Descubra como as ideias de bell hooks podem inspirar pais e educadores a formar cidadãos mais conscientes, críticos e engajados com a transformação social.
Quando me vejo escrevendo sobre Educação, percebo que as grandes mudanças da minha vida não vieram de respostas prontas, mas de perguntas que me tiraram da zona de conforto.
Talvez seja isso que bell hooks chamaria de pensamento crítico: a coragem de encarar a realidade com atenção, questionar o óbvio e, a partir daí, construir novas possibilidades de mundo.
Como redatora, formada em jornalismo e trabalhando em uma empresa de Educação, vejo-me constantemente envolvida em reflexões sobre o papel da escola, da família e da sociedade na formação das pessoas.
Quando conheci o trabalho de bell hooks, encontrei nele uma inspiração poderosa que dialoga com esse espaço profissional que ocupo hoje.
Por isso, neste artigo, quero compartilhar algumas ideias de hooks sobre como ensinar o pensamento crítico, não como especialista em pedagogia, mas como alguém que acredita profundamente na força transformadora da Educação.
Quem é bell hooks e por que suas lições importam
bell hooks foi uma das intelectuais mais influentes do século XX, reconhecida por unir teoria acadêmica, ativismo político e prática pedagógica abordando temas como feminismo, raça, classe, amor e espiritualidade.
O nome bell hooks é um pseudônimo de Gloria Jean Watkins, escolhido em homenagem à sua bisavó materna Bell Blair Hooks, sempre escrito em letras minúsculas como um gesto político: destacar a força das ideias acima da identidade pessoal.

O que eu mais gosto em seus escritos é a forma como ela parte da própria experiência, tanto como aluna quanto como professora, para pensar a Educação como prática de liberdade, expressão que ela mesma tomou emprestada de Paulo Freire.
A filosofia freireana foi uma das bases de seu trabalho, especialmente a ideia de que aprender não é decorar conteúdos, mas formar uma consciência crítica capaz de enxergar as desigualdades do mundo e agir para transformá-las.
No livro Ensinando pensamento crítico: sabedoria prática, hooks organiza 32 textos curtos, quase como conversas, que giram em torno de temas fundamentais para uma pedagogia engajada: gênero, raça, classe, espiritualidade, colaboração, humor, conflito, imaginação e tantos outros.
Tudo isso sem perder de vista que ensinar é também um ato de esperança e afeto.
A ponte entre bell hooks e Paulo Freire
Um aspecto que torna a obra de bell hooks especialmente relevante para nós, no Brasil, é sua forte ligação com o pensamento de Paulo Freire. Ela mesma reconhecia o educador pernambucano como um de seus maiores alicerces intelectuais e afetivos.
Assim como Freire, hooks acreditava que Educação é prática de liberdade. Para ela, o ato de aprender não se limitava ao domínio de conteúdos, mas envolvia a construção de uma consciência crítica sobre a realidade social.
Podemos dizer que hooks “traduziu” a pedagogia freireana para o contexto norte-americano, atravessado por questões de raça, gênero e classe.
Enquanto Freire falava da opressão vivida por populações empobrecidas na América Latina, hooks adaptou essa lente para discutir a experiência da população negra nos Estados Unidos, em especial as mulheres, e o impacto das hierarquias sociais dentro e fora da escola.
Essa ponte entre os dois mostra que o pensamento crítico não é uma habilidade neutra ou abstrata: é uma prática cotidiana, que se expressa na forma como aprendemos a ler o mundo, dialogar com ele e buscar caminhos de mudança.
Lições de bell hooks para ensinar o pensamento crítico
bell hooks diz que pensar é uma ação: o pensamento crítico nasce do desejo de compreender a vida em profundidade. Não se trata apenas de analisar dados ou fatos, mas de cultivar uma curiosidade genuína sobre o mundo.
Neste sentido, gostaria de destacar alguns pontos abordados no livro a fim de inspirar tanto educadores quanto pais e mães:
- Educação democrática: o pensamento crítico não floresce em ambientes autoritários. Para hooks, é preciso criar espaços de aprendizagem em que todos tenham voz, em que perguntas sejam valorizadas tanto quanto respostas.
- Pedagogia engajada: hooks acreditava que o conhecimento não pode ser separado da vida. Ou seja, ensinar exige conectar teoria e prática, unir os conteúdos escolares à realidade social dos estudantes.
- Conversação e colaboração: um dos trechos que mais me marcou no livro foi “aprendendo a conversar juntos, rompemos com a noção de que a experiência de adquirir conhecimento é particular, individualista e competitiva”. O pensamento crítico não é uma jornada solitária, ele se fortalece no diálogo, quando nos abrimos para ouvir perspectivas diferentes das nossas.
- Imaginação e esperança: para hooks, a crítica não deve ser apenas denúncia, mas também anúncio de novas possibilidades. Aqui entra o papel da imaginação, pois pensar criticamente não é só apontar problemas, é sonhar com caminhos alternativos. A escritora ainda ressalta que a Educação deve nutrir uma esperança ativa que nos move para criar soluções.
- Humor e humanidade: entre os seus ensinamentos está a lembrança de que rir e chorar, também é revolucionário. Em um mundo em que a escola muitas vezes é sinônimo de rigidez, bell hooks nos convida a resgatar o humor, o afeto e até a vulnerabilidade como partes do processo educativo. Pensamento crítico não significa endurecer, mas sim humanizar.
“Ao nos convidar para examinar criticamente nosso mundo, nossa vida, a sabedoria prática nos mostra que todo aprendizado genuíno exige de nós uma abertura constante, uma disposição de se engajar na invenção e na reinvenção.”, trecho do livro Ensinando pensamento crítico: sabedoria prática de bell hooks.
O papel do educador no desenvolvimento dessa habilidade
Uma das ideias mais fortes de bell hooks é que o professor não deve ser visto como o detentor absoluto do saber, mas como alguém que aprende junto com os estudantes.
Ser educador, nesse sentido, é assumir a responsabilidade de criar condições para que o pensamento crítico floresça.
- Dar exemplo: mostrar, no dia a dia, como se faz uma leitura crítica do mundo. Quando um professor comenta uma notícia e questiona os diferentes pontos de vista, ele está ensinando a pensar e a ouvir.
- Praticar a escuta: dar espaço para que os estudantes expressem suas opiniões e experiências. Muitas vezes, uma simples pergunta — “o que você acha disso?” — pode abrir um campo de reflexão riquíssimo.
- Valorizar a diversidade: hooks nos lembra constantemente que gênero, raça e classe atravessam a experiência educativa. Reconhecer e acolher essas diferenças é fundamental para que todos se sintam incluídos e, assim, mais engajados.
- Cultivar a integridade: o pensamento crítico exige coragem para sustentar posições, mas também humildade para revisá-las quando necessário. Esse equilíbrio entre firmeza e abertura é algo que os educadores podem demonstrar no próprio modo de conduzir as aulas.
Por que ensinar pensamento crítico importa tanto hoje
Vivemos em tempos de excesso de informação, fake news, discursos polarizados e mudanças sociais rápidas. Nesse cenário, as habilidades de pensamento crítico não são apenas desejáveis, mas vitais.
Ensinar crianças e jovens a questionar, analisar, imaginar e dialogar é preparar cidadãos capazes de agir com consciência e responsabilidade.
bell hooks nos oferece, portanto, não apenas uma teoria pedagógica, mas uma prática transformadora. Ao ler suas palavras, sinto que ela nos convida a repensar a sala de aula como um espaço de vida, onde educadores e educandos crescem juntos, aprendendo a conversar, a rir, a discordar e a sonhar.
E, se me permite uma última reflexão pessoal: cada vez que aplico um pouco dessas lições no meu próprio cotidiano, seja em uma conversa com colegas, seja em um momento de escuta com alguém próximo, percebo que ensinar pensamento crítico não é tarefa apenas da escola. É uma prática diária, que começa no jeito como olhamos o mundo e na disposição de não aceitar o óbvio sem antes pensar.
Talvez essa seja uma grande herança de bell hooks: lembrar-nos que educar e aprender é um ato de esperança e coragem, que ultrapassa a sala de aula.








