Quando tudo parece possível, o essencial se torna um ato de coragem.
A escola de Educação Básica parece ter perdido o direito de ser básica. Em um tempo em que tudo precisa ser inovador, veloz e performático, o simples ato de fazer o que é essencial tornou-se quase um gesto de resistência.
Surgiu, então, a “escola novidadeira”, aquela que se vê obrigada a apresentar uma inovação por dia, como se sua legitimidade dependesse do número de novidades que exibe. Mas o papel da escola não é fazer tudo: é fazer o que lhe é próprio; o básico bem-feito. E esse “básico” está longe de ser pouco. É ele que lança alicerces, ergue balizas e oferece as condições para que crianças e jovens se tornem adultos capazes de lidar com a complexidade do mundo.
Ser básico é tocar o essencial. É permanecer junto daquilo que dá origem, daquilo que funda e sustenta. Na tradição filosófica grega, os primeiros pensadores buscavam compreender o arché — o princípio de todas as coisas, o elemento originário sem o qual nada poderia existir.
Ser básico, nesse sentido, é estar voltado para o arché da Educação: o cuidado com o humano em sua formação mais elementar, com o aprender a pensar, a sentir, a conviver, a interpretar o mundo. O básico é o que não passa, o que permanece, o que permite que o novo exista sem se perder. É a raiz da árvore, invisível, mas vital; é o alicerce da casa, que não aparece na paisagem, mas mantém tudo em pé. Uma escola básica, portanto, não é uma escola mínima, reduzida ou simplista. É uma escola que reconhece o valor do que sustenta, o vigor do que funda, a dignidade do que começa.
Ser básica é compreender um currículo e um projeto que nascem do fundamento e se desdobram em todas as dimensões da vida. Um currículo em que há beleza e profundidade não apenas nas primeiras letras e nos primeiros números, mas também no movimento do corpo, na descoberta sensível de si e do outro, na brincadeira que ensina a conviver, na fantasia que desperta o imaginário, na contação de histórias que alimenta o simbólico, no processo de adolescer que confronta o mundo e busca sentido.
Ser básica é ter um projeto que ajuda a comunidade educativa a reconhecer que o fundamento não é o oposto do futuro, mas a condição de sua possibilidade, porque toda aprendizagem verdadeiramente humana começa quando o currículo se faz corpo, palavra, gesto e sentido.
No entanto, como lembram Miguel Arroyo e Alfredo Veiga-Neto, o currículo é sempre um território em disputa. Nele se entrecruzam forças políticas, culturais e econômicas que tentam definir o que deve ou não ser ensinado. A cada ciclo histórico, novas expectativas são sobrepostas, e o currículo, inflado, se torna quase impraticável. A escola, que deveria ser o espaço da formação integral, acaba se tornando uma arena de demandas, muitas vezes legítimas, mas desordenadas, que obscurecem aquilo que a sustenta: a construção sólida das competências básicas.
Não é raro que as frustrações dos adultos se transformem em novas exigências para a escola. Se a sociedade sente falta de segurança, propõe-se incluir defesa pessoal nas aulas; se o preenchimento do imposto de renda é um desafio, sugere-se ensinar isso desde cedo; se os adultos não sabem se comportar no trânsito, é a escola que passa a ser chamada para resolver o problema, de preferência ainda na infância.
Ora, a função da Educação Básica não é antecipar a vida adulta, mas oferecer as bases éticas, cognitivas e relacionais para que o sujeito possa, no tempo certo, construir as competências específicas que a vida lhe exigirá. Quando se exige que a criança dê conta de todas as falhas do mundo adulto, rouba-se dela a possibilidade de aprender no seu próprio tempo.
Outro equívoco frequente é a compreensão distorcida da ideia de projeto. Toda escola possui um projeto político-pedagógico (PPP), construído coletivamente, fundamentado na legislação e nas escolhas filosóficas que orientam seu fazer pedagógico. Esse é o verdadeiro projeto, estruturante, contínuo, articulador.
No entanto, a palavra “projeto” foi banalizada. Passou a nomear intervenções pontuais, muitas vezes aleatórias, que surgem no meio do ano letivo com o propósito de atender urgências externas. O resultado é a fragmentação. A escola, que deveria ser um rio com direção, torna-se uma curva de rio: tudo que a sociedade joga nela desce correnteza abaixo, mas ali se acumula, porque ninguém tem coragem de retirar o que não cabe.
Hartmut Rosa chama isso de paralisia frenética: multiplicamos tarefas, corremos mais, mas continuamos no mesmo lugar. A escola vive esse paradoxo. A cada nova campanha, a cada programa de engajamento, ela acelera, mas não avança. Byung-Chul Han, em A sociedade paliativa, nos alerta para o perigo de mascarar essa dor com doses de “pseudomotivação”. Em vez de enfrentar o excesso, criamos mais excesso. Inventamos slogans de entusiasmo, discursos de superação e uma enxurrada de atividades que disfarçam o cansaço sem transformar a causa. A lógica da novidade contínua não fortalece a escola, ela a esgota.
Talvez seja tempo de devolver à escola o direito de ser básica. Não no sentido de ser mínima, mas de ser essencial. De cuidar das bases, das estruturas, dos fundamentos. Alfabetizar bem, ensinar a pensar, cultivar o raciocínio matemático, despertar a curiosidade científica, formar consciência histórica e ética, nada disso é pouco. É o bastante para sustentar tudo o que virá depois. Quando a escola se permite ser o que é, ela reencontra a sua potência. Ao desacelerar, ela não se torna obsoleta; torna-se humana. E talvez seja justamente nesse ritmo — o ritmo do humano — que a Educação reencontre sua força de formar, de verdade, um futuro possível.
Referências
- ARROYO, Miguel G. Currículo, território em disputa. 5. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.
- HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
- HAN, Byung-Chul. Sociedade paliativa. Petrópolis: Vozes, 2021.
- ROSA, Hartmut. Aceleração: a transformação das estruturas temporais na Modernidade. São Paulo: Editora Unesp, 2019.
- ROSA, Hartmut. Alienação e Aceleração: Por uma teoria crítica da temporalidade tardo-moderna. Petrópolis: Vozes, 2022.
- VEIGA-NETO, Alfredo. Currículo, cultura e sociedade. 4. ed. Porto Alegre: Mediação, 2012.








