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Dislexia: Entre Letras, Olhares e (Des)Entendimentos 

Por Maria Izabel Jales da Silva

Estimativa de leitura: 5min 10seg

9 de dezembro de 2025

“A educação é aquilo que sobrevive quando tudo o que foi aprendido é esquecido.” (B.F. Skinner) 

Quando as letras dançam diante dos olhos 

Imagine um aluno sentado em sua carteira, olhos fixos no caderno, tentando ler o que para ele parece um enigma. As letras se embaralham, trocam de lugar, dançam silenciosamente diante de sua atenção cansada. 
Do outro lado, um professor observa e pensa: “ele é distraído, desinteressado, desmotivado”

Mas, e se o problema não estiver no querer, e sim em como o cérebro dele aprende? 

A dislexia é um transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica, que afeta o reconhecimento preciso e fluente das palavras, a decodificação e a ortografia (APA, 2013). 
Não se trata de falta de inteligência — é uma diferença na forma como o cérebro processa a linguagem escrita

“A dislexia é uma dificuldade inesperada na leitura, em pessoas que possuem inteligência, motivação e oportunidades adequadas de aprendizado.” (Sally Shaywitz, 2008).

o que é dislexia?

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O desafio invisível 

Muitas vezes, o aluno disléxico entende o conteúdo, mas não consegue expressá-lo pela escrita. Ele sabe a resposta, mas tropeça nas letras. Sente vergonha, medo do erro, medo do olhar do outro. 

E o que fazemos com esse medo?  Infelizmente, rotulamos: preguiçoso, distraído, lento. 

Lev Vygotsky (1998) nos lembra que “aquilo que a criança consegue fazer hoje com ajuda, conseguirá fazer sozinha amanhã”. Mas para isso, é preciso um professor que enxergue além da letra errada — que leia o aluno antes de cobrar que ele leia o texto. 

Entre o preconceito e a empatia 

Na sala de aula, nos grupos de amigos e até dentro da família, a dislexia ainda é mal compreendida. 
“Ele é lerdo”, “ela não gosta de estudar”, “vive no mundo da lua”. 
Essas frases, ditas sem pensar, ferem mais do que parecem. 

“Compreender é o modo humano de reconciliar-se com o mundo.”(Hannah Arendt,1958). 

Compreender a dislexia é um ato de humanidade. E é também um ato pedagógico

Paulo Freire (1996) nos ensinou que ensinar exige “risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação”.  Aceitar o diferente é o primeiro passo para transformar a educação em espaço de cura — e não de exclusão. 

Um olhar que transforma 

A escola precisa de olhos que enxerguem com sensibilidade. A dislexia não é apenas um obstáculo: é também um convite à criatividade

Howard Gardner (1995), ao propor a teoria das inteligências múltiplas, mostrou que cada pessoa aprende de um jeito — e que reduzir o potencial de um aluno à leitura e à escrita é empobrecer o conceito de inteligência. 

Muitos disléxicos se destacam justamente nas áreas em que o pensamento visual e criativo se sobrepõe à linguagem linear. 

Einstein, Leonardo da Vinci, Agatha Christie, Walt Disney, Steven Spielberg — todos eles enfrentaram a dislexia e provaram que o gênio não está nas letras perfeitas, mas na forma singular de olhar o mundo

Um grito silencioso: “Não entendo!!!! Por que você não me entende?!?!” 

No meu livro, Não entendo!!!! Por que você não me entende?!?!, procuro dar voz a esse aluno invisível que tenta, a todo custo, explicar o que sente quando é cobrado por algo que o cérebro ainda não consegue traduzir. 

É um convite para que o educador saia da posição de julgador e assuma o papel de mediador empático, capaz de transformar a frustração em possibilidade. 

Cada página traz reflexões sobre como o olhar sensível do professor pode mudar a trajetória emocional e escolar de um estudante disléxico
Porque, no fim das contas, o que todo aluno quer dizer é simples: 

“Eu só preciso que você me entenda.” 

Dislexia

Três caminhos para a inclusão real 

  1. Identificar cedo: perceber sinais como dificuldade de leitura, inversões de letras, lentidão na cópia ou na escrita espontânea. 
  1. Adaptar práticas: permitir mais tempo, aceitar respostas orais, avaliar pelo conteúdo e não pela forma. 
  1. Apoiar emocionalmente: a autoestima do aluno disléxico é o primeiro campo de batalha — e o professor, seu maior aliado. 

A neuropsicóloga Elena Grigorenko (2001) lembra que “a dislexia não é apenas um problema da escola, mas um fenômeno de vida inteira”. 
Por isso, mais do que adaptar métodos, é preciso mudar atitudes

Box de Reflexão 

 Quantas vezes você já olhou para um aluno e pensou que ele não queria aprender… quando, na verdade, ele apenas não sabia como mostrar o que sabia? 

 Será que a pressa em ensinar não tem nos feito esquecer de aprender a compreender? 

Um convite 

A dislexia é mais do que uma dificuldade — é um espelho da nossa urgência de humanizar a educação
Ler o mundo, como dizia Freire, é mais importante do que apenas ler as palavras. 
E talvez o maior ato de leitura que um professor possa fazer seja ler o coração do seu aluno

Porque ensinar é, antes de tudo, um gesto de amor. 

Costumo dizer: “O mundo está cheio de seres da espécie humana. Mas, seres HUMANOS, são poucos.”
Que possamos ser esses seres realmente humanos que enxergam o outro e estende a mão, acolhe e ajuda a se desenvolver. 

Referências bibliográficas 

  • American Psychiatric Association (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM-5. Porto Alegre: Artmed, 2013. 
  • ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1958. 
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. 
  • GARDNER, Howard. Estruturas da Mente: a teoria das inteligências múltiplas. Porto Alegre: Artmed, 1995. 
  • GRIGORENKO, Elena. “Developmental Dyslexia: an introduction.” Trends in Cognitive Sciences, v. 5, n. 6, 2001. 
  • SHAYWITZ, Sally. A Dislexia. Porto Alegre: Artmed, 2008. 
  • VYGOTSKY, Lev S. A Formação Social da Mente. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 
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