A escola diante do abismo geracional: Pelo bem de todos, precisamos nos reencontrar?
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A escola diante do abismo geracional: Pelo bem de todos, precisamos nos reencontrar!

Por Diego Ribeiro dos Santos

Estimativa de leitura: 10min 23seg

10 de setembro de 2026

Certamente um dos maiores desafios da Educação contemporânea não está relacionado aos currículos, às avaliações internas e externas ou mesmo às tecnologias que chegam diariamente às escolas. O desafio está nas pessoas. Mais precisamente, na convivência entre gerações que cresceram em mundos profundamente diferentes e que, todos os dias, precisam compartilhar os mesmos espaços, construir significados comuns e encontrar caminhos para a aprendizagem. 

A escola tornou-se um dos últimos ambientes sociais onde diferentes gerações convivem de forma intensa e permanente. Em uma mesma instituição encontram-se professores que viveram a infância em uma realidade predominantemente analógica, gestores que testemunharam a chegada da internet, famílias que aprenderam a lidar com as transformações digitais já na vida adulta e estudantes que nasceram em um mundo conectado, instantâneo e mediado por telas. A consequência desse encontro é inevitável: surgem tensões, conflitos, desencontros e incompreensões que vão muito além da simples diferença de idade. 

Como observava Paulo Freire, educar exige compreender a realidade concreta dos educandos. Não é possível ensinar pessoas sem conhecer o mundo que elas habitam. E este é justamente esse o primeiro grande desafio da escola atual: compreender estudantes que vivem experiências radicalmente distintas daquelas vividas por seus professores quando tinham a mesma idade. 

Quando a atenção se tornou um desafio pedagógico 

Uma cena tornou-se cada vez mais comum nas escolas brasileiras. O professor inicia uma aula cuidadosamente planejada, apresenta um novo conteúdo ou propõe uma reflexão. Enquanto isso, alguns estudantes alternam a atenção entre a fala do docente e as notificações dos aplicativos. 

Muitas vezes, essa situação é interpretada apenas como desinteresse ou indisciplina. Entretanto, a questão é mais complexa. Esses jovens cresceram em uma cultura marcada pela simultaneidade. Estão acostumados a navegar por diferentes janelas ao mesmo tempo, assistir a vídeos curtos, responder mensagens instantaneamente e consumir uma quantidade de informação sem precedentes. 

A questão central é que a aprendizagem continua exigindo algo que nenhuma tecnologia conseguiu substituir: a atenção. Aprender requer permanência, observação, reflexão, tentativa, erro e retomada. Uma análise literária não se constrói em quinze segundos. A compreensão de um fenômeno científico não cabe em um vídeo curto. O desenvolvimento do pensamento matemático exige raciocínio, persistência e aprofundamento. 

José Carlos Libâneo lembra que a função da escola não é apenas fornecer informações, mas promover a formação intelectual dos estudantes. Em um mundo onde a informação se tornou abundante, a capacidade de analisá-la criticamente passou a ser um dos maiores desafios educacionais. O papel do professor já não é o de único transmissor do conhecimento, mas o de mediador capaz de ajudar seus estudantes a transformar informação em compreensão e compreensão em conhecimento. 

Muito se fala sobre o quanto os estudantes mudaram, mas nem sempre se reconhece o quanto as escolas também têm se transformado para acompanhar essas mudanças. Projetos maker, robótica, metodologias ativas, aprendizagem baseada em projetos e cultura digital refletem uma tentativa legítima de aproximar a aprendizagem da realidade dos estudantes e responder a perguntas cada vez mais presentes em sala de aula: “Por que preciso aprender isso?”, “Onde vou utilizar esse conhecimento?” e “Qual a relação desse conteúdo com a minha vida?”

Entretanto, existe um equilíbrio delicado a ser preservado. Atrair o estudante não significa transformar a Educação em entretenimento permanente nem abrir mão da profundidade acadêmica. Como destaca Dermeval Saviani, a função essencial da escola continua sendo garantir o acesso ao conhecimento historicamente construído pela humanidade. Educar, afinal, é acolher os estudantes em seu tempo sem deixar de desafiá-los a ir além dele. 

O desafio de ensinar a uma geração que nunca conheceu o silêncio 

Uma das mudanças mais profundas e menos percebidas está relacionada à maneira como as novas gerações experimentam o tempo. A maioria dos estudantes que hoje frequentam as escolas nunca viveram em um mundo sem internet, smartphones ou acesso imediato à informação. Cresceram cercados por sons, imagens, notificações e estímulos constantes. 

Não se trata de afirmar que os estudantes são menos capazes do que as gerações anteriores. Pelo contrário. Muitos desenvolvem habilidades extraordinárias de adaptação, comunicação e navegação digital. O desafio está em reconhecer que suas experiências cognitivas foram construídas em um ambiente completamente diferente daquele para o qual a escola foi originalmente concebida. 

Mário Sérgio Cortella costuma afirmar que educar é ajudar alguém a ultrapassar o imediatismo. Talvez essa seja uma das grandes missões da escola contemporânea: ensinar que aquilo que possui valor nem sempre produz resultados instantâneos. 

Quando a autoridade também muda de significado 

Poucos assuntos provocam tantas inquietações entre professores e gestores quanto a questão da autoridade. É comum ouvir relatos sobre estudantes que questionam regras, argumentam diante de orientações ou demonstram resistência a determinadas normas institucionais. 

Para muitos educadores, surge a sensação de que a autoridade escolar perdeu força. É bem verdade que as reuniões de pais já não são as mesmas, contudo, talvez estejamos diante de um fenômeno mais complexo do que uma simples perda de autoridade. O que mudou foi a forma como ela é construída e reconhecida. 

As gerações anteriores foram formadas em estruturas mais verticalizadas, nas quais a autoridade era frequentemente legitimada pela posição ocupada, o que desobedecê-las traria consequências drásticas. Os estudantes de hoje, acostumados a ambientes mais participativos, tendem a buscar explicações e sentido para aquilo que lhes é solicitado. Isso não significa ausência de limites. Significa uma nova relação com os limites. 

A frustração docente se expressa na sensação de que cada estudante não demonstra um interesse nítido com o seu projeto de vida, seu futuro e sobretudo, com as consequências de suas escolhas e ações. Mas, como destaca Terezinha Azerêdo Rios, a autoridade pedagógica está profundamente associada à coerência ética e à qualidade das relações estabelecidas. A autoridade continua sendo necessária, mas se fortalece cada vez mais pelo reconhecimento e pela legitimidade, e não apenas pela hierarquia.  

A bem da verdade, o que se percebe hoje é que um esgotamento emocional tomou conta do ambiente escolar, ao ponto dos diferentes atores que nela atuam, apressarem-se em apresentar as suas percepções, versões, cobranças e nessa necessidade de posicionar-se enquanto vítimas de um sistema caótico, bucam culpados e rivalizam enquanto somente a parceria e a confiança são capazes de tirá-los da situação angustiante que se encontram. Não percebem que só a escuta ativa e intencional, sucedida de ações unificadas e concretas será capaz de aproximá-los, no intento de nitidamente sinalizar que não deve haver disputa, mas sinergia pelo bem do estudante, que precisa ser o centro do processo de ensino e aprendizagem. 

Entre algoritmos e relações humanas 

Outro fenômeno desafia diariamente as escolas contemporâneas. Nunca os estudantes estiveram tão conectados uns aos outros. Ao mesmo tempo, nunca se falou tanto sobre solidão, ansiedade, insegurança emocional e dificuldades de convivência. Miguel Arroyo chama atenção para a necessidade de compreender as juventudes a partir de suas realidades concretas. Os jovens de hoje convivem com exposição constante, comparação permanente e busca contínua por validação nas redes sociais e nos ciclos de amizades. 

Nesse cenário, a escola assume uma função ainda mais importante. Ela se torna um dos poucos espaços em que a convivência humana não depende de algoritmos. É na escola que o estudante aprende a ouvir opiniões diferentes, resolver conflitos pelo diálogo, cooperar com pessoas que não escolheu e desenvolver empatia. Por essa razão, a Educação socioemocional deixou de ser apenas uma tendência e passou a representar uma necessidade concreta do nosso tempo. 

O professor como tradutor de gerações 

Diante de todas essas transformações, talvez uma das imagens mais adequadas para definir o papel do educador contemporâneo seja a de um tradutor. Todos os dias, professores traduzem conhecimentos produzidos ao longo da história para estudantes que nasceram em uma cultura digital. Traduzem conceitos complexos para linguagens acessíveis e experiências acumuladas por gerações anteriores para jovens que enxergam o mundo por lentes diferentes. 

Mas o processo também acontece em sentido contrário. Os bons educadores procuram compreender os códigos culturais de seus estudantes, seus interesses, suas inquietações e suas formas de aprender. Rubem Alves dizia que ensinar é um exercício de esperança. Talvez porque ensinar seja, acima de tudo, acreditar que o encontro entre pessoas diferentes continua sendo capaz de produzir crescimento, transformação e sentido. 

Paulo Freire ensinou que a Educação acontece no diálogo. E diálogo não significa que todos pensem da mesma forma. Significa reconhecer que pessoas diferentes podem aprender umas com as outras. As novas gerações têm muito a ensinar sobre adaptação, criatividade, tecnologia e novas formas de interação social. As gerações mais experientes têm muito a ensinar sobre profundidade, memória, perseverança, reflexão e construção de sentido. 

Quando discutimos o abismo geracional, existe um risco que precisamos evitar: acreditar que apenas os adultos ensinam e que apenas os jovens precisam aprender. Quem ensina aprende ao ensinar, e quem aprende também ensina ao aprender. Nesse sentido, as novas gerações chegam à escola não apenas como destinatárias do conhecimento, mas também como portadoras de experiências e perspectivas que desafiam a instituição a se reinventar. 

A experiência sem renovação corre o risco de tornar-se acomodação. A inovação sem experiência pode tornar-se superficialidade. A verdadeira riqueza da Educação nasce justamente do encontro entre essas duas forças. Afinal, a escola tem muito a ensinar às novas gerações, mas também tem muito a aprender com elas. 

Conclusão: o desafio não é a diferença, mas o desencontro 

O grande equívoco do nosso tempo é enxergar as diferenças geracionais como um problema a ser combatido. A escola sempre foi um espaço de encontro entre tempos, experiências e visões de mundo distintas. Os conflitos que hoje emergem nas salas de aula não representam necessariamente uma crise da Educação, mas revelam a complexidade de uma instituição que continua reunindo diferentes gerações em torno de um mesmo projeto de formação humana. O desafio não está em fazer com que professores e estudantes pensem da mesma maneira, mas em criar condições para que possam compreender uns aos outros e construir significados compartilhados. 

Como nos ensinou Paulo Freire, educar é um exercício permanente de diálogo. Em uma sociedade marcada por mudanças cada vez mais aceleradas, talvez a missão da escola seja justamente transformar diferenças em aprendizagem e divergências em possibilidades de crescimento coletivo. O verdadeiro abismo geracional não nasce das distintas formas de enxergar o mundo, mas da incapacidade de escutar o outro. E nenhuma tecnologia será capaz de substituir aquilo que permanece como a essência da Educação: o encontro humano entre gerações que, juntas, aprendem, ensinam e constroem o futuro. 
 

Bibliografia

ALVES, Rubem. A alegria de ensinar. Campinas: Papirus, 2000. 

ARROYO, Miguel González. Ofício de mestre: imagens e autoimagens. Petrópolis: Vozes, 2000. 

CORTELLA, Mário Sérgio. Não nascemos prontos!: provocações filosóficas. Petrópolis: Vozes, 2006. 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. 

LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 1994. 

RIOS, Terezinha Azerêdo. Compreender e ensinar: por uma docência da melhor qualidade. São Paulo: Cortez, 2001. 

SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. Campinas: Autores Associados, 1991. 

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Diego Ribeiro dos Santos
Consultor Educacional da FTD Educação, no Rio de Janeiro. É doutorando em Humanidades, Culturas e Artes e mestre em Educação e Políticas Públicas. Pedagogo e bacharel em Teologia, professor de Geografia e Filosofia, com especializações em Gestão de Políticas Públicas, Orientação Educacional, Administração e Supervisão Escolar e Novas Tecnologias Educacionais.
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