65% das crianças e dos adolescentes já usam IA generativa para estudar, criar conteúdo e lidar com emoções.
Em meados dos anos 2000, com a explosão da internet e a popularização dos buscadores de informação, o termo “dar um Google” entrou na cultura pop como sinônimo para pesquisar um dado ou tirar alguma dúvida on-line.
Agora em 2025, com o avanço das inteligências artificiais, “vou perguntar pro Chat” (em referência ao modelo de linguagem ChatGPT) ou “vou pedir pra IA” já fazem parte do nosso vocabulário e do nosso dia a dia. Segundo a Pesquisa sobre Consumo e Uso de Inteligência Artificial no Brasil, realizada pelo Observatório Fundação Itaú e pelo Datafolha, 93% dos entrevistados utilizam alguma ferramenta com IA em seu cotidiano.
E, se estamos falando de mudanças na sociedade, é claro que a geração alfa, a primeira a nascer totalmente no século XXI, também já foi impactada e se adaptou à novidade. Hoje, quase dois terços dos usuários de internet brasileiros, com idades entre 9 e 17 anos, já incorporaram ferramentas de inteligência artificial generativa em suas rotinas, seja para auxiliar nos estudos, criar conteúdos ou, até mesmo, para conversar sobre suas emoções.
É o que nos mostra a TIC Kids Online Brasil 2025, pesquisa realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), departamento do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), que visa compreender de que forma crianças e adolescentes utilizam a internet e como lidam com as oportunidades e riscos decorrentes desse uso.
O dado inédito é uma das informações que ajuda a orientar especialistas, pesquisadores, governo e sociedade a entender melhor os hábitos das crianças e adolescentes brasileiros na internet.
“A inteligência artificial generativa está cada vez mais presente nas práticas digitais cotidianas, seja na busca por informações, na criação de conteúdo ou mesmo como recurso com o qual as pessoas compartilham questões pessoais e emocionais. Diante desse cenário, incluímos um novo indicador à pesquisa para monitorar como crianças e adolescentes estão utilizando essas tecnologias. Com isso, buscamos gerar evidências que contribuam para a formulação de políticas e ações voltadas à sua proteção, ao bem-estar e ao desenvolvimento integral”, explica Alexandre Barbosa, gerente do Cetic.br.
Como crianças e adolescentes têm usado a Inteligência Artificial
A 12ª edição da pesquisa TIC Kids Online Brasil lançada durante o Simpósio de Crianças e Adolescentes na Internet entrevistou presencialmente 2.370 crianças e adolescentes com idades entre 9 e 17 anos, assim como seus pais ou responsáveis, em todo o território nacional, para compreender como esse público tem se relacionando com as tecnologias digitais.
E pela primeira vez, o levantamento investigou o uso de IA generativa confirmando que a inteligência artificial já é uma realidade na vida de crianças e adolescentes.
Os dados afirmam que 59% das crianças e dos adolescentes nessa faixa etária recorrem à tecnologia para realizar pesquisas escolares ou estudar. Outros usos incluem a procura por informações (42%), a criação de conteúdo como textos e imagens (21%) e conversas sobre problemas pessoais ou emoções (10%).

A pesquisa também confirma uma tendência geracional: o uso da tecnologia aumenta conforme a idade. Na faixa de 15 a 17 anos, a presença de ferramentas de inteligência artificial é maior do que entre crianças de 9 a 10 anos.
Entre adolescentes, 68% já usam IA para estudar, mas quando olhamos para a faixa etária entre 9 e 10 anos, a taxa cai para 39%.
Dentre os jovens, 60% usam a IA para a busca de informações, 32% para a criação de conteúdos e 12 % para lidar com emoções.
Pode parecer estranho pensar na IA como uma ferramenta de apoio para lidar com sentimentos, mas segundo o Relatório 2025 de Segurança Cibernética da Norton, que oferece uma visão abrangente dos desafios que familiares de crianças em idade escolar enfrentam no ambiente digital, 39% dos pais brasileiros afirmam que seus filhos usam a IA como companhia e apoio emocional.
À medida que as crianças se tornam digitais desde cedo – muitas têm o primeiro acesso a tablets ou celulares da família por volta dos dois anos e ganham seu primeiro celular por volta dos 12 – os pais enfrentam um cenário sem precedentes. O relatório destaca a urgência de fornecer ferramentas que ajudem as famílias a manterem as crianças seguras neste cenário digital em rápida evolução.
Diogo Cortiz, professor e pesquisador especializado em tecnologia, inovação e ciência cognitiva, também ressalta em seu perfil do Instagram que esse é um cenário complexo para o futuro da subjetividade humana.
“A pesquisa (TIC Kids Online Brasil) mostra aquilo que a gente vem conversando há bastante tempo: a IA entrou na rotina da infância sem pedir licença e sem que a maioria dos pais, responsáveis e professores estejam preparados para encarar essa situação. Agora o desafio é entender como essa geração vai aprender, criar e se relacionar com uma tecnologia que conversa e convence,” afirma o professor.
Em uma sociedade cada vez mais guiada pela inteligência artificial, entender a melhor forma de buscar, filtrar e compartilhar informações se torna uma habilidade indispensável. É nesse contexto que a Educação Midiática aparece como uma resposta e uma necessidade. Afinal, já sabemos que o acesso à tecnologia, por si só, não garante aprendizado nem segurança; é preciso formar usuários conscientes para essas e quaisquer tecnologias que virão.

O papel da Educação Midiática na era da IA
Ao possibilitar o uso criativo da tecnologia digital e empoderar seus usuários, a Educação Midiática permite aprimorar conhecimentos sobre direitos on-line e digitais, bem como sobre as questões éticas que envolvem o acesso e o uso da informação.
Hoje, cidadãos alfabetizados em mídia e informação estão mais bem preparados para participar de forma mais efetiva em diálogos, liberdade de expressão, acesso à informação, igualdade de gênero, diversidade, paz e desenvolvimento sustentável.
Essa formação perpassa diferentes pontos, tais como:
- A necessidade de ensinar pensamento crítico, checagem de informações e ética digital no uso dessas ferramentas.
- O desafio de integrar tecnologia e educação de forma pedagógica, não apenas recreativa.
- O fortalecimento da alfabetização digital e da autonomia informacional de crianças e adolescentes.
- O potencial para formação cidadã e criativa, se acompanhada de orientação crítica sobre linguagem, autoria e direitos digitais.
Aliadas aos 4 C’s da Educação, que englobam a comunicação, a criatividade, a colaboração e o pensamento crítico como competências essenciais para o século XXI, as habilidades midiáticas emergem como ferramentas imprescindíveis diante dos desafios de um mundo hiperconectado.
Definida pela EducaMídia como um conjunto de práticas que possibilitam o desenvolvimento de habilidades para acessar e analisar criticamente informações, produzir conteúdos com responsabilidade e participar de maneira mais consciente e equilibrada do ambiente informacional e midiático em todos os seus formatos, a Educação Midiática não é mais opcional, é essencial.
A afirmação vem da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), que promove anualmente a Semana Mundial da Alfabetização Midiática e Informacional e recentemente mapeou 194 países acerca do tema, fazendo um chamado para que tornemos a alfabetização midiática inerente à Educação.
O panorama mundial nos traz dados conflitantes, mostrando que 88% dos países reconhecem a importância da alfabetização midiática nas políticas nacionais, mas 22% ainda não integraram a competência no currículo e 29% dos países ainda limitam a alfabetização midiática e informacional a competências digitais, sem ensinar os estudantes a usar o pensamento crítico.

Como incluir a Educação Midiática no currículo escolar
O Brasil está atento à necessidade de formar cidadãos alfabetizados em mídia e informação, por isso estipulou essa competência como elemento curricular obrigatório a partir das Diretrizes Operacionais Nacionais sobre o uso de dispositivos digitais nos espaços escolares e sobre a integração curricular da Educação Digital e Midiática (Resolução CNE/CEB N. 2 de 21 de março de 2025).
Como parte desse movimento, o governo também criou o guia “Educação Digital e Midiática: Como elaborar e implementar o currículo nas escolas”, que apresenta definições, marcos legais e fundamentos pedagógicos para a orientação deste trabalho, apresentando o contexto global da Educação Digital e Midiática.
No documento são discutidos os possíveis caminhos de implementação, indicando que o ponto de vista criativo e ético é essencial para ter o estudante como usuário e criador crítico de tecnologias, com capacidade de analisar eticamente as soluções tecnológicas e seus limites e vieses.
Confira as orientações do MEC do que trabalhar em cada etapa de ensino para construir um currículo de Educação Midiática:
Na Educação Infantil:
- Prioridade à experiência e à exploração do mundo.
- Integração da família para conscientização sobre o uso equilibrado de dispositivos digitais.
- Computação desplugada.
Nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental:
- Prioridade à alfabetização.
- Pensamento computacional para consolidar conhecimentos matemáticos e lógico.
- A Educação Digital e Midiática para consolidar a autonomia de leitura, apresentar os ambientes digitais e suas funções sociais e introduzir conceitos essenciais da Educação Midiática como autoria e propósito dos conteúdos, evidências, representação e outros.
- A promoção da segurança e dos direitos digitais, assegurando proteção sem comprometer a autonomia, garantindo o direito à informação e incentivando o uso ético e crítico das mídias.
Nos Anos Finais do Ensino Fundamental:
- A Educação Digital e Midiática crítica e criativa.
- O desenvolvimento do pensamento complexo e da programação.
- A Educação Digital e Midiática voltada às demandas da juventude e à reflexão sobre cidadania digital e participação social.
No Ensino Médio:
- O letramento digital, midiático e computacional integrado e como dimensões da Educação Científica.
- A identificação dos riscos sociais das tecnologias digitais, incluindo ameaças à integridade da informação, perpetuação de vieses e exclusões e seu entrelaçamento com outros eixos transversais como Educação Socioambiental e relações étnico-raciais.
- A associação entre dados e técnicas computacionais e solução ética de problemas.
Materiais de apoio para formação de professores em Educação Midiática
- Guia “Educação Digital e Midiática: Como elaborar e implementar o currículo nas escolas” (MEC)
O documento elaborado pelo Ministério da Educação (MEC) foi criado para apoiar as lideranças educacionais no processo de tomada de decisão para a implementação de políticas educacionais para garantia dos direitos de aprendizagem relacionados à Educação Digital e Midiática.
Clique aqui para acessar o Guia Digital e Midiática.
- Guia da Educação Midiática (EducaMídia)
Produzido pela EducaMídia – programa criado pelo Instituto Palavra Aberta para que toda a sociedade desenvolva habilidades para participar de forma consciente e crítica dos ambientes informacionais – o guia convida educadores e demais agentes ligados à Educação a refletirem sobre a importância e a urgência de prepararmos crianças e jovens para uma relação rica e fortalecedora com as mídias.
Clique aqui para acessar o Guia EducaMídia.
- Alfabetização midiática e informacional: currículo para formação de professores (UNESCO)
O Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos estabelece que “Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; esse direito inclui a liberdade de opinar livremente e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras”. Nesse documento, a UNESCO ressalta como a alfabetização midiática e informacional proporciona aos cidadãos as competências necessárias para buscar e usufruir plenamente dos benefícios desse direito humano fundamental.
Clique aqui para acessar o artigo da UNESCO.
- Percurso pedagógico em Educação Midiática – Somos todos influencers: reflexões sobre a participação nas redes sociais (Redes Cordiais)
O Redes Cordiais é uma organização criada com a missão de criar espaços digitais mais saudáveis e confiáveis. Neste material trazem uma proposta de percurso pedagógico que visa inspirar educadores a refletirem com seus alunos sobre como eles se relacionam com as redes sociais; o que é e o que significa participar das redes sociais; outras possibilidades de participação nas redes a partir da conscientização de que todos somos influencers e qual a nossa responsabilidade diante desse fato; além de como produzir conteúdos que possam transformar a nossa relação com as redes sociais.
Clique aqui para acessar Percurso pedagógico em Educação Midiática.
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- Podcast Conteúdo Aberto – IA para professores
A inteligência artificial já é uma realidade na vida escolar, mas ainda traz muitas dúvidas e questões pedagógicas consigo. Nessa conversa, Emilly Fidelix, especialista em Tecnologias, Comunicação e Técnicas de Ensino e criadora do “Se Liga, Prof.”, esclarece o uso da IA na Educação. Ela fala sobre ferramentas acessíveis, prompts na prática e o que realmente muda (ou não!) no trabalho docente. Um papo leve, cheio de exemplos reais e reflexões para quem quer ganhar tempo, engajar alunos e seguir sendo essencial no processo de ensinar e aprender.
Clique aqui para ouvir o episódio IA para professores. Ou assista pelo link abaixo.








