Planejar para a diversidade desde o início é um dos princípios do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA). Entenda como essa abordagem contribui para uma Educação mais acessível e conheça estratégias para incorporá-la ao planejamento, às atividades e às avaliações.
A diversidade deixou de ser uma exceção dentro das salas de aula — se é que algum dia foi. Em uma mesma turma, convivem estudantes com diferentes ritmos de aprendizagem, repertórios culturais, interesses, formas de comunicação, necessidades educacionais e maneiras de demonstrar aquilo que sabem.
Os dados mais recentes ajudam a dimensionar esse cenário. De acordo com o Censo Escolar da Educação Básica 2025, o Brasil chegou a aproximadamente 2,46 milhões de matrículas na Educação Especial, considerando estudantes com deficiência, transtorno do espectro autista (TEA) e altas habilidades ou superdotação. O Ensino Fundamental concentra cerca de 63,4% dessas matrículas.
Além do crescimento das matrículas, outro dado chama a atenção: 96% dos estudantes da Educação Especial entre 4 e 17 anos estavam incluídos em classes comuns em 2025. Na rede pública, o percentual chegou a 98,6%.
Isso significa que discutir inclusão escolar não é mais apenas perguntar como receber estudantes com deficiência na escola, mas refletir sobre algo mais profundo: Como organizar o ensino para que diferentes estudantes possam efetivamente participar, aprender e demonstrar suas aprendizagens?
É justamente nesse ponto que ganha importância o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA).
O que é Desenho Universal para a Aprendizagem?
O Desenho Universal para a Aprendizagem, conhecido pela sigla DUA — ou UDL, do inglês Universal Design for Learning — é uma abordagem educacional que propõe planejar objetivos, estratégias, recursos, atividades e avaliações, considerando, desde o início, a diversidade dos estudantes.
Em vez de elaborar uma aula para um estudante considerado “padrão” e realizar adaptações posteriormente para aqueles que encontram dificuldades, o DUA propõe uma mudança de lógica: antecipar possíveis barreiras à aprendizagem e oferecer diferentes caminhos para acessar o conhecimento, participar das atividades e demonstrar o que foi aprendido.
Essa concepção tem origem nos princípios do Design Universal, inicialmente desenvolvidos nos campos da arquitetura e do design. A ideia era projetar ambientes e produtos que pudessem ser utilizados pelo maior número possível de pessoas, evitando que a acessibilidade dependesse apenas de adaptações posteriores.
Na Educação, essa perspectiva foi desenvolvida principalmente pelo CAST, organização responsável pelas diretrizes internacionais do Universal Design for Learning. Na versão 3.0 das diretrizes, publicada em 2024, o objetivo do DUA é favorecer a agência do estudante, formando aprendizes capazes de agir de maneira intencional e reflexiva, utilizar recursos de forma autônoma e desenvolver estratégias para aprender e agir.
Portanto, o DUA não é uma metodologia fechada nem uma sequência de atividades que precisa ser seguida passo a passo. Trata-se de uma estrutura para orientar o planejamento pedagógico, ajudando professores a identificar e reduzir barreiras que possam dificultar a participação e a aprendizagem.
Desenho Universal para a Aprendizagem como estratégia de inclusão escolar
Quando falamos em Educação inclusiva, é comum associar acessibilidade apenas à oferta de recursos específicos para estudantes com deficiência. Esses recursos continuam sendo fundamentais, mas o DUA amplia essa discussão, e passa a incluir:
“Quais barreiras esta atividade pode criar para diferentes estudantes e como posso reduzi-las desde o planejamento?”
Essa mudança é importante porque uma mesma estratégia dificilmente atende igualmente a todos.
Imagine, por exemplo, uma aula baseada exclusivamente em um texto extenso apresentado no quadro, seguida de uma prova escrita. Um estudante pode encontrar barreiras relacionadas à leitura; outro pode compreender melhor o conteúdo por meio de imagens; outro pode precisar ouvir a explicação; enquanto outro domina o conteúdo, mas encontra dificuldade para expressá-lo em uma produção escrita extensa.
No DUA, o objetivo pedagógico permanece relevante para todos, mas os caminhos para alcançá-lo podem variar.
É por isso que Ana Paula Zerbato e Enicéia Gonçalves Mendes (2018) destacam o DUA como uma possibilidade para ampliar a participação dos estudantes no currículo comum, deslocando o foco das limitações individuais para as barreiras presentes nas práticas, nos recursos e nos ambientes educacionais.
Isso não significa eliminar apoios individualizados quando necessários. O Atendimento Educacional Especializado (AEE), as tecnologias assistivas e outras estratégias específicas continuam tendo papel fundamental. O DUA atua de maneira complementar, ajudando a construir um currículo que, desde sua concepção, seja mais flexível e acessível.
Os três princípios básicos do DUA
As diretrizes do CAST organizam o DUA em três grandes princípios: múltiplos meios de engajamento, múltiplos meios de representação e múltiplos meios de ação e expressão.
1. Múltiplos meios de engajamento: por que aprender?
O primeiro princípio está relacionado à motivação, ao interesse, ao pertencimento e à participação dos estudantes.
Nem todos se envolvem com uma atividade pelas mesmas razões. Alguns gostam de desafios individuais; outros aprendem melhor por meio da colaboração. Alguns precisam compreender claramente a finalidade da tarefa; outros se sentem mais envolvidos quando podem fazer escolhas.
Por isso, o professor pode diversificar as formas de participação, oferecendo oportunidades de escolha, relacionando os conteúdos a situações significativas, criando atividades colaborativas e estabelecendo níveis adequados de desafio e apoio.
As diretrizes atuais do CAST destacam, entre outros aspectos, a importância de favorecer autonomia e escolha, tornar a aprendizagem relevante e autêntica, fortalecer a colaboração, criar sentimento de pertencimento e oferecer feedbacks que ajudem o estudante a avançar.
2. Múltiplos meios de representação: o que aprender?
Esse princípio diz respeito às diferentes maneiras de apresentar e tornar compreensíveis as informações.
Rose e Meyer (2002), importantes pesquisadores ligados ao desenvolvimento do DUA, apontam que a representação está diretamente relacionada a uma das tarefas centrais da docência: decidir como compartilhar determinado conhecimento com os estudantes.
Isso pode envolver a combinação de:
- textos e explicações orais;
- imagens, mapas, esquemas e infográficos;
- materiais concretos;
- vídeos com legendas e transcrições;
- exemplos e demonstrações;
- recursos digitais acessíveis;
- glossários e explicações de conceitos;
- diferentes formas de representar números, símbolos e relações matemáticas.
O CAST recomenda, por exemplo, oferecer diferentes maneiras de perceber as informações, esclarecer vocabulário e símbolos, utilizar múltiplas mídias e relacionar conhecimentos prévios aos novos conceitos.
O objetivo não é simplesmente acrescentar recursos à aula, mas perguntar: O formato escolhido cria alguma barreira para compreender o conteúdo?
3. Múltiplos meios de ação e expressão: como demonstrar o que aprendeu?
Aprender um conteúdo e conseguir demonstrá-lo de uma única maneira não são necessariamente a mesma coisa.
Um estudante pode compreender um conceito e encontrar dificuldades para apresentá-lo em uma prova escrita tradicional. Outro pode se expressar melhor oralmente, por meio de uma produção visual ou utilizando recursos tecnológicos.
Por isso, o DUA propõe ampliar, sempre que os objetivos de aprendizagem permitirem, as possibilidades de ação e expressão.
Uma atividade pode permitir, por exemplo, que os estudantes demonstrem determinada aprendizagem por meio de texto, apresentação oral, vídeo, podcast, mapa conceitual, produção artística, experimento ou apresentação em grupo.
O CAST recomenda diversificar métodos de resposta e interação, ampliar o acesso a tecnologias acessíveis e assistivas, utilizar diferentes mídias para comunicação e oferecer apoios graduais para que o estudante desenvolva autonomia.
Isso não significa que qualquer formato serve para qualquer objetivo. Se a habilidade avaliada é especificamente a produção de um determinado gênero textual, por exemplo, escrever faz parte do próprio objeto de aprendizagem.
Qual é o objetivo principal do Desenho Universal para a Aprendizagem?
O DUA procura maximizar as oportunidades de aprendizagem para todos os estudantes, sejam eles público-alvo da Educação Especial ou não.
Para isso, auxilia professores e demais profissionais da Educação a pensar diferentes formas de ensinar, selecionar materiais, organizar estratégias e avaliar o progresso dos estudantes.
Isso significa reconhecer que os estudantes não chegam à escola com os mesmos conhecimentos, experiências, interesses, capacidades, ritmos ou necessidades.
Consequentemente, oferecer exatamente o mesmo recurso, no mesmo formato, no mesmo tempo e exigir uma única maneira de responder pode produzir barreiras que não estão necessariamente relacionadas ao conhecimento que se pretende desenvolver.
O desafio passa a ser manter objetivos educacionais relevantes, mas ampliar os caminhos pelos quais os estudantes podem chegar até eles.
O que é necessário para tornar as avaliações mais acessíveis, inclusivas e justas?
Os princípios do DUA também podem transformar a maneira como a avaliação é planejada.
Uma avaliação inclusiva não significa simplesmente tornar uma prova mais fácil para determinado estudante. Significa ampliar as possibilidades de demonstrar aprendizagem sem perder de vista o objetivo que está sendo avaliado.
Chtena (2016), citada por Zerbato e Mendes, propõe a utilização de diferentes métodos de avaliação ao longo do processo, como produções escritas, registros de aprendizagem, apresentações, testes, questionários e avaliações orais. Também é possível permitir, quando adequado ao objetivo pedagógico, que uma tarefa seja concluída em diferentes formatos, como texto, encenação ou apresentação coletiva.
Antes de escolher o instrumento, portanto, o professor pode fazer uma pergunta simples: O que exatamente quero descobrir sobre a aprendizagem deste estudante?
Se o objetivo é verificar se ele compreendeu determinado fenômeno científico, por exemplo, talvez essa compreensão possa ser demonstrada por uma explicação escrita, apresentação oral, um esquema, experimento ou uma produção audiovisual.
Se o objetivo for avaliar especificamente a escrita, por outro lado, a produção escrita fará parte da própria habilidade avaliada.
O DUA não elimina critérios. Ele ajuda a distinguir o que é essencial para o objetivo de aprendizagem e o que representa apenas uma barreira criada pelo formato da avaliação.
Como incluir o DUA no planejamento das aulas?
Para incorporar o Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA) ao planejamento, o professor pode diversificar recursos, estratégias de ensino, formas de participação e instrumentos de avaliação, buscando reduzir barreiras que possam dificultar o acesso e a aprendizagem. Chtena (2016) aponta algumas estratégias que podem ser realizadas quando se pensa em um ensino estruturado de acordo com o DUA. Algumas delas são:
O uso da tecnologia
Utilizar recursos tecnológicos para ampliar as possibilidades de acesso ao conteúdo e favorecer diferentes formas de interação com o conhecimento. Os materiais trabalhados em aula podem ser disponibilizados em formatos eletrônicos acessíveis e combinados com apresentações audiovisuais, textos, imagens, áudios e outros recursos. Em aulas expositivas, uma possibilidade é fornecer pequenos textos ou materiais de apoio com espaços para que os próprios estudantes registrem conceitos-chave, definições, fatos e informações que considerem importantes. Dessa forma, a tecnologia não funciona apenas como suporte para transmitir informações, mas também como ferramenta para favorecer a organização e a participação do estudante durante a aprendizagem.
Ensino expositivo
As aulas expositivas também podem ser planejadas de maneira mais acessível. Ao utilizar apresentações em slides, por exemplo, é importante verificar a legibilidade e a organização das informações e combinar os elementos visuais com explicações orais. O professor pode reforçar os pontos principais de diferentes maneiras — verbalmente, graficamente ou por meio de demonstrações —, explicar por que determinados conceitos são importantes e utilizar perguntas abertas para acompanhar a compreensão da turma. Também é recomendável oferecer tempo suficiente para que os estudantes formulem suas respostas, façam registros ou conversem com um colega antes de responder. Quando forem utilizados vídeos, é importante disponibilizar legendas ou transcrições, ampliando as possibilidades de acesso ao conteúdo. Esses cuidados ajudam a tornar uma mesma explicação acessível por diferentes caminhos, em vez de depender de uma única forma de apresentação da informação.
Outras atividades em sala de aula
Oferecer múltiplas possibilidades de participação e envolvimento dos estudantes. O planejamento pode incluir atividades em pequenos grupos, encenações, debates, estudos de caso, produções breves e outras estratégias que permitam diferentes formas de interação com o conteúdo, com o professor e com os colegas. Sempre que os objetivos de aprendizagem permitirem, também é possível oferecer aos estudantes oportunidades de escolha, como optar entre diferentes tipos de atividade ou decidir se determinada tarefa será realizada individualmente ou em grupo. Essa flexibilidade contribui para ampliar o engajamento e permite que os estudantes assumam uma posição mais ativa no próprio processo de aprendizagem.
Avaliação
Utilizar diferentes métodos e instrumentos para acompanhar a aprendizagem e permitir que os estudantes tenham mais de uma oportunidade de demonstrar o que aprenderam. Produções escritas, registros ou diários de aprendizagem, apresentações, testes, questionários e avaliações orais são algumas das possibilidades apontadas. Dependendo do objetivo pedagógico, uma mesma tarefa também pode admitir diferentes formatos de realização, como um texto, uma encenação ou uma apresentação em grupo. Diversificar os instrumentos não significa diminuir os objetivos ou critérios de aprendizagem, mas ampliar as formas pelas quais o estudante pode evidenciar seus conhecimentos e competências.
Suportes adicionais
Acompanhar regularmente o desenvolvimento dos estudantes durante a realização das atividades, identificando dificuldades e oferecendo os apoios necessários. O professor pode aproveitar esses momentos para verificar individualmente o progresso, responder a dúvidas e observar quem necessita de maior mediação para participar ou avançar na proposta. Quando houver dificuldades que demandem outros tipos de suporte, é importante articular o acompanhamento com os demais profissionais da escola. O DUA não elimina a necessidade de apoios individualizados; ao contrário, permite combiná-los com um planejamento mais flexível e acessível para toda a turma.
Conclusão
O DUA não propõe abandonar adaptações, apoios individualizados ou recursos especializados. Tampouco oferece uma receita pronta para ensinar uma turma heterogênea.
Sua principal contribuição é mudar o ponto de partida.
Em vez de construir primeiro um ensino padronizado e descobrir depois quem não consegue acessá-lo, a escola passa a reconhecer a diversidade antes de planejar.
Isso envolve diversificar materiais, estratégias, formas de participação e possibilidades de expressão; acompanhar continuamente a aprendizagem; identificar barreiras; oferecer apoios quando necessários; e construir práticas em colaboração com diferentes profissionais.
Quanto maiores forem as possibilidades de organização do ensino — incluindo materiais diversificados, apoios, trabalho colaborativo e princípios do DUA —, maiores podem ser as oportunidades de participação e aprendizagem.
A proposta não está voltada exclusivamente aos estudantes público-alvo da Educação Especial. Seu horizonte é mais amplo: melhorar a qualidade do ensino para todos os estudantes.
Referências
CHTENA, N. 2016. Teaching Tips For an UDL-Friendly Classroom:Advice for implementing strategies based on Universal Design for Learning. Disponível em: https://www.insidehighered.com/blogs/gradhacker/teaching-tips-udl-friendly-classroom. Acesso em: 18 ago. 2026
ZERBATO, Ana Paula; MENDES, Enicéia Gonçalves. 2018. Desenho universal para a aprendizagem como estratégia de inclusão escolar. Educação Unisinos, v. 22, n. 2, p. 147-155, abr./jun. Disponível em: https://revistas.unisinos.br/index.php/educacao/article/view/edu.2018.222.04/60746207. Acesso em: 18 ago. 2026.
NOVA ESCOLA. Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA): como essa metodologia favorece a Educação para todos? Nova Escola. Disponível em: https://novaescola.org.br/conteudo/22148/desenho-universal-para-a-aprendizagem-como-essa-metodologia-favorece-a-inclusao. Acesso em: 18 ago. 2026.
CAST. Universal Design for Learning Guidelines version 3.0. 2024. Disponível em: https://udlguidelines.cast.org/. Acesso em 18 de ago. 2026.
BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Indicadores educacionais. Brasília, DF: Inep. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/acesso-a-informacao/dados-abertos/indicadores-educacionais. Acesso em: 18 ago. 2026.








