Entre a excelência e os aplausos: para quem estamos trabalhando?
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Entre a excelência e os aplausos: para quem estamos trabalhando? 

Por Graziele Oliveira

Estimativa de leitura: 11min 42seg

11 de setembro de 2026

Quando ninguém vê o esforço por trás de uma aula, o que sustenta a excelência? Uma reflexão sobre trabalho, reconhecimento e serviço a Deus. 

Minha irmã é professora e, por causa dela, há uma cena que se tornou bastante familiar para mim. Vira e mexe, eu a vejo conversando com outra professora sobre o trabalho que levaram para casa. São atividades para corrigir, avaliações para revisar, aulas para preparar, materiais para organizar. Às vezes, parte do fim de semana é dedicada a tarefas que não couberam nos dias anteriores. 

Observando essas conversas, uma coisa sempre me chama a atenção: quanto do trabalho de um professor acontece quando ninguém está vendo? 

Quem olha apenas para o momento da aula enxerga uma parte muito pequena da docência. 

Antes de entrar em sala, houve planejamento. Talvez aquela explicação tenha sido refeita porque a primeira estratégia não funcionou. Talvez uma atividade tenha precisado ser adaptada porque alguns estudantes necessitavam de outro caminho para aprender. Depois da aula ainda haverá correções, registros, reuniões, conversas com famílias, acompanhamento dos estudantes e, novamente, planejamento. 

O estudante encontra a atividade pronta, mas dificilmente sabe quanto tempo foi necessário para prepará-la. A família recebe uma avaliação corrigida, mas não acompanha as horas gastas nesse processo. A turma participa de uma boa aula sem necessariamente imaginar as leituras, as tentativas e os ajustes que vieram antes dela. 

É um trabalho que produz resultados visíveis, mas que possui muitos bastidores invisíveis. 

Talvez seja justamente por isso que observar minha irmã trabalhando tenha me levado a pensar em uma questão que não diz respeito apenas à quantidade de tarefas que um professor realiza, mas àquilo que sustenta esse trabalho ao longo do tempo. 

O que acontece quando tanto esforço não é percebido? 

É claro que reconhecimento importa. Uma palavra de agradecimento de um estudante pode transformar um dia difícil. O retorno de uma família pode mostrar que algo que aconteceu em sala ultrapassou os muros da escola. O reconhecimento da gestão pode confirmar que determinado esforço foi percebido. 

Não há nada de errado em desejar isso. 

O problema começa quando aquilo que gostaríamos de receber se transforma naquilo de que precisamos para acreditar que nosso trabalho, ou nós mesmos, temos valor. 

É possível preparar uma excelente aula porque os estudantes merecem encontrar um professor comprometido com sua aprendizagem. Mas também é possível buscar a excelência porque precisamos provar que somos bons profissionais. 

É possível desejar reconhecimento pelo trabalho realizado. Mas também é possível passar a depender desse reconhecimento. 

Por fora, as duas situações podem parecer iguais. O professor estuda, prepara, corrige, aperfeiçoa sua prática e se dedica aos estudantes. 

A diferença está em uma pergunta muito mais íntima: o que esperamos que todo esse trabalho diga sobre nós? 

É aqui que uma questão profissional se encontra com uma questão espiritual. 

Diante de tanto trabalho que acontece longe dos olhos dos outros, vale perguntar: Entre a excelência e os aplausos, para quem estamos trabalhando? 

É errado desejar reconhecimento pelo nosso trabalho? 

Não. E essa ressalva é importante desde o início. 

Uma reflexão cristã sobre trabalho não deveria transformar a falta de reconhecimento em virtude nem usar a ideia de vocação para romantizar a sobrecarga docente. 

O professor pode amar o que faz e enxergar sua profissão como vocação. Ainda assim, precisa de condições adequadas de trabalho, descanso, remuneração e valorização profissional. Trabalhar “para o Senhor” não significa aceitar que o trabalho ocupe todas as noites e os fins de semana. 

Também não significa sentir culpa por desejar ouvir: “Você fez um bom trabalho”. O desejo de ser visto e valorizado é profundamente humano. 

 A questão, portanto, não é deixar de desejar reconhecimento, mas perguntar: que lugar ele ocupa em nossa vida? 

Existe uma diferença entre se alegrar quando o trabalho é reconhecido e precisar desse reconhecimento para saber quem somos. 

O apóstolo Paulo oferece uma perspectiva interessante para pensar sobre reconhecimento: “Pouco me importa ser julgado por vocês ou por qualquer tribunal humano; de fato, nem eu julgo a mim mesmo. […] quem me julga é o Senhor.” (1 Coríntios 4.3,4) 

Paulo não está dizendo que a opinião dos outros não importa em nenhuma circunstância, nem que não devemos avaliar nossas atitudes ou ouvir críticas. O que está em jogo é algo mais profundo: quem tem a palavra final sobre quem somos? 

Paulo não procura nos outros o veredito sobre seu valor, mas também não tenta encontrá-lo em si mesmo. Sua identidade não depende da aprovação das pessoas nem da necessidade permanente de provar para si próprio que é bom o bastante. 

Essa reflexão pode ser especialmente importante para quem ensina. 

Na escola, existem muitas formas de medir o trabalho: resultados dos estudantes, avaliações, participação da turma, retorno das famílias, percepção da gestão. Todas essas informações são importantes para avaliar a prática pedagógica. O problema aparece quando os resultados deixam de falar apenas sobre o trabalho que realizamos e começam a determinar o valor que atribuímos a nós mesmos. 

Uma aula que não funcionou pode se transformar em “não sou um bom professor”. Uma turma com dificuldades pode ser interpretada como fracasso pessoal. Da mesma maneira, um projeto elogiado ou bons resultados podem se tornar provas de que finalmente somos competentes e relevantes. 

É como se, pouco a pouco, a escola se transformasse em um “tribunal”. 

Quando nossa identidade depende daquilo que fazemos, passamos os dias reunindo evidências a favor ou contra nós mesmos. Algumas experiências parecem confirmar nosso valor; outras parecem colocá-lo em dúvida. 

E então precisamos de novas confirmações: outra aula bem-sucedida, outro elogio, outro projeto reconhecido, outro estudante que diga que fizemos diferença. 

O problema é que nenhum aplauso dura para sempre. 

 Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes para o professor não seja apenas “Estou fazendo um bom trabalho?”, mas também: “Estou usando meu trabalho para provar quem eu sou?” 

A excelência não precisa dos aplausos 

A resposta cristã para essa busca por reconhecimento não é abandonar a excelência. Muito pelo contrário. Em Colossenses, Paulo escreve: “Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor, e não para os homens.” (Colossenses 3.23) 

Há algo importante nessa orientação. Paulo não diz simplesmente “façam”. Ele diz: “Façam de todo o coração”. 

O cuidado continua importando. O compromisso continua importando. Para o professor, isso pode aparecer no estudo, no planejamento de uma aula, na escolha de uma estratégia adequada, na correção atenta de uma atividade ou na disposição de tentar outro caminho quando o estudante não conseguiu aprender da primeira vez. 

O que muda é a fonte dessa excelência. 

Há diferença entre preparar uma boa aula porque os estudantes merecem encontrar um professor comprometido com sua aprendizagem e preparar uma boa aula porque precisamos que todos percebam que somos excelentes professores. 

Por fora, talvez ninguém perceba a diferença. Por dentro, porém, são duas formas muito distintas de trabalhar. 

Na primeira, a excelência se torna serviço. 

Na segunda, a excelência se torna uma tentativa de construir identidade. 

Normalmente, vivemos como se a performance viesse primeiro e o veredito depois: fazemos algo bem para então concluir que temos valor. No evangelho, essa lógica é invertida. A aceitação em Cristo não é uma recompensa conquistada depois de uma performance impecável. O veredito vem antes. 

Isso pode mudar profundamente a maneira como um professor lida tanto com o sucesso quanto com o fracasso. 

Se uma aula não funciona, é possível avaliá-la sem transformar o resultado em uma sentença sobre si mesmo. 

Se um colega desenvolve um excelente projeto, é possível aprender com ele sem sentir que seu sucesso diminui o nosso. 

Se uma crítica é pertinente, é possível ouvi-la e mudar. 

E, quando o reconhecimento chega, é possível recebê-lo com alegria sem depender dele para sustentar a própria identidade. 

O que o trabalho está produzindo em nós? 

Quando pensamos no trabalho docente, é natural perguntar pelos resultados. 

Os estudantes aprenderam? Os objetivos foram alcançados? A estratégia funcionou? O planejamento precisa ser revisto? 

Mas existe outra pergunta que fazemos com menos frequência: o que esse trabalho está produzindo no próprio professor? 

Regra do Glorioso Patriarca São Bento, escrita no século VI para orientar a vida monástica, pode parecer muito distante da rotina de uma escola. Ainda assim, sua compreensão do trabalho oferece uma provocação interessante para os nossos dias. 

Para São Bento, as atividades cotidianas não estavam separadas da formação espiritual. O trabalho manual tinha seu lugar ao lado da oração e da leitura. No capítulo 48 da Regra, ele afirma que “A ociosidade é inimiga da alma” e estabelece períodos específicos para o trabalho, a leitura e o descanso. 

O trabalho, nessa perspectiva, não produz apenas alguma coisa. Ele também forma quem trabalha. 

Isso nos permite acrescentar outras perguntas às que normalmente fazemos sobre a profissão:  

  1. O desejo de fazer tudo bem está formando responsabilidade ou perfeccionismo? 
  1. A preocupação com os estudantes está produzindo cuidado ou a sensação de que o professor precisa resolver sozinho todos os problemas? 
  1. A rotina está cultivando paciência ou irritação constante? 
  1. A excelência está levando à colaboração ou à comparação com os colegas? 
  1. O trabalho está ocupando seu lugar na vida ou começou a ocupar todos os lugares? 

Talvez essa última pergunta seja especialmente necessária quando voltamos àquela cena do início: professores levando atividades para casa, corrigindo trabalhos à noite e usando parte do fim de semana para preparar a semana seguinte. 

Porque dedicação e ausência de limites não são a mesma coisa. 

Há uma hora de deixar o trabalho sobre a mesa 

A Regra de São Bento é interessante justamente porque valoriza o trabalho sem transformá-lo em absoluto. No capítulo 43, São Bento determina que, quando soasse o sinal para o Ofício Divino, os monges deveriam interromper aquilo que estavam fazendo. A orientação é direta: “Nada se anteponha ao Ofício Divino”. 

O princípio por trás dessa organização continua provocativo séculos depois: o trabalho é importante, mas não é tudo. 

Para muitos professores, essa fronteira pode ser difícil de estabelecer. Sempre existe algo que ainda poderia ser feito: mais uma atividade para corrigir, uma aula para aperfeiçoar, um material para pesquisar, um registro para concluir. 

Mas talvez parte de uma relação saudável com o trabalho esteja justamente em reconhecer que ele nunca estará completamente terminado. 

Em algum momento, é preciso fechar o computador. 

Deixar a correção para amanhã. 

Aceitar que determinada aula não ficará tão perfeita quanto gostaríamos. 

Reconhecer que nem todas as dificuldades dos estudantes podem ser resolvidas por um único professor. 

O limite não significa falta de compromisso. Pode significar justamente reconhecer os limites da própria responsabilidade. 

Para o cristão, há ainda algo profundamente espiritual nisso. Parar é admitir: eu trabalho, mas o mundo não depende exclusivamente do meu trabalho. 

A Regra começa convidando aquele que a lê a “inclinar o ouvido do coração” e a iniciar aquilo que é bom recorrendo à oração. Talvez esse seja também um convite necessário para quem passa tantos dias ensinando: não permitir que o barulho das demandas seja tão grande que já não reste espaço para ouvir. 

Quando os aplausos chegam, e quando não chegam 

Reconhecimento importa. Um agradecimento de um estudante, o retorno de uma família ou a valorização de um projeto podem trazer alegria e renovar o ânimo. A humildade cristã não exige que o professor esconda seus dons ou ignore suas conquistas. 

Paulo pergunta em 1 Coríntios 4.7: “O que você tem que não tenha recebido?” A questão não é negar talentos e realizações, mas reconhecer que eles não precisam definir quem somos. 

No entanto, podemos fazer um bom trabalho sem transformar cada resultado em uma afirmação sobre nosso próprio valor. Podemos celebrar quando os aplausos chegam e continuar quando eles não vêm. 

Deste modo, para o professor cristão, a pergunta fundamental talvez seja: Para quem estou trabalhando?  

Em primeira instância, para Deus. É a Ele que o trabalho é oferecido, como Paulo ensina: “Tudo o que fizerem, façam de todo o coração, como para o Senhor” (Colossenses 3.23). E é justamente quando o trabalho é orientado a Deus que a excelência deixa de ser busca por aprovação e se torna também uma forma de servir aos estudantes e à comunidade. 

Assim, os aplausos podem ser recebidos com alegria, mas não precisam ser a razão pela qual fazemos o que fazemos. 

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Graziele Oliveira é cristã e comunicóloga. Possui bacharelado em Jornalismo (Centro Universitário Izabela Hendrix), Bacharelado em Letras e Edição (CEFET-MG), MBA em Trade Marketing (Faculdade Arnaldo Jansen), Formação Pedagógica em Docência (CEFET-MG),  e é pós-graduanda em Neurociências na UFMG. leia também Educador Estamos nos acostumando a pouco saber? O impacto da superficialidade na construção do conhecimento […]
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