Em um mundo onde o tempo se dissolve em pressa e fragmentação, nos esquecemos de algo essencial: o concluir.
Vivemos em uma época marcada pela incapacidade de concluir e consequentemente de recomeçar. Sem finalizar um processo não recomeçamos, damos continuidade. Um dos motivos dessa nossa dificuldade para conclusões pode ser percebido pela crise de narrativas que vivemos.
As narrativas que dão sentido à experiência humana estão fragmentadas e dispersas, como observa Byung-Chul Han em suas análises sobre a sociedade contemporânea. O ritmo frenético e a aceleração do tempo não apenas distorcem nossa relação com o presente, mas também comprometem a possibilidade de criar histórias dotadas de início, meio e fim.
Nesse contexto, torna-se crucial resgatarmos um tempo outro — um tempo que nos permita fechar os olhos, silenciar e reconectar com o essencial.
Han recorre a Walter Benjamin para compreender a crise da narrativa. Benjamin, em seu ensaio O Narrador, denuncia a modernidade como uma época que enfraqueceu a transmissão de experiências significativas.
A narrativa, diferentemente da informação, requer tempo e envolvimento, elementos cada vez mais escassos em um mundo regido pela pressa e pelo hiperconsumo de conteúdo processados e ultraprocessados. Para Han, essa fragmentação temporal reflete-se em uma existência desprovida de conclusões e marcada pela ansiedade do inacabado e pela superficialidade com que encaramos a vida e o conhecimento.
Entre a aceleração e o vazio
A crise da conclusão revela-se na impossibilidade de encerrar processos. O tempo lança-se perpetuamente à frente, sem pausas, direção ou sentido. Essa experiência cria um descompasso que gera inquietação e exaustão. Vivemos, como aponta Han, mais instantes do que histórias. Os instantes satisfazem momentaneamente, mas, sem passado e futuro, carecem de significado duradouro.
Nesse fluxo incessante, a “sociedade do desempenho” – conceito central em Han – transforma o sujeito em uma máquina produtiva, incapaz de descansar ou concluir. O trabalho perde seu ritmo natural e invade todas as esferas da vida, convertendo o tempo em um recurso a ser explorado. O resultado é um colapso subjetivo: fadiga, ansiedade, burnout. Adormecemos por exaustão, e não experimentamos a serenidade de quem conclui um ciclo.
Rituais, narrativas e a “Arte” de fechar os olhos
Os rituais, segundo Han, são formas de conclusão que conferem sentido ao tempo. Um funeral, por exemplo, encerra simbolicamente um ciclo, oferecendo espaço para o luto e a reflexão. Entretanto, em uma sociedade que despreza o ritmo e o compasso, os rituais perdem sua força. Sem eles, somos incapazes de criar espaços de pausa e contemplação. Não conseguimos fechar os olhos…
Fechar os olhos não é apenas um gesto físico, mas um ato simbólico de resistência à hiperatividade e à superficialidade do mundo contemporâneo
A festa é um outro bom exemplo que emerge como uma possibilidade de ruptura ritual. Originada em celebrações religiosas, a festa é um tempo outro, diametralmente oposto ao tempo do trabalho. No latim, feriae remete a um tempo sagrado, dedicado à pausa e à celebração. Para que haja festa, é necessário suspender o cotidiano e permitir que o profano — o tempo utilitário do trabalho — seja interrompido. Esse intervalo cria espaço para a inteireza e para a experiência de sentido, que são frequentemente soterrados pela lógica do desempenho incessante.
Entretanto, na sociedade contemporânea, mesmo a festa foi capturada pela produtividade. Em vez de ser um momento de transcender o trabalho, muitas festas se transformaram em extensões do mundo utilitário, perdendo sua capacidade de inaugurar um tempo outro. Para Han, é urgente resgatar o sentido original da festa como um ritual de pausa, onde o sagrado e o coletivo se encontram para restaurar a subjetividade.
A relação entre festa e trabalho também ilumina como o tempo foi reduzido a um recurso exclusivamente produtivo. A sociedade do cansaço, conceito tão explorado por Han, transforma toda pausa em uma oportunidade de recuperar energia apenas para continuar produzindo. Isso viola a essência do tempo sagrado da festa, que deveria ser um momento de celebração pela própria existência, não pelo que ela pode gerar. O desafio está em resgatar o espaço onde a celebração não seja um apêndice do trabalho, mas uma experiência de sentido em si mesma.
Uma revolução temporal?
Para resgatarmos o sentido da conclusão, precisamos de uma revolução temporal. Essa revolução não se limita à desaceleração, que, segundo Han, é apenas um sintoma disfarçado do tempo do trabalho. É necessário recriar um tempo dotado de música, silêncio e aroma – um tempo que valorize as pausas, os encerramentos e as narrativas.
Fechar os olhos não é apenas um gesto físico, mas um ato simbólico de resistência à hiperatividade e à superficialidade do mundo contemporâneo. É a possibilidade de silenciar e reencontrar a subjetividade perdida em meio ao ruído das imagens digitais e ao caos da informação incessante.
A festa, entendida como um tempo de celebração e pausa, pode inspirar novas maneiras de ensinar e aprender, resgatando o sentido da inteireza.
Em um mundo onde “adiantamos” constantemente o futuro sem viver o presente, cabe a nós criarmos espaços de conclusão. Como educadores, podemos ensinar nossos alunos a valorizar o ritmo natural das coisas, a refletir sobre suas experiências e a construir narrativas significativas.
A festa, entendida como um tempo de celebração e pausa, pode inspirar novas maneiras de ensinar e aprender. Em última análise, ensinar a concluir é ensinar a viver, só assim podemos, a cada novo ciclo, recomeçar.
Referências
BENJAMIN, Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: ______. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas, volume I. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 197-221.
HAN, Byung-Chul. Favor fechar os olhos: Em busca de um outro tempo. Petrópolis: Vozes, 2022.
HAN, Byung-Chul. O desaparecimento dos rituais: Uma topologia do presente. Petrópolis: Vozes, 2024.








