lectio divina: o que é
Conteúdo Confessional Educador

Lectio Divina: Você já ouviu falar?

Por Júlio Souza

Estimativa de leitura: 6min 8seg

24 de setembro de 2025

Neste mês de setembro, por ocasião da solenidade de São Jerônimo (30 de setembro), nossa comunidade educativa FTD Educação celebrou com a Igreja, em todo o Brasil, o Mês da Bíblia. A iniciativa do Mês da Bíblia começou na Arquidiocese de Belo Horizonte, em Minas Gerais, no ano de 1971, com o apoio das Irmãs Paulinas.

O objetivo era trazer as novidades do Concílio Vaticano II para as comunidades cristãs e incentivar o contato do povo com a Sagrada Escritura. Isso era comum nesta época. Em 1976, essa iniciativa começa a se espalhar por todas as dioceses no Brasil e, em 1985, a CNBB oficializa a campanha e a torna uma ação pastoral nacional.  

Em comunhão com a Igreja no Brasil, por meio do Integra e de forma gratuita, enviamos o  E-book para o Mês da Bíblia no Portal Conteúdo Aberto  com sugestões de boas-práticas pedagógicas para toda a comunidade educativa, além desta ação externa, promovemos internamente a transmissão de informações e curiosidades bíblicas relevantes, inspirando nossos colaboradores, como a prática da Leitura Orante da Palavra de Deus, a Lectio Divina. Você já ouviu falar? Sabe o que é Lectio Divina

Lectio Divina 

A Lectio Divina, ou Leitura Orante é uma prática cristã inspirada na tradição judaica que recomendava a leitura e repetição constante dos textos sagrados em oração Sl 1,2; Js 1,8. São Paulo Apóstolo (Séc. I) indicou a leitura das Sagradas Escrituras para as Comunidades de Tessalônica 1Ts 5,27 e Colossos Cl 4,16. A prática se espalhou ainda mais com as orientações e incentivos como os de Orígenes (séc. II), Santo Antão e os Monges do deserto (Séc. IV-VI) até chegar a esta metodologia apresentada no verso que foi organizada pelo Monge Cartuxo Guido II (Séc. XII) em sua obra A Escola dos Monges (Scala Claustralium). 

Como se faz? 

Antes de iniciar a lectio divina, escolha um trecho do texto bíblico. A liturgia da Igreja propõe uma sequência de textos bíblicos, que podem ser consultadas. Há outras sequências possíveis, e você pode escolher um texto que lhe agrade. Comece, então. 

1ª Leitura 

Primeiramente, faça a leitura de todo o trecho. Releia então o texto, agora se colocando no lugar de um dos personagens: Jesus, algumas das Mulheres, anjos, Apóstolos, Profetas, qualquer personagem. Pode-se igualmente imaginar o ambiente, assim como outros elementos que aparecem no texto. 

2ª Meditação 

Agora é o momento de se perguntar qual o sentido desse texto para mim, para minha situação hoje. Qual é a mensagem de Deus que o texto trouxe para você? Em que esta mensagem faz pensar? O que você aprendeu? Percebe algo em você que precise mudar ou fortalecer? 

3ª Contemplação 

É o momento de silenciar e deixar que Deus fale em você. O que de novo Deus está inspirando? O que preciso mudar em mim? 

4ª Oração 

Por fim, transforme esta mensagem em sua oração. Pode ser uma oração conhecida ou espontânea. Faça uma oração com um gesto concreto para realizar hoje. As coisas simples são as melhores. 

Esperamos que ao compartilhar esta prática milenar de transformar em prática a leitura e reflexão bíblica, inspire seu trabalho, suas ideias, propósitos, objetivos e missão. Confira logo abaixo, algumas curiosidades sobre a Bíblia que separamos para vocês: 

A Bíblia, antes de ser escrita, foi vivida, transmitida e celebrada. Ela foi se formando ao longo de mais de mil anos e passou por muitas mudanças. Nesse processo, o texto também sofreu modificações. Um exemplo clássico é o livro do profeta Isaías. Ele tem 66 capítulos, e os estudos mostraram que foi escrito em pelo menos três períodos distintos: de 1 a 39, no séc. VIII a.C., de 40 a 55 no séc. VII a.C., de 56 a 66, no séc. VI a.C. Isso mostra como essa Palavra é viva e vai acompanhando seu povo. 

Os capítulos e versículos da Bíblia foram introduzidos somente nos séculos XIII e XVI d.C. Originalmente, havia divisões em livros apenas. Depois foram acrescentados alguns sinais que serviam para separar partes maiores do texto.

No séc. XIII, Stephen Langton, Arcebispo da Cantuária, na Inglaterra, propôs a separação dos livros em capítulos. No século XVI, mais precisamente em 1551, com o início da imprensa, o editor francês Robert Estienne resolveu fazer uma divisão mais detalhada, acrescentou os versículos nas edições impressas da Bíblia. 

A Bíblia Hebraica tem uma divisão tripartida: a Torá, que corresponde aos cinco primeiros livros; os Proféticos, que começam com Josué, incluem os livros históricos até 2Reis e os profetas; e os Escritos, que abrangem os Salmos, os livros sapienciais e alguns outros. A Igreja adotou uma divisão vinda da edição em grego do Antigo Testamento: Pentateuco (euqivalente à Torá), Históricos, Sapienciais e Proféticos.  

Em 1565, o número dos livros bíblicos e sua sequência foram oficialmente definidos, seguindo a tradição que vinha se firmando desde o séc. II d.C. O Livro do Gênesis foi colocado no início, por narrar a criação do mundo e o início da vida humana; já o Apocalipse ficou no final, por falar da nova criação e da nova condição da vida humana no Cristo Ressuscitado. 

Os Evangelhos segundo Marcos, Lucas e Mateus são conhecidos como sinóticos, porque têm a mesma estrutura e compartilham aproximadamente 600 versículos idênticos entre os três e 235 idênticos em Lucas e Mateus. Hoje, se considera Marcos o evangelho mais antigo, e Mateus e Lucas teriam utilizado dele para escrever seus evangelhos. 

Apocalipse é um gênero textual e há outros escritos além do texto do Evangelista João. É possível localizar ao menos 8 apocalipses nas Sagradas Escrituras, no Antigo e no Novo Testamento: o próprio livro do Apocalipse, mas também: Mateus 24-25; Marcos 13; Lucas 21; 1 Carta de São Paulo aos Tessalonicenses 4,13-18; 5, 1-11; 2 Carta de São Paulo aos Tessalonicenses 1,6-10; 2,1-12; no Antigo Testamento: Daniel 7-12; Isaías 24-27; Ezequiel 38-39; Zacaria 9-14. 

São Jerônimo ensinou que “ignorar as Escrituras é ignorar a Cristo”. Isso significa dizer que sem a escuta obediente da Palavra, o coração permanece fechado e não reconhece o Ressuscitado que “explica nas Escrituras” o sentido de sua Páscoa (Lc 24,27.44-45). A ignorância bíblica, então, é uma cegueira espiritual que separa fé, vida e culto; ao contrário, ler, meditar, rezar e viver a Escritura — na Igreja e com o seu sensus fidei — é permitir que o Espírito nos configure à mente de Cristo (1Cor 2,16) e nos introduza no seu mistério, pois é na história e no texto inspirado que o mesmo Cristo se nos oferece hoje. 

JERÔNIMO, São. Comentário ao Profeta Isaías (Prólogo). In: Patrologia Latina, vol. 24, col. 17. Paris: J.-P. Migne, 1845. 

Julio Souza
Júlio Souza. Casado, Mestre em Teologia Sistemática pela PUC-Rio, Bacharel em Teologia, Especialista em Educação e entusiasta da aviação. Atualmente é estudante de MBA em Gestão de Projetos pela FGV; Tutor no EAD de Iniciação Teológica da PUC-Rio; Consultor Especialista para as Mantenedoras, Redes e Escolas Católicas no Brasil pela Editora FTD Educação. leia também […]
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