriormente, para o Ensino Fundamental.
Na passagem da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, o direito de ser criança precisa ser mantido. O brincar continua sendo linguagem e forma de aprendizagem. É importante reconhecer o conhecimento já construído pelas crianças e proporcionar continuidade nos processos.
Carbonieri, Eidt e Magalhães (2020) alertam para as exigências de conduta no Ensino Fundamental que, por vezes, contradizem as necessidades da infância — como o aumento da rigidez, a diminuição do tempo para brincar, a cobrança por desempenho acadêmico imediato e a pouca escuta dos tempos infantis. Essas mudanças podem provocar estranhamento, insegurança e desmobilização nas crianças que estavam acostumadas com ambientes mais acolhedores e flexíveis, como os da Educação Infantil.
Planejar essa transição com sensibilidade significa compreender que a infância não se encerra ao final da Educação Infantil. É preciso respeitar os tempos de amadurecimento, garantir espaços de escuta ativa e preservar elementos fundamentais do cotidiano da criança, como o brincar, a curiosidade, a experimentação e o vínculo afetivo com os adultos. A continuidade de práticas que valorizam a ludicidade, a expressão e o protagonismo infantil favorecem a construção de uma passagem mais fluida entre as etapas, sem rupturas abruptas.
Promover encontros entre os profissionais dos dois segmentos, envolver as famílias nesse diálogo e preparar os ambientes físicos e simbólicos da nova etapa também são ações potentes para assegurar que a transição respeite o que as crianças já viveram e fortaleça os vínculos com o novo percurso que se inicia. Assim, as crianças se sentem reconhecidas em suas histórias e encorajadas a seguir aprendendo com confiança e alegria.
Quando a transição envolve diferentes instituições, o diálogo é essencial. Visitas à nova escola, encontros com as equipes, familiarização com os espaços e projetos pedagógicos tornam a mudança mais tranquila e significativa.
Boas práticas para qualificar as microtransições:
Retomamos algumas boas práticas que podem ser incluídas no planejamento das ações cotidianas e que podem apoiar crianças, famílias e educadores nos processos de mudanças:
- Anunciar com clareza e afeto a rotina
Evitar transições abruptas. Antes de cada mudança na rotina (como ir ao refeitório, trocar de ambiente ou encerrar uma proposta), o professor pode antecipar verbalmente o que acontecerá, permitindo que a criança se prepare emocional e cognitivamente.
- Utilizar marcadores visuais ou sonoros
Recursos como imagens reais, símbolos, músicas ou instrumentos ajudam as crianças a reconhecerem e se organizarem em relação ao que vem a seguir. Não queremos “adestrar” as crianças, mas criar símbolos que ajudem a organizar rotinas com mais autonomia.
- Dar tempo e escuta para a transição emocional
Microtransições envolvem não só deslocamentos físicos, mas também mudanças de foco e emoção. Reservar momentos de respiro, permitir que a criança finalize o que está fazendo e acolher suas reações são formas de respeitar seus tempos.
- Envolver as crianças no planejamento da rotina
Permitir que elas participem das decisões sobre a ordem das propostas, sobre onde querem brincar ou o que gostariam de fazer depois, aumenta a previsibilidade e o sentimento de pertencimento.
- Favorecer a autorregulação e autonomia
Oferecer pequenas responsabilidades (como distribuir os materiais, ajudar a organizar o espaço ou acompanhar colegas em deslocamentos) ajuda as crianças a desenvolverem autonomia nos momentos de transição.
- Flexibilizar os tempos da rotina
Evitar rigidez nos horários permite que as transições respeitem os processos em curso. Se um grupo está engajado em uma brincadeira ou conversa significativa, o adulto pode ajustar o tempo da próxima etapa com sensibilidade.
- Registrar com as crianças os combinados do cotidiano
Elaborar, com elas, painéis de rotina com fotos das próprias crianças em ação, criando uma linguagem comum que contribui para a organização e o entendimento do dia.
- Cuidar das transições entre turnos ou professores
Garantir a comunicação entre os adultos que acompanham as crianças ao longo do dia evita rupturas. Um bilhete, uma breve conversa ou um mural com registros ajuda na continuidade do vínculo e do olhar sensível sobre cada criança.
- Cultivar uma escuta ativa para as reações das crianças
Algumas crianças demonstram desconforto diante das transições com comportamentos ou silêncios. Observar esses sinais e adaptar as estratégias com empatia é fundamental para garantir um ambiente seguro.
- Responsabilidades compartilhadas
Criar instrumentos de registro de funções do dia que realizarão em colaboração com outras crianças. Por exemplo: quem será a dupla responsável por entregar as canetas? Quem são as crianças que ficarão responsáveis por regar as plantas? Quem será a dupla que entregará recados? Partilhar responsabilidades favorece o desenvolvimento da autoconfiança, da autonomia e do senso de pertencimento, à medida que cada criança se reconhece como parte ativa da vida coletiva do grupo.
Considerações Finais
Transitar é uma constante na vida das crianças. Quando bem-cuidadas, essas mudanças promovem segurança emocional, autonomia e formação integral. Não se trata apenas de passar de uma etapa a outra, mas de considerar a criança como sujeito de direitos, em sua singularidade e inteireza.
As transições não devem ser vistas como momentos isolados, mas como processos que precisam ser planejados com escuta, sensibilidade e respeito às histórias e aos tempos de cada criança. Toda mudança envolve uma certa dose de incerteza — e, por isso mesmo, exige adultos disponíveis, afetivamente presentes e atentos às necessidades infantis. É papel da escola construir pontes seguras que permitam que a criança atravesse as etapas do seu desenvolvimento com confiança, curiosidade e alegria.
Promover a continuidade dos vínculos, manter elementos familiares da rotina, respeitar as expressões emocionais e garantir espaços de acolhimento e pertencimento são práticas que fortalecem a construção da identidade e o sentimento de segurança. Afinal, é nesse chão seguro que a criança encontra espaço para crescer, aprender e se expressar plenamente.
Cuidar das transições é, portanto, um compromisso ético e político com a infância. É reconhecer que cada pequeno passo — do berçário ao Ensino Fundamental — carrega significados profundos e precisa ser vivido com sentido. Ao valorizar esse percurso com intencionalidade e presença, reafirmamos nossa responsabilidade coletiva na construção de uma escola que acolhe, escuta e acompanha as crianças em todos os seus tempos e movimentos.
Referências Bibliográficas
CARBONIERI, Denise D.; EIDT, Nadine M.; MAGALHÃES, Ana M. Transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental. In: ________. Ensino Fundamental: desafios e possibilidades. Campinas: Papirus, 2020.
GONÇALVES, Maria H. N.; DAMKE, Luciane I. Acolhimento, espaços e tempos na Educação Infantil. In: ________. Educação Infantil: saberes e práticas. Curitiba: CRV, 2016.
HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.
HOYUELOS, Alfredo. Pedagogia da escuta e pesquisa. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2019.
HOYUELOS, Alfredo. Aprender en la escuela. Infancia: educar de 0 a 6 años. Barcelona: Asociación de Maestros Rosa Sensat, n. 137, p. 32-38, 2013.
PIVA, Luiza. Microtransições na Educação Infantil. Porto Alegre: Penso, 2019.
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