impacto da superficialidade
Educador

Estamos nos acostumando a pouco saber? O impacto da superficialidade na construção do conhecimento

Por Ailton Dias

Estimativa de leitura: 6min 22seg

4 de outubro de 2024

Este texto discute o impacto da superficialidade na construção do conhecimento, refletindo sobre como a Educação pode e precisa resistir à tendência de consumir “informações ultraprocessadas”, imediatistas e superficiais, e a importância de recuperar o tempo para o debate, a pesquisa e a reflexão crítica no ambiente escolar. 

Vivemos em uma sociedade que se acostumou a consumir informações em pequenas doses. Recortes de podcasts, vídeos curtos e generalizações circulam em nossas timelines e nos seduzem pela simplicidade e velocidade de apropriação.

“Alimentamo-nos” de “informações ultraprocessadas”. Essa expressão é usada aqui como uma metáfora para descrever o tipo de conteúdo que é simplificado ao extremo, descontextualizado e frequentemente distorcido para atender ao consumo rápido e superficial.

Assim como os alimentos ultraprocessados, que perdem valor nutricional e podem ser prejudiciais à saúde, as “informações ultraprocessadas” podem comprometer a qualidade de elaboração do conhecimento, levando à desinformação, à superficialidade e à dificuldade de reflexão.

Hoje, muitos conteúdos são “processados” várias vezes, simplificados em pequenos trechos, removidos de seus contextos originais e redistribuídos em formatos rápidos, como vídeos curtos, memes ou frases de efeito. Esse processo pode afetar a profundidade do pensamento e a capacidade de análise crítica. 

Essa simplificação toda pode ser perigosa. Com o crescimento das fake news e da pós-verdade, o que era para ser uma democratização da informação tornou-se um terreno fértil para a desinformação. Quando as referências teóricas desaparecem, o conhecimento fragmenta-se, perdendo profundidade e coerência.

O que isso significa para a Educação? 

Na escola, esse comportamento se reflete de forma particularmente grave. O consumo apressado de conteúdos traz impactos profundos e negativos para a formação dos estudantes e, consequentemente, para a produção de conhecimento.

Estamos testemunhando um fenômeno onde “teses” rapidamente se tornam “sínteses”, abandonando o processo dialético fundamental da “antítese”. A dialética – o confronto de ideias, a busca pela contradição, a construção através do debate – se vê abandonada. Isso compromete a capacidade analítica dos estudantes.

O estranhamento, a dúvida e o questionamento são fundamentais para o avanço do conhecimento e para o desenvolvimento de uma postura assertiva diante do mundo. O estranhamento nos permite ver o familiar com novos olhos, desafiando as certezas que tomamos como inquestionáveis.

A dúvida, por sua vez, é o motor da investigação, pois nos impede de aceitar verdades prontas e nos leva a explorar novas possibilidades e perspectivas. Já o questionamento é o ato de desafiar o status quo, de desconstruir ideias estabelecidas para reconstruí-las de forma mais sólida e embasada.

Esses três elementos são essenciais para formar mentes curiosas e autônomas, capazes de pensar além dos limites impostos pela superficialidade e pela repetição, promovendo um aprendizado mais profundo e significativo. Qual tem sido o lugar dessa tríade diante do que consumimos nos meios de comunicação? 

Acostumamo-nos com frases curtas, citações fora de contexto, e referências que nunca são verificadas. Essas práticas distorcem a pesquisa e a compreensão. Na era dos cliques e das curtidas, qual o espaço que resta para a pesquisa rigorosa, para a busca de fontes confiáveis, para o confronto de ideias? Onde está o tempo para construir conhecimento a partir de um processo investigativo? 

Byung-Chul Han, filósofo contemporâneo, alerta-nos sobre o desaparecimento dos rituais. A produção de conhecimento é um ritual, um processo que se dá em um tempo-espaço histórico e exige contextualização. O “tempo para a produção”, o tempo necessário para amadurecer uma ideia, é cada vez mais coibido pela urgência do presente.

O imediatismo devora a reflexão e, com ela, os rituais de construção do saber. Sem tempo para refletir, caímos na superficialidade, acostumamo-nos a conteúdos rápidos e fáceis, que não nos desafiam, nem nos levam a questionar. 

A crônica “Eu sei, mas não devia”, de Marina Colasanti, publicada em 1972, ilustra de forma poética como nos acostumamos com a repetição estéril de nossas rotinas, abandonando a busca pelo novo, pela reflexão, pela profundidade. “A gente se acostuma”, ela nos diz.

Acostumamo-nos a não ler um livro inteiro, a não investigar uma pesquisa até suas fontes mais remotas, a não confrontar autores. E, quando nos acostumamos com essa superficialidade, corremos o risco de nos perder de nós mesmos, de nossas potências criativas e de nossa capacidade de ver o mundo com profundidade. 

Se a Educação é o espaço onde se constrói o conhecimento, é urgente que as escolas resistam a essa tendência. É preciso recuperar o ritual da leitura, o confronto de ideias, o processo de pesquisa que exige tempo e dedicação. O conhecimento não se forma em sentenças curtas, mas em debates, em aprofundamentos e em confrontos que permitem a formação de mentes críticas e autônomas. 

Portanto, a pergunta que fica é: como a Educação pode retomar seu papel de formadora de cidadãos que não apenas consomem, mas questionam? Precisamos, urgentemente, nos “des-acostumar” da superficialidade, do conforto das respostas prontas e buscar o desconforto das perguntas complexas. Somente assim evitaremos que o conhecimento se perca de si mesmo. Evitaremos? Ainda há tempo? Por onde seguir?  

No espaço escolar, o impacto dessa superficialidade é evidente e preocupante. Quando o consumo de informações rápidas e descontextualizadas se torna uma prática comum, a formação dos estudantes sofre uma grave consequência: a redução da capacidade de reflexão crítica.

Os estudantes, acostumados a respostas imediatas e a conteúdos fragmentados, perdem o hábito de investigar em profundidade, o que prejudica sua autonomia intelectual.

A pesquisa, que deveria ser um processo contínuo e questionador, acaba se transformando em um exercício de repetição de informações superficiais, muitas vezes retiradas de fontes pouco confiáveis. Além disso, o tempo dedicado à reflexão e à confrontação de ideias — elementos essenciais para o desenvolvimento do pensamento crítico — é reduzido, uma vez que os estudantes não são incentivados a explorar as diversas camadas que compõem um conhecimento sólido. 

Consequentemente, o papel do professor também sofre transformações significativas. Em vez de ser o mediador de processos dialéticos e de construção coletiva do saber, o docente é frequentemente pressionado a atender demandas por resultados rápidos, o que compromete a profundidade das discussões em sala de aula.

A valorização do tempo, essencial para o amadurecimento das ideias, é substituída pela pressa em cumprir currículos extensos e provas padronizadas, que reforçam a superficialidade e a repetição.

A escola, assim, deixa de ser um ambiente de questionamento e de diálogo, tornando-se um espaço que reproduz a lógica imediatista da sociedade, onde o saber profundo cede lugar ao conhecimento raso e descontextualizado.

É urgente que as escolas recuperem seu papel formador, incentivando a leitura integral, o debate de ideias e a pesquisa investigativa, para que os estudantes se tornem, de fato, protagonistas de seu próprio conhecimento. Se a gente sabe que não deve, que a gente não se acostume… 

  • COLASANTI, Marina. Eu sei, mas não devia. Jornal do Brasil, 1972. Disponível em: [https://www.marinasantisite.com.br]. Acesso em: 19 set. 2024. 
  • HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Petrópolis: Vozes, 2018. 
professor Ailton Dias
Professor, estudante, filósofo, psicólogo, ator, dançarino e brincante de rua… Pessoa com sede de pessoas numa busca constante do entendimento do maior mistério da existência: o fenômeno da formação humana.  leia também Educador Fazer o ensino melhor por meio da tecnologia e transformar a sociedade por meio da Educação  Educador A reconstrução da Educação passa […]
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