cuidar da infância em movimento
Conteúdo formativo Educador

Cuidar da Infância em movimento: reflexões sobre os processos de transição na escola das infâncias 

Por Gilvania Porto

Estimativa de leitura: 13min 55seg

10 de novembro de 2025

A verdadeira educação acontece na interseção entre quem somos e quem estamos nos tornando, em diálogo com os outros.” (Bell Hooks). 

À medida que o ano letivo se despede, a escola se enche de gestos que anunciam mudanças. São os ritos de passagem que marcam o fim de um tempo e o início de outro, revelando que aprender e crescer também significam transitar. Cada instituição constrói seus modos de celebrar conquistas e acolher novos começos, mas é essencial que esses movimentos sejam pensados à luz das singularidades de cada segmento educativo.

Neste texto, olharemos para os processos de microtransição que acontecem no cotidiano da Educação Infantil e para as passagens que conduzem as crianças ao Ensino Fundamental — momentos que exigem cuidado, escuta e intencionalidade pedagógica para que continuem sendo experiências de pertencimento e continuidade, e não de ruptura. 

Segundo Hoyuelos (2013): “A infância é feita de partidas e chegadas, de passagens silenciosas que tecem o fio da continuidade”. As transições, quando compreendidas como parte do percurso educativo, tornam-se oportunidades para fortalecer vínculos, reconhecer conquistas e acolher as incertezas que acompanham cada nova etapa. Assim, mais do que um simples encerramento de ciclo, o tempo das passagens convida a escola a refletir sobre sua própria função formadora: acompanhar a criança em seu movimento de ser e de vir, garantindo que o caminho entre um ciclo e outro seja um território de continuidade, confiança e sentido. 

Compreendendo as transições na Primeira Infância  

A Educação Infantil é atravessada por diversas transições significativas na vida de bebês (0 a 1 ano e 6 meses), crianças bem pequenas (1 ano e 7 meses a 3 anos e 11 meses) e crianças pequenas (4 a 5 anos e 11 meses). Essas transições incluem a entrada na escola, mudanças de turma, a passagem da creche para a pré-escola e, mais adiante, para o Ensino Fundamental. 

As transições envolvem mudanças biológicas e psicossociais. No primeiro caso, estão relacionadas ao desenvolvimento e às novas formas de interação e exploração do mundo. No segundo, dizem respeito às relações interpessoais, ampliadas conforme as crianças conhecem outras pessoas e reelaboram suas ações. 

A primeira transição: de casa para a escola 

O ingresso na escola representa uma mudança profunda na vida da criança. A separação da família, o contato com adultos desconhecidos e a convivência com muitas crianças são experiências desafiadoras. Hoyuelos (2019) ressalta a importância de interpretar o choro como forma de comunicação, expressando diferentes emoções e necessidades. 

A colaboração das famílias é essencial nesse momento, como destacam Gonçalves e Damke (2016). Os adultos de referência devem permanecer no ambiente escolar nos primeiros dias, facilitando a criação de vínculos com as professoras e com os espaços. 

É importante compreender que adaptar-se à rotina escolar não é o mesmo que ser acolhido. Acolher é oferecer escuta, empatia e presença, reconhecendo os sentimentos das crianças e das famílias. 

O acolhimento como processo contínuo  

O cuidado com as crianças deve ser contínuo e sensível, ultrapassando os primeiros dias de entrada na escola. Para que esse processo seja mais tranquilo e acolhedor, é fundamental que a instituição planeje uma entrada escalonada, recebendo grupos pequenos de crianças em períodos diferenciados. Essa organização possibilita que cada criança receba atenção individualizada, favorecendo o estabelecimento do vínculo com os educadores e a adaptação gradual ao novo ambiente.  

Além disso, a disponibilidade de um espaço acolhedor para que as famílias permaneçam próximas durante esses momentos iniciais contribui para o sentimento de segurança e confiança tanto das crianças quanto dos adultos responsáveis. É imprescindível que a comunicação seja clara e transparente, especialmente no que se refere à ausência temporária dos familiares.  

Informar às crianças, de maneira adequada à sua faixa etária, sobre a saída dos adultos e a previsão de retorno ajuda a reduzir a ansiedade e a insegurança, demonstrando respeito às suas emoções e promovendo um ambiente de confiança. Dessa forma, o processo de transição se torna uma experiência mais suave, envolvendo crianças, famílias e educadores em uma rede de cuidado e acolhimento. 

Atividades compartilhadas no fim do dia, como rodas de música ou pequenas confraternizações, ajudam a fortalecer os laços entre crianças, famílias e escola. 

O cotidiano escolar e as microtransições 

Mesmo no cotidiano escolar, as crianças vivenciam microtransições: a chegada à escola, a troca de ambientes, o início e o fim das atividades. Piva (2019) afirma que são mudanças que exigem adaptação e sensibilidade dos adultos. 

A previsibilidade é essencial. Utilizar rotinas visuais com imagens reais é um recurso eficaz para que as crianças compreendam o que está por vir. Transições não devem ser abruptas. É necessário anunciar mudanças, respeitar os tempos individuais e construir o cotidiano de forma partilhada.  

Nesse sentido, envolver as crianças na organização e no entendimento dos momentos do dia é uma forma de lhes atribuir responsabilidade, favorecendo a autonomia e o protagonismo. Quando as crianças participam ativamente dos processos que estruturam a rotina — como escolher a ordem das propostas preparar o ambiente para uma nova experiência ou ajudar a recolher materiais — elas passam a compreender melhor o fluxo das transições e sentem-se mais seguras diante das mudanças.  

Essa participação contribui para que internalizem o ritmo do dia e se sintam corresponsáveis pelo andamento das propostas, reduzindo ansiedades e resistências. Além disso, o diálogo aberto com as crianças sobre o que está acontecendo e o que vai acontecer a seguir fortalece o vínculo entre educadores e crianças, cria um ambiente de respeito mútuo e promove a construção conjunta do espaço escolar.  

Assim, as microtransições deixam de ser momentos apenas de passagem para se tornarem oportunidades ricas de aprendizagem social e emocional, em que cada criança é protagonista do seu próprio percurso. 

Transições que desenvolvem a autonomia 

Deixar a mamadeira, passar do cadeirão para a mesa coletiva ou a mudança do alimento pastoso para o sólido são transições importantes que contribuem para o desenvolvimento da autonomia das crianças. Além dessas, outras situações cotidianas também favorecem esse processo.

Aprender a usar o banheiro sozinho, por exemplo, é um marco significativo, pois envolve o reconhecimento das próprias necessidades e a prática da higiene pessoal, que devem ser acompanhados com sensibilidade pelos educadores. Incentivar que a criança se vista e se despeça de forma independente, escolhendo suas roupas e calçando seus sapatos, também fortalece suas habilidades e a confiança em si mesma. 

Outro aspecto importante é a participação na organização dos próprios pertences, como mochila e materiais escolares, bem como a colaboração na arrumação do espaço coletivo, que ajuda a construir o sentimento de pertencimento e responsabilidade.

Permitir que as crianças escolham as brincadeiras ou propostas que desejam realizar incentiva o protagonismo e a tomada de decisões. Cuidar dos momentos de repouso, como aprender a reconhecer o cansaço e acomodar-se para o sono, bem como realizar sua higiene pessoal — lavar as mãos, escovar os dentes — de forma progressivamente autônoma, são etapas que merecem atenção cuidadosa. 

Por fim, desenvolver a capacidade de expressar necessidades e emoções é fundamental para que a criança construa sua autonomia emocional e social, encontrando caminhos para comunicar-se e interagir com o ambiente ao seu redor. 

Essas transições devem ser planejadas e acompanhadas por educadores atentos, que escutem as crianças, respeitem seus tempos e ritmos, e ofereçam suporte com sensibilidade. Assim, a autonomia é construída de forma segura, significativa e respeitosa, fortalecendo a confiança da criança em suas próprias capacidades. 

Mudanças de turno ou segmento 

Ao mudar de turma, é essencial que as relações estabelecidas sejam respeitadas. Promover atividades interturmas, conhecer previamente a nova professora e os espaços ajudam a suavizar essa passagem. O mesmo vale para a transição da creche para a pré-escola e, posteriormente, para o Ensino Fundamental. 

Na passagem da Educação Infantil para o Ensino Fundamental, o direito de ser criança precisa ser mantido. O brincar continua sendo linguagem e forma de aprendizagem. É importante reconhecer o conhecimento já construído pelas crianças e proporcionar continuidade nos processos. 

Carbonieri, Eidt e Magalhães (2020) alertam para as exigências de conduta no Ensino Fundamental que, por vezes, contradizem as necessidades da infância — como o aumento da rigidez, a diminuição do tempo para brincar, a cobrança por desempenho acadêmico imediato e a pouca escuta dos tempos infantis. Essas mudanças podem provocar estranhamento, insegurança e desmobilização nas crianças que estavam acostumadas com ambientes mais acolhedores e flexíveis, como os da Educação Infantil. 

Planejar essa transição com sensibilidade significa compreender que a infância não se encerra ao final da Educação Infantil. É preciso respeitar os tempos de amadurecimento, garantir espaços de escuta ativa e preservar elementos fundamentais do cotidiano da criança, como o brincar, a curiosidade, a experimentação e o vínculo afetivo com os adultos. A continuidade de práticas que valorizam a ludicidade, a expressão e o protagonismo infantil favorecem a construção de uma passagem mais fluida entre as etapas, sem rupturas abruptas. 

Promover encontros entre os profissionais dos dois segmentos, envolver as famílias nesse diálogo e preparar os ambientes físicos e simbólicos da nova etapa também são ações potentes para assegurar que a transição respeite o que as crianças já viveram e fortaleça os vínculos com o novo percurso que se inicia. Assim, as crianças se sentem reconhecidas em suas histórias e encorajadas a seguir aprendendo com confiança e alegria. 

Quando a transição envolve diferentes instituições, o diálogo é essencial. Visitas à nova escola, encontros com as equipes, familiarização com os espaços e projetos pedagógicos tornam a mudança mais tranquila e significativa. 

Boas práticas para qualificar as microtransições: 

Retomamos algumas boas práticas que podem ser incluídas no planejamento das ações cotidianas e que podem apoiar crianças, famílias e educadores nos processos de mudanças: 

  1. Anunciar com clareza e afeto a rotina 

Evitar transições abruptas. Antes de cada mudança na rotina (como ir ao refeitório, trocar de ambiente ou encerrar uma proposta), o professor pode antecipar verbalmente o que acontecerá, permitindo que a criança se prepare emocional e cognitivamente. 

  1. Utilizar marcadores visuais ou sonoros 

Recursos como imagens reais, símbolos, músicas ou instrumentos ajudam as crianças a reconhecerem e se organizarem em relação ao que vem a seguir. Não queremos “adestrar” as crianças, mas criar símbolos que ajudem a organizar rotinas com mais autonomia.  

  1. Dar tempo e escuta para a transição emocional 
    Microtransições envolvem não só deslocamentos físicos, mas também mudanças de foco e emoção. Reservar momentos de respiro, permitir que a criança finalize o que está fazendo e acolher suas reações são formas de respeitar seus tempos. 
  1. Envolver as crianças no planejamento da rotina 
    Permitir que elas participem das decisões sobre a ordem das propostas, sobre onde querem brincar ou o que gostariam de fazer depois, aumenta a previsibilidade e o sentimento de pertencimento. 
  1. Favorecer a autorregulação e autonomia 

Oferecer pequenas responsabilidades (como distribuir os materiais, ajudar a organizar o espaço ou acompanhar colegas em deslocamentos) ajuda as crianças a desenvolverem autonomia nos momentos de transição. 

  1. Flexibilizar os tempos da rotina 

Evitar rigidez nos horários permite que as transições respeitem os processos em curso. Se um grupo está engajado em uma brincadeira ou conversa significativa, o adulto pode ajustar o tempo da próxima etapa com sensibilidade. 

  1. Registrar com as crianças os combinados do cotidiano 

Elaborar, com elas, painéis de rotina com fotos das próprias crianças em ação, criando uma linguagem comum que contribui para a organização e o entendimento do dia. 

  1. Cuidar das transições entre turnos ou professores 

Garantir a comunicação entre os adultos que acompanham as crianças ao longo do dia evita rupturas. Um bilhete, uma breve conversa ou um mural com registros ajuda na continuidade do vínculo e do olhar sensível sobre cada criança. 

  1. Cultivar uma escuta ativa para as reações das crianças 

Algumas crianças demonstram desconforto diante das transições com comportamentos ou silêncios. Observar esses sinais e adaptar as estratégias com empatia é fundamental para garantir um ambiente seguro. 

  1. Responsabilidades compartilhadas 

Criar instrumentos de registro de funções do dia que realizarão em colaboração com outras crianças. Por exemplo: quem será a dupla responsável por entregar as canetas? Quem são as crianças que ficarão responsáveis por regar as plantas? Quem será a dupla que entregará recados? Partilhar responsabilidades favorece o desenvolvimento da autoconfiança, da autonomia e do senso de pertencimento, à medida que cada criança se reconhece como parte ativa da vida coletiva do grupo. 

Considerações Finais 

Transitar é uma constante na vida das crianças. Quando bem-cuidadas, essas mudanças promovem segurança emocional, autonomia e formação integral. Não se trata apenas de passar de uma etapa a outra, mas de considerar a criança como sujeito de direitos, em sua singularidade e inteireza. 

As transições não devem ser vistas como momentos isolados, mas como processos que precisam ser planejados com escuta, sensibilidade e respeito às histórias e aos tempos de cada criança. Toda mudança envolve uma certa dose de incerteza — e, por isso mesmo, exige adultos disponíveis, afetivamente presentes e atentos às necessidades infantis. É papel da escola construir pontes seguras que permitam que a criança atravesse as etapas do seu desenvolvimento com confiança, curiosidade e alegria. 

Promover a continuidade dos vínculos, manter elementos familiares da rotina, respeitar as expressões emocionais e garantir espaços de acolhimento e pertencimento são práticas que fortalecem a construção da identidade e o sentimento de segurança. Afinal, é nesse chão seguro que a criança encontra espaço para crescer, aprender e se expressar plenamente. 

Cuidar das transições é, portanto, um compromisso ético e político com a infância. É reconhecer que cada pequeno passo — do berçário ao Ensino Fundamental — carrega significados profundos e precisa ser vivido com sentido. Ao valorizar esse percurso com intencionalidade e presença, reafirmamos nossa responsabilidade coletiva na construção de uma escola que acolhe, escuta e acompanha as crianças em todos os seus tempos e movimentos. 

Referências Bibliográficas 

CARBONIERI, Denise D.; EIDT, Nadine M.; MAGALHÃES, Ana M. Transição da Educação Infantil para o Ensino Fundamental. In: ________. Ensino Fundamental: desafios e possibilidades. Campinas: Papirus, 2020. 

GONÇALVES, Maria H. N.; DAMKE, Luciane I. Acolhimento, espaços e tempos na Educação Infantil. In: ________. Educação Infantil: saberes e práticas. Curitiba: CRV, 2016. 

HOOKS, Bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013. 

HOYUELOS, Alfredo. Pedagogia da escuta e pesquisa. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2019. 

HOYUELOS, Alfredo. Aprender en la escuela. Infancia: educar de 0 a 6 años. Barcelona: Asociación de Maestros Rosa Sensat, n. 137, p. 32-38, 2013. 

PIVA, Luiza. Microtransições na Educação Infantil. Porto Alegre: Penso, 2019. 

Parte inferior do formulário 

Tags Relacionadas:
colunista Gilvania Porto
Mãe em formação, Pedagoga, especialista em Educação Infantil, pela PUC-RJ, Mestre em Educação Básica, pela UERJ, formadora de professores por mais de 30 anos. Busco inspiração em escolas pelo mundo, mas principalmente no Brasil. É Consultora Educacional da FTD Educação, no Rio de Janeiro. leia também Conteúdo para Aulas Enem – Tema 01 – O […]
O que achou dessa matéria?

O que achou dessa matéria?

Clique nas estrelas

Média da classificação 4.3 / 5. Número de votos: 3

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

mais recentes
Ebook: Saberes e práticas do Ensino Religioso: unidades temáticas do Ensino Religioso na BNCC.
Conteúdo formativo

E-book – Saberes e práticas do Ensino Religioso: Unidades temáticas do Ensino Religioso na BNCC

Família

Saúde mental das crianças nas férias: 9 atitudes que fortalecem o bem-estar infantil

Saúde mental das crianças nas férias: 9 atitudes que fortalecem o bem-estar infantil

brincadeiras nas férias
Família

15 brincadeiras para as férias com as crianças: diversão, vínculo e desenvolvimento longe das telas 

brincadeiras nas férias

15 brincadeiras para as férias com as crianças: diversão, vínculo e desenvolvimento longe das telas 

Silêncio, som e descanso: por que o professor precisa reaprender a ouvir nas férias?
Conteúdo formativo

Silêncio, som e descanso: por que o professor precisa reaprender a ouvir nas férias? 

Silêncio, som e descanso: por que o professor precisa reaprender a ouvir nas férias?

Silêncio, som e descanso: por que o professor precisa reaprender a ouvir nas férias? 

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro:

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro:

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro: