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Formação continuada ou animação emocional? Os riscos da superficialidade nas jornadas pedagógicas 

Por Ailton Dias

Estimativa de leitura: 7min 18seg

15 de janeiro de 2026

Entre o reencontro e o recomeço, o início do ano letivo revela escolhas silenciosas: formar ou apenas animar, cuidar ou apenas aliviar. À luz da crítica à sociedade paliativa e da busca de sentido na formação humana, este texto convida a repensar as jornadas pedagógicas como espaços de pensamento, e não como palcos de entusiasmo passageiro. 

O início do ano letivo costuma ser marcado por encontros, reuniões e jornadas pedagógicas que sinalizam recomeço, reencontro e expectativa. Há algo de bonito nesse momento. Professores e professoras se veem novamente, as escolas se reorganizam, o ano se abre como possibilidade. Esse clima de chegada é importante e não deve ser desprezado. No entanto, é justamente nesse ponto que se instala um risco silencioso: confundir acolhimento com animação, formação com estímulo emocional e cuidado com paliativo. 

Temos assistido, nos últimos anos, a um esvaziamento progressivo do sentido da formação continuada, especialmente quando ela se materializa nesses grandes encontros que inauguram o calendário escolar. Em muitos contextos, a jornada pedagógica deixa de ser um espaço de pensamento, aprofundamento e elaboração coletiva para se tornar mais um evento marcado por frases de efeito, dinâmicas genéricas e estímulos que produzem impacto imediato, mas pouca transformação real. Não se trata de negar a importância do clima afetivo, da leveza ou do entusiasmo. Trata-se de perguntar, com seriedade: isso forma ou apenas anima? 

Vivemos em uma sociedade que evita o confronto com a dor e com a complexidade. Byung-Chul Han descreve esse tempo como uma sociedade paliativa, marcada pela recusa do negativo, pela busca constante de alívio e pela transformação de qualquer sofrimento em algo a ser rapidamente neutralizado. Essa lógica, inevitavelmente, atravessa a escola. Quando a formação docente passa a operar sob a mesma chave, ela corre o risco de se tornar um dispositivo de anestesia institucional: reconhece-se o cansaço, mas não se enfrenta o que o produz; fala-se de motivação, mas não se revisam as condições de trabalho; propõe-se entusiasmo, mas não se sustenta o sentido. 

É nesse ponto que a distinção entre excitação e motivação se torna fundamental. Muitos encontros formativos apostam em recursos que produzem um efeito imediato: vídeos emocionantes, músicas envolventes, falas inspiradoras, dinâmicas rápidas. Esses estímulos funcionam. Eles ativam reações neuroquímicas conhecidas, liberam dopamina e adrenalina, geram sensação de energia e disposição. Mas esse efeito é transitório. Ele não cria sustentação, não reorganiza a prática, não aprofunda o pensamento. A excitação passa, e o cotidiano retorna exatamente como antes. Confundir esse pico emocional com motivação é um equívoco conceitual e pedagógico. 

Motivação verdadeira não é um estado emocional passageiro. Ela não nasce do estímulo externo, mas do sentido atribuído àquilo que se faz. Nesse aspecto, a escola deveria ser o último espaço a nivelar por baixo sua proposta formativa. O professor é um adulto, um profissional do conhecimento, alguém que lida cotidianamente com complexidade, tomada de decisão, análise crítica e produção de sentido.

Formar adultos exige uma lógica andragógica, que respeite sua inteligência, sua experiência e sua necessidade de relevância. Adultos não se engajam porque foram animados, mas porque reconhecem sentido no que lhes é proposto. 

Quando a jornada pedagógica se limita a levantar o ânimo, ela deixa de cumprir sua função formativa. Quando ela evita o pensamento crítico para não gerar desconforto, ela apenas suaviza sintomas. A formação continuada não pode ser reduzida a mais um encontro no calendário, pensado como remendo emocional para um cansaço que é estrutural. Ela precisa ser processo, continuidade, aprofundamento. Precisa produzir impacto cognitivo, afetivo e ético, não apenas estético. 

Nesse cenário, vale recuperar uma pergunta fundamental: o que estamos oferecendo aos professores quando falamos em formação? Estamos oferecendo conteúdo que dialogue com a realidade da escola, com os desafios concretos da sala de aula, com as tensões do trabalho pedagógico? Ou estamos oferecendo discursos genéricos, muitas vezes produzidos por quem pouco conhece o cotidiano escolar, que soam bem no palco, mas não sobrevivem ao chão da escola? 

Há um aspecto ético importante nessa discussão. A escolha de quem conduz uma jornada pedagógica, o tipo de abordagem adotada, a densidade do conteúdo oferecido, tudo isso comunica algo ao professor. Comunica se ele é visto como sujeito pensante ou apenas como alguém que precisa ser estimulado para continuar funcionando. A curadoria do conteúdo é, em si, um gesto de cuidado. A seriedade na proposta formativa também. 

A qualidade de uma jornada pedagógica começa na curadoria: quem fala, do que fala e a partir de que lugar fala. Levar para uma jornada pedagógica alguém que nunca pisou numa escola, desconhece a realidade docente, fala em abstrações genéricas e propõe soluções descoladas do cotidiano da escola não apenas compromete a formação; revela uma forma sutil de desrespeito à docência. 

Fala-se muito, em determinados momentos do ano, sobre saúde emocional e cuidado. Essa preocupação é legítima e necessária. O problema surge quando o cuidado se transforma apenas em discurso ou evento. “Cuidar de quem cuida” não é multiplicar palestras sobre emoções, nem acrescentar mais encontros à agenda já sobrecarregada do professor. Cuidar é reorganizar o trabalho de modo mais humano. É respeitar o tempo. É evitar retrabalho desnecessário. É proteger os momentos de descanso. É não invadir horários com demandas que poderiam esperar. É valorizar o tempo de formação como tempo de pensamento, e não desperdiçá-lo com atividades vazias. 

Quando o cuidado se limita à retórica, ele se torna paliativo. Ele alivia momentaneamente, mas não sustenta. A saúde emocional não se constrói apenas falando de emoções, mas criando condições concretas para que o trabalho não seja permanentemente adoecedor. Nesse sentido, a jornada pedagógica pode ser um espaço privilegiado de cuidado real, desde que seja pensada com responsabilidade e profundidade. 

É aqui que a contribuição de Viktor Frankl se torna particularmente fecunda. Frankl nos lembra que o ser humano não é movido fundamentalmente pelo prazer ou pelo estímulo, mas pela busca de sentido. A motivação profunda nasce quando a pessoa reconhece que aquilo que faz responde a um chamado, a uma tarefa que a vida lhe apresenta. O sentido não é inventado artificialmente; ele é descoberto na realidade concreta, na relação com o trabalho, com o outro e com as circunstâncias. 

Cuidar de quem cuida não é criar momentos especiais de acolhimento, 
é transformar o cotidiano do trabalho em um espaço minimamente saudável e respeitoso. 

Aplicado à docência, isso nos leva a uma constatação simples e poderosa: o professor não sustenta seu trabalho porque está animado, mas porque encontra sentido no que faz. E esse sentido não se constrói por slogans, mas por reconhecimento, condições dignas, pertencimento e possibilidade real de reflexão sobre a própria prática. Formação continuada, nesse horizonte, não é espetáculo. É espaço de elaboração do sentido da docência. 

A escola que compreende isso não transforma a jornada pedagógica em palco, mas em lugar de pensamento. Não foge da complexidade, não evita o desconforto necessário, não substitui reflexão por euforia. Ao contrário, assume que formar é também tensionar, provocar, aprofundar. E faz isso com respeito, cuidado e seriedade. 

Talvez o desafio maior seja esse: resistir à tentação da formação paliativa e recuperar o valor da formação que sustenta. Em um tempo que prefere o alívio rápido ao enfrentamento responsável, apostar em jornadas pedagógicas densas, bem-curadas e conectadas com a realidade escolar é um gesto contra a corrente. Mas é justamente esse gesto que pode devolver sentido ao início do ano letivo, não como promessa vazia de entusiasmo, mas como compromisso real com a formação humana e profissional de quem sustenta a escola todos os dias. 

Referências 

HAN, Byung-Chul. Sociedade paliativa: a dor hoje. Petrópolis: Vozes, 2021. 

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 2019. 

professor Ailton Dias
Professor, estudante, filósofo, psicólogo, ator, dançarino e brincante de rua… Pessoa com sede de pessoas numa busca constante do entendimento do maior mistério da existência: o fenômeno da formação humana.  leia também Conteúdo formativo Integra Confessionais – 1º PERIÓDICO DE ANIMAÇÃO PASTORAL Educador Estilos, estratégias e técnicas de ensino na educação básica: professores em formação […]
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