Reflexões sobre como a liderança educacional exige equilibrar racionalidade e emoção na Era da Imprevisibilidade.
Na Era do Imprevisível, liderar escolas e redes de educação tornou-se uma tarefa desafiadora e profundamente humana. Inspirados por Edgar Morin, entendemos que o líder é tanto homo sapiens — o homem sábio, capaz de decisões racionais e estratégicas — quanto homo demens — o homem criativo e emotivo, que lida com o caos e a incerteza. Essa dualidade não é uma fraqueza, mas uma força, desde que bem compreendida e articulada.
A liderança como jornada de transformação
Liderar não é apenas ocupar uma posição, mas empreender uma jornada de transformação. A gestão educacional exige mais do que o domínio técnico; ela demanda propósito, que amplia nossa visão e capacidade de navegar em contextos complexos.
Encontramos inspiração, para pensar a necessidade de propósito em nossas vidas, no Mito de Sísifo, narrado pela mitologia grega e reinterpretado por Albert Camus. Sísifo, rei de Éfira, foi condenado pelos deuses a uma tarefa interminável: empurrar uma grande pedra até o topo de uma montanha, apenas para vê-la rolar novamente para a base, repetindo o esforço por toda a eternidade. Para Camus, essa narrativa representa a condição humana diante do absurdo — o esforço contínuo em busca de sentido, mesmo em tarefas que, à primeira vista, parecem fúteis.
Mesmo diante de uma tarefa sem sentido e interminável, existe uma beleza no esforço contínuo e na persistência. A ascensão da pedra é a luta constante do ser humano, onde o valor está no processo, não no resultado.
Camus nos oferece uma visão potente: a aceitação do absurdo como uma forma de liberdade. Para o líder, isso significa reconhecer que nem todos os desafios terão soluções definitivas, mas que o esforço contínuo molda tanto a equipe quanto o próprio gestor. Isso dá sentido às relações humanas. Se seguirmos pela perspectiva de Edgar Morin, podemos compreender que, como seres de relação, somos moldados e transformados pelas interações que vivemos.
Na relação entre líderes e liderados, essa dinâmica se intensifica, pois ambos exercem influência mútua, reconhecendo-se como interdependentes em um processo contínuo de transformação. O líder não apenas guia, mas também aprende, enquanto o liderado não apenas segue, mas também contribui, evidenciando que as relações humanas são tecidas por uma rede de interações e retroações.
Assim, líderes e liderados são coautores de suas trajetórias, engajando-se em um movimento dialógico que promove a evolução de ambos, reforçando a noção de que toda relação é um espaço de aprendizado e crescimento mútuo. No entanto esse processo não é linear; é complexo e não pode ser tratado de modo simplista.
Edgar Morin nos lembra que o ser humano é uma síntese de racionalidade e emoção. Essa dualidade é especialmente relevante na educação, onde as decisões devem ser ancoradas em evidências (sapiens), mas também precisam considerar os impactos emocionais e culturais (demens).
Esse equilíbrio dialoga diretamente com as ideias de Antônio Gramsci sobre o interregnum. O educador-líder vive entre o antigo, que já não funciona, e o novo, que ainda não está totalmente claro. Aqui, a complexidade do pensamento de Morin torna-se indispensável. Para ele, a educação e a liderança devem abraçar a incerteza, promovendo um olhar sistêmico que reconheça as inter-relações e a interdependência.
A complexidade deriva de ‘complexus’ — tecido junto. É na integração entre elementos heterogêneos que encontramos o essencial da realidade.” (Morin, 2006)
No contexto educacional, isso significa que o gestor não pode limitar-se a um plano linear de ação. Ele deve ser capaz de ouvir a multiplicidade de vozes em sua comunidade escolar e integrar essas perspectivas em uma visão compartilhada. Sérgio Abranches em A Era do Imprevisto, revela um cenário onde as velhas fórmulas de gestão se mostram insuficientes.
Abranches nos alerta para a natureza disruptiva das mudanças contemporâneas: não são lineares nem progressivas; são caóticas e exigem um tipo diferente de resposta. Para liderar nesse contexto, é essencial desenvolver o que podemos chamar de inteligência contextual — a capacidade de ler os sinais do presente, entender os desafios emergentes e articular respostas que considerem tanto o contexto macro quanto as especificidades locais.
Morin e Abranches convergem aqui ao enfatizar que a liderança não é apenas sobre antecipar o futuro, mas sobre lidar criativamente com o presente. Como educadores, somos chamados a interpretar e agir, mesmo quando as condições são incertas. A liderança deve estar fundamentada em uma ética que reconheça o valor das pessoas. Não se trata apenas de alcançar metas institucionais, mas de construir relações que promovam o desenvolvimento humano.
Nesse ponto, vale destacar o papel da sensibilidade na prática gestora. Enquanto o rigor técnico e científico nos oferece ferramentas para decisões estratégicas, é a sensibilidade humana que constrói ambientes de pertencimento e acolhimento. Como líderes, temos a responsabilidade de equilibrar essas dimensões para criar espaços educacionais onde todos possam florescer.
Liderar na educação é como tecer uma teia. Cada fio representa uma conexão humana, cada nó, um momento de decisão. Alinhando racionalidade e sensibilidade, sapiens e demens, os líderes criam uma rede forte o suficiente para sustentar a imprevisibilidade e flexível para acolher a mudança.
Liderar escolas e redes educacionais na Era do Imprevisível não é sobre números; é sobre construir relações e cuidar do essencial: as pessoas.
A jornada do líder, como a de Sísifo, é marcada pelo esforço contínuo. Mas, diferentemente do mito, nossa revolta contra o absurdo não é um fardo; é uma oportunidade de criar significado, integrar racionalidade e sensibilidade, e transformar a educação enquanto nos transformamos.
Referências
- CAMUS, Albert. O mito de Sísifo. Tradução de Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Record, 2017.
- MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 9. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNESCO, 2021.
- MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Tradução de Eliane Lisboa. Porto Alegre: Sulina, 2006.
- ABRANCHES, Sérgio. A Era do Imprevisto: a grande transição do século XXI. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.








