Você ainda sabe fazer alguma coisa sem precisar ser excelente nisso?
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Você ainda sabe fazer alguma coisa sem precisar ser excelente nisso? 

Por Graziele Oliveira

Estimativa de leitura: 8min 24seg

28 de agosto de 2026

Quando foi que gostar de alguma coisa deixou de ser suficiente? 

Recentemente, comecei a cantar em um coral da igreja. Nunca fiz aula de canto. Não sou cantora profissional. Não tenho a pretensão de me tornar uma. Entrei porque gosto de música, porque queria participar e porque cantar junto a outras pessoas me pareceu uma forma bonita de servir a Deus. 

E não demorou muito para eu perceber algo curioso acontecendo. 

Comecei a querer cantar melhor. 

Até aí, tudo bem. Aprender é parte de qualquer atividade. O problema é que, em pouco tempo, percebi que não queria apenas aprender. Eu queria cantar bem. Depois, cantar muito bem. E, sem perceber, uma atividade que eu havia começado por prazer corria o risco de se transformar em mais um projeto de aperfeiçoamento. 

Foi então que surgiu uma pergunta desconfortável: 

Por que tudo aquilo que gostamos parece precisar se transformar em algo no qual somos muito bons? 

Talvez a pergunta não seja apenas sobre canto. 

Talvez ela diga algo sobre a maneira como aprendemos a viver. 

O desaparecimento do amador 

Hoje, a palavra “amador” raramente soa como elogio. 

Falamos em trabalho amador, resultado amador, postura amadora. 

Quase sempre significa falta de qualidade. 

Mas a origem da palavra conta outra história. 

Amador vem de amor. É aquele que faz alguma coisa porque gosta dela. 

Não porque recebe por isso. 

Não porque é especialista. 

Não porque construiu uma carreira. 

Mas porque encontra prazer naquela atividade. 

Em algum lugar do caminho, parece que nos tornamos desconfiados do amadorismo. 

Gostar de uma atividade já não parece suficiente. 

Precisamos desenvolver a habilidade. 

Depois, aperfeiçoá-la. 

Depois, destacar-nos nela. 

Depois, medir nosso progresso. 

E, se possível, mostrar esse progresso para alguém. 

O que começou como prazer rapidamente se transforma em desempenho. 
 

Quando o hobby vira projeto 

Talvez você já tenha percebido isso em outras áreas da vida. 

Começamos a correr e logo estamos acompanhando ritmo, distância e tempo. 

Começamos a fotografar e passamos a pesquisar equipamentos. 

Aprendemos a cozinhar e mergulhamos em técnicas mais sofisticadas. 

Começamos a ler por prazer e logo estabelecemos metas anuais. 

Nada disso é necessariamente ruim. 

A questão é a velocidade com que transformamos atividades prazerosas em projetos de aperfeiçoamento. 

Não basta mais gostar. 

Parece que precisamos ficar bons. 

E, quando ficamos bons, precisamos ficar melhores. 

A lógica da performance, tão presente no trabalho, acaba invadindo também os espaços que deveriam nos oferecer descanso. 

Até nossos hobbies começam a se parecer com tarefas. 

Até o lazer passa a ser avaliado. 

Até o prazer ganha indicadores. 

O que as pesquisas sobre lazer mostram 

Essa percepção encontra eco em pesquisas sobre bem-estar. 

Uma meta-análise publicada no Psychological Bulletin analisou a relação entre lazer e bem-estar subjetivo, reunindo dados de 11.834 participantes. Os pesquisadores encontraram uma associação positiva entre o envolvimento em atividades de lazer e o bem-estar. 

E um detalhe chama a atenção. Os resultados sugerem que não é apenas a quantidade de tempo livre que importa. A satisfação experimentada durante as atividades e a variedade dessas experiências também desempenham um papel relevante na relação com o bem-estar. 

Em outras palavras: não basta abrir espaço na agenda para algo que não seja trabalho. 

A forma como vivemos esse tempo também importa. 

E isso levanta uma pergunta interessante. 

O que acontece quando levamos para o lazer a mesma lógica de desempenho que governa nossa vida profissional? 

Quando correr deixa de ser correr e passa a ser uma comparação constante? 

Quando tocar um instrumento deixa de ser prazer e passa a ser uma avaliação permanente? 

Quando cantar deixa de ser cantar e passa a ser uma prova de competência? 

Talvez o descanso de que precisamos não seja apenas descanso do trabalho. 

Talvez precisemos descansar, algumas vezes, da necessidade de sermos excelentes. 

A pedagogia de ser ruim em alguma coisa 

Foi pensando nisso que comecei a enxergar o coral de outra forma. 

Talvez uma das experiências mais importantes para um educador seja voltar a ser iniciante. 

Aprender alguma coisa em que não tem domínio. 

Algo em que não tem experiência. 

Algo em que não se destaca. 

Os professores passam grande parte da vida ocupando o lugar de quem sabe. Explicam, orientam, corrigem, avaliam, acompanham. 

Mas o coral me lembrou de algo que os estudantes experimentam todos os dias. 

A sensação de não conseguir. 

A vergonha de errar. 

A comparação com quem aprende mais rápido. 

A dificuldade de acompanhar o grupo. 

A necessidade de repetir várias vezes até entender. 

Talvez todo professor devesse, de vez em quando, ser aluno de alguma coisa em que não leva muito jeito. 

Não para desenvolver uma nova competência profissional. 

Mas para lembrar, no próprio corpo, como é aprender. 

Porque aprender exige algo que nossa cultura tem dificuldade de aceitar: a disposição de permanecer em uma atividade mesmo quando ainda não somos bons nela

O que Eclesiastes tem a dizer sobre isso 

Há uma sabedoria interessante no livro de Eclesiastes. 

Depois de refletir sobre os limites da existência humana, o autor escreve: “Sei que nada há melhor para o homem do que alegrar-se e fazer o bem enquanto vive. E também que todo homem coma e beba e desfrute o bem de todo o seu trabalho; isso é dom de Deus.” (Eclesiastes 3:12-13) 

A expressão que mais me chama a atenção nesse texto é simples: “Isso é dom de Deus”

Desfrutar é dom. Alegrar-se é dom. Receber a vida como presente é dom. 

E talvez essa seja uma das verdades mais difíceis de sustentar em uma cultura orientada pela performance. 

Porque estamos constantemente tentando transformar experiências em resultados. 

Mas Eclesiastes nos lembra que somos criaturas. 

Não controlamos tudo. 

Não dominamos o tempo. 

Não conseguimos transformar cada aspecto da vida em um projeto de aperfeiçoamento. 

Existe algo profundamente humano em simplesmente receber. 

Receber uma refeição. 

Receber uma conversa. 

Receber um domingo. 

Receber uma música. 

Receber o prazer de fazer algo sem precisar provar nada a ninguém. 

Zelo não é a mesma coisa que excelência 

Alguém poderia argumentar que a Bíblia nos chama ao zelo. 

E é verdade. 

Paulo escreve: “Não lhes falte zelo, mas sejam fervorosos no espírito, servindo ao Senhor.” (Romanos 12.11) 

Mas talvez tenhamos confundido zelo com excelência. 

O zelo de Romanos 12 não aponta para desempenho extraordinário. 

Aponta para dedicação, serviço e amor. 

Posso cantar com zelo e ainda desafinar. 

Posso ensinar com zelo e ainda cometer erros. 

Posso aprender um instrumento com zelo e nunca me tornar excelente nele. 

Posso fazer alguma coisa com seriedade sem transformar essa atividade em uma medida do meu valor. 

Talvez essa seja uma distinção importante para nós e para nossos estudantes. 

O contrário do perfeccionismo não é o desleixo. É a liberdade de fazer algo com dedicação sem precisar transformar o resultado em uma prova de identidade. 

Precisamos ensinar as crianças a não serem excelentes em tudo 

A educação fala frequentemente sobre potencial, desenvolvimento e talento. 

E isso é importante. 

Mas talvez exista outra aprendizagem igualmente necessária. 

Aprender a gostar de alguma coisa sem precisar ser excepcional nela. 

Uma criança pode amar desenhar e nunca se tornar artista. 

Pode gostar de futebol e não ser a melhor do time. 

Pode gostar de cantar e não ter uma voz extraordinária. 

Pode amar escrever histórias e não se tornar escritora. 

E tudo bem. 

Porque o valor dessas experiências não está apenas naquilo que elas produzem. 

Está também naquilo que elas proporcionam. 

Alegria. 

Descoberta. 

Pertencimento. 

Prazer. 

Persistência. 

Encantamento. 

Se toda experiência for imediatamente interpretada pela lente do talento, corremos o risco de ensinar que gostar de algo só faz sentido quando existe desempenho correspondente. 

Mas a vida é maior do que isso. 

Ainda estou aprendendo a cantar 

Continuo no coral. 

Ainda quero aprender. 

Quero ouvir melhor. 

Quero cantar com mais segurança. 

Quero contribuir para que o conjunto soe bonito. 

Mas estou começando a perceber que talvez a principal aprendizagem não esteja na técnica. 

Talvez esteja na liberdade. 

A liberdade de continuar cantando mesmo que eu nunca me torne uma excelente cantora. 

A liberdade de aprender sem transformar cada ensaio em avaliação. 

A liberdade de gostar de algo sem precisar justificar esse gosto por meio da competência. 

Talvez algumas coisas em nossa vida não precisem se transformar em currículo, desempenho, produtividade ou reconhecimento. 

Talvez algumas coisas possam continuar sendo exatamente aquilo que eram quando começaram. 

Coisas que fazemos porque amamos fazê-las. 

E talvez exista aqui uma pergunta importante para os educadores: 

Estamos ensinando nossos estudantes apenas a descobrir aquilo em que podem ser excelentes ou também estamos lhes dando liberdade para descobrir aquilo que amam, mesmo quando nunca serão excelentes nisso? 

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colunista Graziele Oliveira
Graziele Oliveira é cristã e comunicóloga. Possui bacharelado em Jornalismo (Centro Universitário Izabela Hendrix), Bacharelado em Letras e Edição (CEFET-MG), MBA em Trade Marketing (Faculdade Arnaldo Jansen), Formação Pedagógica em Docência (CEFET-MG),  e é pós-graduanda em Neurociências na UFMG.
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