Saber usar a IA não é suficiente. A habilidade que a escola ainda precisa ensinar é como pensar criticamente sobre ela.
Quando uma criança de 9 anos já sabe pedir para a IA fazer o dever de casa, mas não sabe avaliar se a resposta que recebeu é verdadeira, a escola tem um problema. Não com a tecnologia, mas com a sua mediação.
Segundo a Pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, realizada pelo Cetic.br com 2.370 crianças e adolescentes de 9 a 17 anos, 65% dos usuários de internet nessa faixa etária já usaram alguma ferramenta de inteligência artificial generativa para ao menos uma atividade, seja estudar, criar conteúdo ou conversar sobre emoções. Entre os de 13 a 17 anos, esse número chega a 75%. Das crianças de 9 a 10 anos, 42% também já usam.
A IA chegou antes da formação docente, antes das políticas curriculares e, em muitos casos, antes de qualquer conversa sobre o assunto em sala de aula.

É nesse cenário que a pedagogia do prompt começa a ganhar espaço entre educadores que estão ligados na relação entre tecnologia e aprendizagem. O conceito parte de uma premissa direta: antes de usar uma ferramenta de IA, o estudante precisa aprender a pensar. E o prompt, o comando que orienta a resposta de uma inteligência artificial como o ChatGPT, por exemplo, pode ser o ponto de partida para isso.
O que é pedagogia do prompt
Um prompt é a instrução que um usuário escreve para que uma ferramenta de IA gere uma resposta. Pode ser uma pergunta, um comando ou uma orientação contextualizada. Quanto mais clara, específica e bem estruturada for essa instrução, mais útil tende a ser o que a ferramenta devolve.
A pedagogia do prompt propõe tratar a criação de prompts como uma prática educativa intencional, não como um atalho para obter respostas prontas. O foco está no processo: formular a intenção com clareza, analisar criticamente o que a IA devolve, identificar erros e limitações, e refinar o resultado com base em repertório próprio.
O conceito dialoga com o que pesquisadores internacionais chamam de prompt literacy, uma das dimensões do letramento em IA. Um artigo publicado no International Journal of Educational Technology in Higher Education identificou o letramento em IA e o prompt engineering (engenharia do prompt) como duas das três competências centrais para a Educação na era da IA.
Segundo o estudo, a habilidade de formular prompts precisos enriquece as experiências de aprendizagem e promove o pensamento crítico de forma mais consistente do que o uso passivo das ferramentas. No Brasil, esse debate começou a crescer a partir de 2023 com a popularização do ChatGPT, mas ainda encontra pouca estrutura nas escolas.
O que Débora Garofalo defende
Poucos nomes são tão centrais nesse debate no Brasil quanto o de Débora Garofalo. Professora da rede pública de São Paulo, mestre em Linguística Aplicada pela PUC-SP e FabLearn Fellow pela Columbia University, ela foi a primeira sul-americana a integrar o top 10 do Global Teacher Prize em 2019, considerado o Nobel da Educação, e recebeu em fevereiro de 2026 o prêmio Global Teacher Influencer of the Year, categoria inédita criada pela Varkey Foundation para reconhecer professores cujo impacto ultrapassa a sala de aula.
“A tecnologia, tanto como objeto quanto como ferramenta, é poderosa para a Educação, mas deve ser aplicada com intencionalidade pedagógica, focada no desenvolvimento integral do estudante.” – Débora Garofalo
Em sua coluna na Revista Educação, Garofalo afirma que a tecnologia está cada vez mais presente fisicamente nas escolas, com computadores, tablets e plataformas digitais, mas a habilidade mais crucial para navegar esse novo mundo continua sem o devido destaque: o pensamento crítico. Para ela, estamos no limiar de uma transformação educacional tão profunda quanto a invenção da imprensa, e a escola ainda não respondeu à altura.
Na era dos algoritmos, a informação é filtrada e recomendada com base em perfis e preferências, o que torna o pensamento crítico não apenas uma competência desejável, mas uma necessidade estrutural da formação escolar.

Ao falar sobre o tema Educação 5.0, no espaço Conteúdo Aberto dentro do estande da FTD Educação na Bett Brasil 2026, Débora Garofalo defendeu que o uso da IA na escola precisa ir além da automação.
Para ela, formular prompts é uma nova linguagem educacional: exige clareza de intenção, contextualização e capacidade de analisar criticamente o que a ferramenta produz. A educadora ressalta que essa é uma forma de trabalhar a IA de forma desplugada, trazendo um conjunto de atividades que ensinam conceitos e lógicas da inteligência artificial sem depender de dispositivos eletrônicos.
O que a Unesco espera dos estudantes na era da IA
Em 2024, a Unesco publicou o Marco Referencial de Competências em IA para Estudantes (MRCE-IA), um documento de referência internacional que define o que se espera que crianças e jovens saibam, façam e valorizem em relação à inteligência artificial. O marco parte de uma premissa central: o pensamento crítico é a habilidade fundamental da qual os estudantes precisam para se envolver de forma significativa com a IA, tanto como usuários quanto como criadores.
O documento organiza as competências em quatro dimensões, cada uma com três níveis de progressão: compreender, aplicar e criar.

- A dimensão mentalidade centrada no ser humano trabalha autonomia humana, responsabilidade humana e cidadania na era da IA.
- A dimensão ética da IA parte da ética incorporada, avança para o uso seguro e responsável e chega à ética desde a concepção.
- A dimensão técnicas e aplicações de IA vai dos fundamentos de IA para habilidades voltadas à aplicação e, no nível mais avançado, para a criação de ferramentas de IA.
- Já a dimensão projeto de sistemas de IA começa pelo escopo do problema, passa pelo projeto de arquitetura e chega aos ciclos de iteração (loop) e feedback.
O documento propõe que os estudantes sejam desafiados a fazer perguntas que vão além do uso técnico da ferramenta: a IA está preparada para ajudar a resolver os desafios do mundo real ou representa ameaças? Os impactos climáticos do treinamento e do uso da IA são proporcionais aos benefícios? Quais impactos sociais, econômicos e políticos do uso da IA precisam ser revistos?
A Unesco espera que os estudantes se tornem capazes de tomar decisões de forma consciente sobre quando sistemas de IA devem ou não ser usados, quais problemas eles conseguem ou não resolver e como a IA deve ser projetada como parte de uma solução mais ampla. A ideia é romper com a premissa de que a IA é a solução para tudo.
O marco referencial também destaca que cada país está sendo inserido no mundo da IA em ritmos diferentes, mas os estudantes em todo o mundo serão cidadãos imersos nessa realidade. Eles não deverão apenas cumprir regulamentações legais e princípios éticos: como cidadãos, vão contribuir ativamente para a construção dessas normas.
Por que esse debate não pode esperar
A pesquisa TIC Educação 2024, do CGI.br, mostra que apenas 19% dos estudantes brasileiros relataram ter conversado com professores sobre como usar IA generativa em atividades escolares. Só 33% disseram ter recebido orientações sobre como identificar conteúdos incorretos ou com vieses produzidos por essas ferramentas.
Ao mesmo tempo, a escola ainda aparece como uma das últimas fontes de orientação sobre internet para as famílias. A TIC Kids Online Brasil 2025 mostra que apenas 41% dos pais e responsáveis indicam a escola como referência nesse tema. A maioria aprende com a própria criança ou com amigos e familiares.
Esse é justamente um dos problemas que a pedagogia do prompt busca resolver. A ideia é devolver à escola o papel de ensinar a pensar sobre as ferramentas que os estudantes já usam.
IA desplugada: aprender o conceito sem precisar de dispositivos

Ensinar os estudantes como usar a inteligência artificial não exige computador. Parece pegadinha, mas essa é uma das premissas centrais do documento orientador Inteligência Artificial na Educação Básica, lançado em 2026 pelo Ministério da Educação em parceria com a Unesco. O documento orienta redes de ensino na construção de currículos, práticas pedagógicas e políticas institucionais que integrem a IA de forma ética, crítica e segura, e reconhece que essa integração precisa funcionar também em contextos com infraestrutura limitada, acesso restrito a dispositivos e baixos níveis de letramento digital.
É aí que entra a chamada IA desplugada: atividades físicas, lúdicas e colaborativas que ensinam como sistemas inteligentes funcionam sem depender de nenhuma ferramenta digital. Mais do que uma solução para escolas sem recurso, é uma escolha pedagógica com respaldo científico e curricular. O estudante aprende como a IA opera a partir de dados, regras e modelos, o que desenvolve compreensão real sobre classificação, tomada de decisão e limitações do algoritmo.
Na prática, isso significa usar papel, fichas, cartões ou dinâmicas em grupo para simular o que um modelo de linguagem faz quando recebe um prompt. Um estudante escreve uma instrução, outro executa literalmente o que foi pedido. O que parece óbvio para quem escreveu pode ser ambíguo para quem lê. Esse atrito é o aprendizado, e é exatamente sobre isso que a pedagogia do prompt se sustenta.
Um exemplo é o vídeo de Josh Darnit que, desde 2017, é usado por educadores do mundo todo para ilustrar o desafio de uma tarefa simples. Na experiência ele segue à risca as instruções que seus filhos escreveram para fazer um sanduíche de pasta de amendoim com geleia. O resultado caótico ilustra exatamente como a precisão de uma instrução determina a qualidade do resultado, a mesma lógica que orienta a construção de um prompt.
Essa abordagem não é uma inovação dentro do currículo brasileiro, ela está prevista no complemento à BNCC de Computação, homologado em 2022 pela Resolução CNE/CEB nº 1/2022.
A BNCC Computação é organizada em três eixos: Pensamento Computacional, Mundo Digital e Cultura Digital. O eixo do Pensamento Computacional, que envolve práticas como decomposição de problemas, reconhecimento de padrões, abstração e criação de algoritmos, traz exatamente os processos cognitivos que a pedagogia do prompt coloca em prática. A recomendação é que essa implementação priorize atividades desplugadas nos Anos Iniciais, com progressão para usos mais críticos e autorais nos Anos Finais e no Ensino Médio.
Como o professor pode começar hoje
A implementação da pedagogia do prompt não exige laboratório de informática nem acesso a nenhuma ferramenta específica. O documento orientador Inteligência Artificial na Educação Básica, lançado pelo MEC em 2026, organiza orientações por etapa de ensino com níveis crescentes de complexidade.
A lógica é a mesma da pedagogia do prompt: partir do concreto, do colaborativo e do crítico, antes de qualquer tela.
Educação Infantil
Atividades corporais e jogos que trabalham sequências, regras e reconhecimento de padrões introduzem, sem nomear, os princípios que sustentam qualquer sistema de IA: instrução, decisão e resultado. Uma criança que aprende a seguir e criar regras em brincadeiras está, sem saber, praticando o mesmo raciocínio que rege um algoritmo.
Anos Iniciais do Ensino Fundamental
Os estudantes exploram classificação e representação de dados com agrupamentos físicos, cartões e diagramas simples. Uma atividade possível: em grupos, os estudantes recebem imagens e precisam criar uma instrução para que um colega separe os elementos em categorias, sem usar os nomes dos grupos. O exercício trabalha abstração, decomposição e precisão de linguagem, os mesmos princípios de um prompt bem formulado.
Anos Finais do Ensino Fundamental
Nessa fase, é possível discutir treinamento e teste de modelos, erros de classificação e vieses algorítmicos. Uma atividade concreta: jogos baseados em árvores de decisão, nos quais os estudantes constroem critérios para classificar elementos e testam a precisão dos próprios modelos. Isso os ajuda a entender que sistemas de IA identificam padrões em dados, mas operam sempre sob condições de incerteza. Outra entrada possível é apresentar à turma uma mesma pergunta respondida pela IA com três níveis diferentes de especificidade no prompt, comparar os resultados e discutir o que mudou e por quê.
Ensino Médio
Simulações de tomada de decisão automatizada permitem abordar aprendizagem de máquina e impactos sociais da IA, articulando fundamentos técnicos à reflexão ética. Atividades com fluxogramas, algoritmos e dinâmicas de grupo desenvolvem decomposição, abstração e sequenciamento lógico, pilares do pensamento computacional previstos no Complemento de Computação à BNCC.
Em qualquer etapa, o ponto de partida é o mesmo: o professor não precisa dominar a tecnologia para ensinar a pensar sobre ela. Precisa criar situações em que o estudante precise formular, testar, errar e refinar. Esse ciclo, que o MEC chama de ensino sobre IA e com IA, é o que a pedagogia do prompt coloca no centro da prática docente.
Experimento para trabalhar em sala de aula
Um experimento conduzido por Almira Osmanovic Thunström, pesquisadora médica da Universidade de Gotemburgo (Suécia), ilustrou o risco de confiar em todas as informações da IA de forma concreta.
Sua equipe criou uma doença fictícia, a bixonimania, com sintomas inventados: coceira e irritação nos olhos por exposição à luz azul e hiperpigmentação nas pálpebras. Publicaram dois estudos igualmente falsos sobre a condição, com alertas explícitos como “todo esse artigo é inventado” e “cinquenta indivíduos fictícios”.
Poucos dias depois, os principais sistemas de IA já reproduziam a bixonimania como se fosse real: o Copilot (Microsoft Bing) descreveu a condição como “intrigante e relativamente rara”, o Gemini (Google) recomendou consulta a um oftalmologista, o Perplexity AI estimou prevalência de “1 em cada 90.000 pessoas” e o ChatGPT chegou a avaliar sintomas de usuários para confirmar se correspondiam à doença.
A partir do experimento da bixonimania, os estudantes podem investigar como uma informação falsa foi reproduzida como verdadeira por diferentes sistemas de IA, elaborar prompts de verificação e debaterem ética, responsabilidade e autoria no uso dessas ferramentas.
O que os estudantes desenvolvem na prática

Quando mediada pelo professor com intencionalidade pedagógica, a prática de criação e análise de prompts tende a desenvolver nos estudantes:
- Clareza de argumentação: estruturar ideias com precisão é o mesmo requisito de uma boa redação, de uma apresentação oral bem-organizada ou de qualquer forma de comunicação que exige que o outro entenda o que foi dito.
- Pensamento crítico: avaliar se a resposta da IA faz sentido, identificar inconsistências e questionar a origem das informações são habilidades que se aplicam a qualquer fonte, não apenas à IA.
- Curadoria de informação: distinguir respostas relevantes de respostas genéricas ou incorretas é uma competência indispensável num ambiente em que conteúdo gerado por IA circula sem identificação clara.
- Compreensão de vieses: reconhecer que modelos de linguagem produzem respostas com base nos dados com que foram treinados, e que esses dados têm lacunas e distorções, é parte do que pesquisadores chamam de letramento algorítmico.
- Autoria: usar a IA como ponto de partida, não como destino. O aluno aprende a refinar, questionar e ressignificar o que a ferramenta produz. Esse é o objetivo central da pedagogia do prompt: que o estudante seja um criador crítico, não um consumidor passivo.
Gostou desse tema? Então confira o artigo: TIC Kids Online Brasil: Como crianças e adolescentes têm usado a IA








