Entre outubro de 2015 e abril de 2016, fui professora voluntária em uma escola situada no extinto campo de refugiados de Calais, na França.
Contarei essa experiência em três tempos: começo traçando um panorama sobre as migrações na região, apresentando o contexto que deu origem à escola. Depois, trarei o relato da minha experiência de forma mais pessoal e, concluindo, compartilharei algumas reflexões sobre acolhimento de crianças e jovens em contextos de vulnerabilidade.
Antes de mais nada gostaria de explicar como eu, uma professora brasileira, me encontrei no epicentro de uma grave crise migratória iniciada na Europa em 2014.
Como milhões de brasileiros, sou descendente de imigrantes. Do lado materno da família, meus bisavôs deixaram a Bulgária no período da Revolução Russa. Do lado paterno, todos vieram da Itália fugindo da fome no final da Primeira Guerra Mundial. Em 2010, repeti o destino familiar, fazendo um pouquinho diferente e retornando à Europa por escolha.
Quis o destino que meu companheiro fosse francês e morasse em Dunkerque, cidade portuária situada no Mar do Norte. As cidades da região fazem a ligação entre os países do norte da Europa e o restante do continente através de redes de transporte bastante densas e diversificadas, com destaque para o Eurotúnel, que liga as cidades de Calais (França) e Folkestone (Inglaterra) por trem, e para o porto de Calais, que faz a ligação marítima com Dover.

Apenas 35 quilômetros separam Calais da costa inglesa. O Canal da Mancha é a fronteira natural e os postos de controle instalados em Calais e Dover representam as fronteiras administrativas. Reprodução: Dunkerque Promotion.
A localização estratégica da região atrai, desde o final da década de 1990, imigrantes e refugiados de diversas nacionalidades, com destaque para kosovares, afegãos, curdos do Iraque ou do Irã, eritreus, sudaneses e albaneses, que têm como principal objetivo atravessar o Canal da Mancha e chegar à Inglaterra.
A Inglaterra é um destino atraente pela facilidade na comunicação em inglês, pela presença de familiares que já imigraram e pela possibilidade de realizar trabalhos informais mal remunerados sem necessidade de documentação.


Com a intensificação dos conflitos no Oriente Médio e na África nos anos 2010, os governos inglês e francês passaram a investir milhões de euros reforçando dispositivos de segurança, como a construção de muros e barreiras em torno do Eurotúnel, do porto e das rodovias, para dificultar as travessias ilegais.
Essa medida criou condições para que campos improvisados se multiplicassem por todo o litoral norte da França, gerando uma crise humanitária nunca vista na região, com acirramento das tensões entre governo, população local e imigrantes.
O campo de Calais, pejorativamente conhecido como “Jungle” (selva), se tornou, em menos de dois anos, o maior da região, abrigando aproximadamente dez mil pessoas antes da sua destruição definitiva em outubro de 2016.
A primeira vez em que estive no campo tive a impressão de que atravessei um portal para outra dimensão, o estranhamento foi total. Jamais imaginei presenciar tamanha miséria na Europa, no século 21, tão perto da minha casa. Nos primeiros minutos não sabia o que fazer, para onde olhar, como olhar, se sorria para as pessoas ou chorava.
As condições de vida eram subumanas. Sem infraestrutura, as construções foram erguidas com madeira, plástico e outros materiais doados por associações e voluntários de diversos países.
Não havia energia elétrica – apenas alguns postes de iluminação na principal rua que atravessava o campo – abastecimento de água, esgoto, asfaltamento. Alguns pontos de água fria foram instalados, e era comum ver pessoas circulando com galões cheios de água pelas ruelas cheias de lama. Os banheiros químicos eram insuficientes para atender à demanda.
A exposição ao frio, ao vento, às chuvas e a ausência de condições mínimas de higiene expunham a população do campo, principalmente as crianças, a doenças respiratórias, gástricas e de pele, como a escabiose. Sem contar os ferimentos ocorridos durante as tentativas de atravessar o Canal da Mancha.




Não era possível tomar banho nem lavar roupas no campo. As pessoas jogavam as roupas sujas fora, que eram substituídas por roupas limpas disponibilizadas através de doações. Pilhas de tecidos espalhados por toda a parte faziam parte dessa paisagem de desolação. Reprodução: acervo pessoal
A explosão populacional deu origem à uma “cidade”, que foi se organizando de forma desordenada. Em poucos meses, pequenos restaurantes, barbearias e locais para cultos religiosos foram surgindo por iniciativa dos imigrantes e refugiados. Uma biblioteca, uma escola de artes, um centro de apoio jurídico, um posto de Médicos sem Fronteiras, entre outras estruturas, foram criadas com o apoio de associações e voluntários.
É nesse contexto que a Escola Laica do Caminho das Dunas foi criada em meados de julho de 2015, a partir da iniciativa de um refugiado nigeriano, Zimako Jones, que reuniu em torno de seu projeto professores voluntários e associações que passaram a doar tempo, energia, materiais escolares e de construção, livros…
A escola começou a funcionar numa pequena tenda, coberta com plásticos brancos, às margens do Caminho das Dunas. Por isso o nome da escola. E laica, pois é um princípio fundamental acolher pessoas de todos os sexos, idades, origens, crenças e percursos. Em outubro de 2015, para atender o número cada vez maior de famílias que chegavam com seus filhos e os menores que viajavam desacompanhados, Zimako decidiu que a escola tinha ficado pequena demais, e que havia chegado o momento de criar uma escola para as crianças também. Mas vocês terão que aguardar a próxima coluna para saber mais sobre essa experiência pedagógica (e principalmente, humana). 😉
Antes de concluir, gostaria de destacar que os esforços realizados pelos governos nos últimos trinta anos para frear os fluxos migratórios na região têm se mostrado infrutíferos. Muros, cercas e barricadas não impedem imigrantes e refugiados de fazer a travessia do Canal da Mancha.
As travessias em pequenas embarcações precárias não param de aumentar. A exemplo do que acontece no Mar Mediterrâneo há mais de uma década, o Mar do Norte tem se tornado uma etapa arriscada do percurso em direção à Inglaterra, colocando em risco a vida de milhares de pessoas.

Fonte: GOV.UK
Para ir mais além:
>>Years and Years: A série distópica de seis episódios difundida pela BBC em 2019, acompanha uma família inglesa durante 15 anos, discutindo temas atuais como xenofobia, crise econômica, aquecimento global e transumanismo, entre outros. Uma das tramas narra a história de um refugiado que faz a arriscada travessia do Canal da Mancha a bordo de um barco inflável. (Indicado para professores e maiores de 18 anos)
>>Refugiados, a última fronteira. Kate Evans. Editora Darkside, 2018. A quadrinista, voluntária no campo de Calais, criou uma história em quadrinhos narrando o cotidiano dos moradores da extinta “Jungle”.








