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Israel e Palestina: Guerra permanente, cotidiano e sobrevivência 

Por Ana Nemi

Estimativa de leitura: 11min 23seg

10 de outubro de 2023

Nos últimos meses tem sido comum escutar notícias sobre protestos de israelenses contra as medidas propostas pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu que diminuiriam os poderes do Judiciário para alterar ou suspender decisões do Parlamento. Tais medidas enfraqueceriam, e muito, a capacidade da população e de seus representantes de, por meio do Judiciário, contestar legalmente decisões do Executivo e do Legislativo.

Milhares de pessoas foram às ruas em Israel para protestar contra o Projeto de Lei proposto por Benjamin Netanyahu. Reprodução: Poder 360.

Além disso, envolvido em fortes acusações de corrupção, o primeiro-ministro busca caminhos de escapar a possíveis condenações, minimizando a força do poder Judiciário. No limite, o projeto de lei apresentado pelo Gabinete de Netanyahu quebraria o equilíbrio entre os três poderes, fundamento de qualquer governo democrático.

Por trás das medidas anunciadas, encontra-se a pretensão de diminuir a força das oposições dentro de Israel, ou seja, a força dos grupos sociais e políticos que contestam a expansão de Israel sobre territórios palestinos e, principalmente, discordam da ocupação e do controle militar desses territórios por Israel. E essa é uma história de lutas que ocupou o século XX e para a qual não se tem encontrado saídas negociadas, ao contrário, os conflitos se ressignificam e a violência tem sido sempre a principal resposta em uma guerra bastante desigual para os palestinos.

Funeral de um jovem palestino morto em confronto com forças militares israelenses, na Cisjordânia ocupada, em 10/9/2023. Reprodução: Mussa Qawasma

A Palestina, que tem esse nome desde a Antiguidade, localiza-se no chamado Oriente Próximo, como se pode ver no mapa desenhado por Guy Delisle, reproduzido abaixo. As regiões em laranja e verde, hoje representando Israel e a Palestina respectivamente, formavam a Palestina. É uma região que sempre foi alvo de disputas e por onde passaram romanos, árabes, cristãos e judeus. Em meio às disputas pela região, a maioria dos judeus abandonou o território a partir do século VI a.C., em um processo conhecido como Diáspora judaica.Povos da Mesopotâmia, turcos e nações europeias, como Inglaterra e França, ao longo dos séculos, disputaram o território da antiga Palestina.

No final do século XIX, quando a Palestina era controlada pelo Império Turco-Otomano, judeus dispersos pelo mundo criaram o Sionismo, movimento político que pretendia fundar um Estado de Israel independente para os judeus nas terras da antiga Palestina. O movimento, além de provocar forte migração de judeus para a Palestina, levou a muitos conflitos, já que havia palestinos vivendo nessas terras, e eles também pretendiam a sua independência em relação ao Império Turco-Otomano. Desde o século VIII, quando se iniciou a expansão dos árabes muçulmanos liderados por Maomé, muitos palestinos se converteram ao islamismo, o que tornava os conflitos mais complexos, já que envolviam crenças religiosas. Assim, na primeira metade do século XX, conflitos entre judeus que se estabeleciam na Palestina e árabes muçulmanos que ali moravam, criaram forte instabilidade política na região.

O mapa localiza os territórios palestinos e Israel no mapa-múndi hoje em dia, e destaca as fronteiras entre eles, sendo os territórios palestinos em verde e os israelenses em laranja. Fonte: DELISLE, G. Crônicas de Jerusalém. Campinas: Zarabatana Books, 2012, p. 04.

Após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a divulgação dos horrores do Holocausto, como ficou conhecido o projeto nazista de extermínio dos judeus, a reivindicação sionista por um Estado de Israel independente ganhou legitimidade junto à comunidade internacional. Em 1948, a Organização das Nações Unidas (ONU) reconheceu a instalação do Estado de Israel, apesar dos protestos dos povos árabes, especialmente os palestinos que viviam no território sobre o qual o novo Estado se edificaria. Não é preciso dizer que o resultado foi a deflagração de uma guerra que se mantém até os dias de hoje. E o fato é que o resultado dessas guerras tem sido sempre a expansão dos territórios israelenses sobre aqueles que deveriam estar sob controle dos palestinos.

Com maior poderio militar, e contando com forte apoio dos EUA, seja em recursos ou logística, Israel não apenas expandiu seu território como tem mantido projetos de ocupação colonial sobre territórios palestinos, fundando comunidades fortemente protegidas por suas Forças Armadas e mantendo os palestinos sob controle dentro de territórios policiados e cercados. A resistência dos palestinos é normalmente conhecida como Intifada, que quer dizer Levante em árabe, movimento de jovens e civis que protestam contra Israel com os “instrumentos” que encontram à mão, como paus, pedras e bombas caseiras. Mas também existem grupos militarmente mais bem organizados e armados, como o Hamas e a Jihad Islâmica, que são chamados de terroristas por realizarem ataques contra instalações israelitas que, muitas vezes, atingem civis, o que de resto as Forças Armadas israelenses também fazem com frequência.

Em 1993, o Estado de Israel e os palestinos liderados por Yasser Arafat (1929-2004) assinaram o Acordo de Oslo, por meio do qual os palestinos deixariam de reivindicar a destruição do Estado de Israel e Israel reconheceria o direito dos palestinos a parte do território, onde teriam seu próprio Estado. Mas o Acordo não trouxe os resultados esperados, nem os judeus mais radicais aceitavam entregar parte dos territórios conquistados em guerra ou ocupados pelos seus colonos, e nem os grupos palestinos mais radicais, como o Hamas e a Jihad Islâmica, queriam desistir de acabar com o Estado de Israel. E novamente a balança de poder militar e político dentro do xadrez da ONU favoreceu Israel, já que desde então, apesar das reclamações da comunidade internacional, Israel não diminuiu seu controle sobre os territórios palestinos que ocupou e nem diminuiu processos de colonização como era esperado.

O presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, que acompanhou as negociações de Oslo, observa o cumprimento entre o líder israelense, Yitzhak Rabin (à esquerda), e o líder palestino, Iasser Arafat, (à direita) em 1993, em Washington D.C. Reprodução: Gary Hershorn

São muitos acontecimentos e guerras maiores ou menores que poderiam ser estudados, mas mesmo para adultos, que podem internalizar conceitos, articular fatos históricos, compreender sequências cronológicas e analisá-las, talvez ficasse um tanto maçante.

Por muito tempo, ensinar História era contar o que aconteceu, felizmente, desde as últimas décadas do século XX, isso vem se transformando e o que se espera dos alunos é que aprendam a encontrar rastros do passado no presente, que compreendam a importância de preservar lugares e guardar histórias de povos, pessoas e lugares.

Por isso, e principalmente porque as novas gerações são bombardeadas de informações que, muitas vezes, não conseguem decodificar, é preciso encontrar caminhos de ensinar história por meio do diálogo, da leitura de fontes e documentos de sintaxes diferentes. Acima de tudo, é preciso fugir da armadilha de organizar apenas sequências de acontecimentos e desafiar os estudantes a construírem narrativas históricas a partir do estudo dos instrumentos de prova, como depoimentos, fotografias, imagens, objetos de cultura material etc. Neste sentido, compreender modos de vida e meios de sobrevivência, cotidianos de trabalho e de lutas parece ser um bom caminho. HQs podem ser uma ótima “porta de entrada” para isso, e não apenas na sala de aula, mas para bate-papo familiar ou entre amigos!

O historiador Carlo Ginzburg chama de instrumentos de prova todas as fontes históricas/documentos que nos permitem conhecer outras épocas e seus modos de viver. Desta forma, todos os registros deixados pelos seres humanos constituem instrumentos de prova sobre suas vidas, modos de trabalhar, religiosidades, modos de exercer poder político e social etc. Esses registros podem estar em diferentes suportes e lugares, como paredes de cavernas, sítios arqueológicos, papel, arquiteturas urbanas, pinturas, entre muitos outros.

Quando eu era menina, ler os gibis da Turma da Mônica era acontecimento coletivo, fazíamos coleção e trocávamos entre amigos. Hoje em dia, muitas histórias, personagens e super-heróis depois, essas narrativas que articulam imagens e palavras oferecem enredos para canções, filmes, seriados de TV, cartazes, grafites pelas ruas, fantasias etc. E, também, muitos textos literários clássicos, como Dom Casmurro, de Machado de Assis, e Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, e muitas reportagens, como as feitas por Joe Sacco, são apresentados na forma de HQ.

Guy Delisle é um quadrinista canadense que nasceu em 1966. Ele é casado com uma funcionária da Organização Não Governamental (ONG) Médicos sem fronteiras, e, por isso, viaja para diferentes lugares com ela. Uma dessas viagens foi para Jerusalém, onde ficaram por um ano. Morando na Jerusalém oriental, parte da Cisjordânia/Palestina ocupada por Israel, enquanto cuidava dos filhos, levando para escola, parques e passeios, e da rotina da casa, ele andava por cidades palestinas e israelitas, desenhava as paisagens que via, conversava com as pessoas e conhecia os lugares históricos e bíblicos dos territórios. A HQ Crônicas de Jerusalém é o resultado dessas andanças, desenhos, visitas e conversas. Nela, além de conhecer as paisagens que marcam o conflito israelo-palestino, com seus muros de separação e checkpoints de controle dos palestinos pelos israelitas, encontramos depoimentos, descrições de lugares históricos para judeus, muçulmanos e cristãos, como o Santo Sepulcro, os bairros cristão, armênio e judeu em Jerusalém, e o intenso cotidiano vivido por esses povos.

O que especialmente se destaca nesta HQ é o processo de confinamento a que são submetidos os palestinos de diferentes maneiras. É preciso passar pelos checkpoints e apresentar documentos para chegar aos seus trabalhos quando moram em território palestino e trabalham em território israelense, e isso, muitas vezes, acontece com turistas ou estrangeiros, como Delisle e sua esposa, que pretendiam conhecer a região. Existem regularmente estradas bloqueadas que obrigam a desvios enormes, tomando tempo de vida e de trabalho dos palestinos. Existem zonas ocupadas onde só se entra com permissão e após filas em checkpoints. E existe o Muro da Cisjordânia que vem sendo construído para proteção de Israel e chegará a ter 763 quilômetros.

Trecho do Muro da Cisjordânia que vem sendo construído desde o governo do Primeiro-Ministro israelense Ariel Sharon (2001-2006). A trajetória do Muro, que se constitui de cercas, postos de observação e fossos de proteção, não respeita as fronteiras propostas pelo Acordo de Oslo e está tornando efetivas as fronteiras conquistadas por Israel em guerras e aquelas resultado da fundação de colônias judaicas em território palestino. Reprodução: Edward Kaprov

O contraste entre a Jerusalém oriental, submetida, empobrecida e com ruas sujas e coleta de lixo deficiente, e a Jerusalém ocidental, com suas ruas largas e serviços públicos de qualidade, é gritante na HQ. A convivência de dois sistemas de transporte público tipifica o contraste: os excelentes ônibus israelenses servem toda a cidade, menos aos bairros árabes, nos bairros árabes é possível contar com micro-ônibus que trafegam apenas nesses bairros.

Delisle inclui mapas dos Checkpoints e da localização das colônias em meio aos territórios palestinos, de modo a evidenciar os referidos contrastes. É comum, por exemplo, encontrar colonos armados caminhando pelas cidades e vilas onde se fixaram ilegalmente, muitas vezes expulsando os palestinos do lugar e, depois, contaram com a instalação de energia elétrica e outros serviços, além da proteção militar por parte do Estado de Israel.

A História em Quadrinhos “Crônicas de Jerusalém” (2012), de Guy Delisle, é uma excelente oportunidade para compreender o cotidiano vivido por palestinos em meio à ocupação militar israelense de seus territórios. A leitura pode abrir caminho para estudos de séries de TV, outras HQs e filmes que, para além de familiarizar a comunidade escolar com um assunto tão complexo, aproxima seus membros por meio de objetos culturais de diferentes gerações.

A leitura pela classe, entre amigos ou pela família da HQ Crônicas de Jerusalém pode ensejar outras atividades coletivas, como assistir a filmes ou séries de TV. As HQs constituem, assim, ótima oportunidade para introduzir assuntos contemporâneos complexos em sala de aula e muitos outros ambientes. Movimentando imagens e palavras, elas aproximam tais realidades das vidas dos estudantes e convidam, nomeadamente no caso aqui abordado, a uma reflexão sobre a urgência de soluções dialogadas e negociadas entre povos em conflito, além de demonstrar quão absurdo é submeter gerações de palestinos a uma vida de violência, ocupação militar e ausência de liberdade. Violência, aliás, que também se aplica a parte dos israelenses, aqueles que se colocam contra a expulsão e o controle dos palestinos e que também são retratados na HQ, e contra a qual eles também se insurgem, como quando discordam das medidas propostas por Netanyahu, que diminuiriam sua capacidade de manifestação e protesto.

Para minha aluna Mariane Gennari, que não desiste da Palestina.

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