Fundador da obra Marista, Marcelino Champagnat deixou uma herança que atravessa os séculos, orientando escolas, educadores e comunidades em todo o mundo.
Em tempos de transformações aceleradas e desafios sociais, olhar para a vida de São Marcelino Champagnat é reencontrar um modelo de compromisso com o bem comum.
Neste artigo, com o apoio de Julio Souza, teólogo e consultor especialista em redes e escolas católicas da FTD Educação, você vai conhecer a trajetória deste santo, descobrir como surgiu o Instituto Marista e entender por que seu legado permanece essencial para a educação contemporânea.
Quem foi São Marcelino Champagnat?
Marcelino José Bento Champagnat nasceu em 20 de maio de 1789, na aldeia de Marlhes, no sudeste da França. Caçula de uma família numerosa de camponeses, cresceu em meio ao trabalho no campo e à fé cristã vivida no ambiente familiar.
Ainda na infância, passou por uma experiência marcante ao ser punido injustamente por um professor. O episódio o levou a abandonar os estudos, um fato que, décadas depois, se tornaria a base inspiradora de sua proposta educacional.
Aos 16 anos, decidiu seguir a vida sacerdotal, ingressando no Seminário Menor de Verrières. Mais tarde, estudou no Seminário Maior de Lyon, onde se uniu a outros jovens empenhados em renovar a Igreja, como Jean-Claude Colin. Em 1816, consagraram suas vidas à Maria no santuário de Fourvière.
Designado para a paróquia de La Valla-en-Gier após a ordenação, Champagnat se deparou com uma realidade desafiadora: crianças e adolescentes sem acesso à educação e à fé. A resposta a essa realidade definiria toda a sua missão.

Fonte: Rede Marista
A fundação do Instituto Marista: uma resposta concreta à exclusão
Um episódio decisivo foi a visita a Jean-Baptiste Montagne, um jovem gravemente doente, de apenas 17 anos, que jamais havia ouvido falar de Jesus. Champagnat entendeu, com clareza, que não podia permanecer indiferente.
Segundo Julio Souza: “Esta visita foi um verdadeiro embate a São Marcelino. O jovem Montagne, além do déficit de saúde, também se encontrava com um surpreendente déficit cognitivo, sem saber ler e escrever, sem saber sequer da existência de Deus, sem conhecer a Cristo. A vida daquele jovem estava completamente vazia de sentido.”
Champagnat ofereceu ao jovem as primeiras instruções da fé. No entanto, Montagne faleceu em pouco tempo. Ainda assim, essa dura realidade não o desanimou.
“Proativo, São Marcelino começa a imaginar quantos jovens estariam naquela mesma situação. Logo tomou a iniciativa de sua nobre missão de tornar Jesus Cristo conhecido e amado. Para tanto, usaria a instrução, a educação, como linha condutora desta missão. E isso faz todo o sentido. Educar, do latim educere, significa conduzir”, relata Julio.
Assim, em 2 de janeiro de 1817, nasceu o Instituto dos Pequenos Irmãos de Maria, hoje conhecido como Irmãos Maristas.
A missão educativa de Marcelino Champagnat
A proposta educacional de Champagnat estava enraizada na fé e no amor cristão. Mais do que transmitir conteúdos, ele buscava formar cidadãos virtuosos, com base na dignidade humana e no cuidado com os mais vulneráveis.
“São Marcelino entendia que, sendo ele cristão e educando com a excelência de Cristo, conseguiria não apenas instruir, mas também propagar, de forma prática, o amor de Cristo — portanto, torná-lo conhecido e amado”, explica Julio.
Esse modelo educativo integrava fé e pedagogia, enxergando o aluno como alguém a ser conduzido no verdadeiro sentido da palavra “educar”.
Para Champagnat, essa condução ia além da sala de aula. Era um chamado à presença significativa, à simplicidade nas relações e ao espírito de família, valores que sustentam, até hoje, a missão Marista em diversos contextos ao redor do mundo.

Fonte: Rede Marista
Valores Maristas: fundamentos da missão
Os valores maristas são mais do que princípios institucionais, são o alicerce da missão educacional inspirada por São Marcelino. Eles guiam práticas pedagógicas, sociais e espirituais em todos os continentes.
“Na prática, valores maristas são a base de toda nossa identidade, cultura, missão e vocação. Não são escolhidos aleatoriamente, mas estrategicamente eleitos para apoiar a missão original dos maristas”, afirma Julio Souza.
Entre os principais valores, destacam-se:
- Espiritualidade Mariana;
- Espírito de Família;
- Solidariedade;
- Amor ao Trabalho;
- Formação Integral;
- Presença Significativa;
- Interculturalidade;
- Simplicidade.
Vividos diariamente em escolas, universidades, hospitais e obras sociais, esses valores sustentam todas as ações missionárias, da educação básica à superior, da saúde às decisões institucionais.
“Para nós, os valores são fundamentais e não ideológicos”, conclui Julio.
A expansão da missão: do interior da França ao mundo
A missão dos Irmãos Maristas, fundada por Champagnat no século XIX, rapidamente ultrapassou as fronteiras francesas. Hoje, o carisma marista está presente em 79 países, com:
- 2.367 irmãos consagrados;
- 79.000 leigos e leigas;
- 650.000 crianças, adolescentes e jovens atendidos.
No Brasil, a missão chegou em 1897, quando Dom Cláudio José Gonçalves Ponce de Leão, então bispo de Porto Alegre, solicitou o envio de irmãos maristas para apoiar a educação católica. “Acreditando no amor transformador da educação, Frère Théophane Durand aceitou o convite e enviou alguns irmãos para nosso país”, relata Julio.
Desde então, a presença marista no Brasil só cresceu:
- 98 cidades com atuação da missão;
- 27 mil participantes (irmãos, leigos e colaboradores);
- 80 mil alunos na educação básica;
- 58 mil no ensino superior;
- 2 milhões de atendimentos via SUS;
- 30 mil pessoas beneficiadas por ações de solidariedade.
Julio também relembra a origem da FTD Educação: “Em 1902, os irmãos fundaram a editora com o objetivo de produzir livros didáticos mais qualificados que os apoiassem em sua missão educacional.” E sobre a sigla FTD, continua, “o nome FTD é uma memória viva de Frère Théophane Durand. Seu legado transcende a missão dos irmãos, alcançando a educação pública, escolas privadas, confessionais e laicas em todo o Brasil.”
Canonização e legado de São Marcelino Champagnat
Marcelino Champagnat faleceu em 6 de junho de 1840, aos 51 anos, deixando 280 irmãos e 48 escolas em funcionamento. Foi canonizado em 18 de abril de 1999, pelo Papa João Paulo II. Sua memória litúrgica é celebrada em 6 de junho.
Mais do que o reconhecimento formal, o que permanece é a força de sua missão.
“Manter viva a memória de São Marcelino, tanto quanto de outros santos e santas, não é um saudosismo histórico. Estas pessoas nos inspiram, nos motivam e nos ajudam a encontrar respostas para os embates e interpelações da vida”, ressalta Julio.
Frases marcantes de Champagnat: fé, educação e amor
- “A vida inteira de vossos alunos será eco do vosso apostolado.”
- “Para bem educar os alunos é preciso amá-los e amá-los todos igualmente.”
- “A Providência nunca há de nos abandonar, porque é para ela que trabalhamos.”
- “O amor de Jesus é para os religiosos o que são as velas para os navios que singram os oceanos.”
- “A transformação dos corações é obra da Graça de Deus e não o efeito da eloquência dos homens.”
- “Tudo a Jesus por Maria.”
Por que falar de Champagnat hoje?
A trajetória de Champagnat vai além da história da Igreja, é uma fonte viva de inspiração. Relembrá-la é encontrar respostas para os desafios do nosso tempo e reacender a esperança.
“São Marcelino deixou um legado de prática do amor verdadeiro, autêntico, que se qualifica em vista do bem comum, como propõe Cristo em seu Evangelho. Evangelho vem do grego e significa simplesmente a melhor das notícias: a dignidade humana em sua plenitude”, afirma Julio.
E conclui: “Relembrar a história dos santos, a história dos nossos fundadores, será sempre um contributo relevante em nosso projeto de vida, na descoberta da vocação e até mesmo em empreendimentos e projetos que visem novos valores, dentro ou fora da sala de aula.”
Conclusão: educar com o coração, transformar com amor
Falar sobre quem foi São Marcelino Champagnat é reconhecer o valor da educação como caminho de transformação pessoal, social e espiritual.
Julio Souza encerra com um depoimento sincero: “Relembrar de São Marcelino me ajuda nos aspectos fundamentais de minha vida e de minha família, por exemplo. E posso dizer seguramente que faz toda diferença na qualidade de nossas vidas.”
Em tempos de mudanças profundas e de busca por sentido, a espiritualidade e a missão educativa de Champagnat continuam iluminando caminhos. Para quem acredita na força da educação evangelizadora e no cuidado integral com os jovens, Champagnat não é apenas um santo do passado, é uma presença viva, uma inspiração para o presente e um projeto para o futuro.








