Tecnologia avança nas salas de aula, mas especialistas alertam: sem princípios éticos, escuta de professores e estudantes e políticas responsáveis, a inteligência artificial pode ampliar desigualdades e fragilizar a aprendizagem.
Enquanto professores e estudantes passam a conviver, de forma cada vez mais intensa, com plataformas e aplicativos baseados em inteligência artificial, cresce também a preocupação com como essas tecnologias estão sendo incorporadas aos sistemas educacionais. É nesse contexto que surge o Relatório HP Futures 2025, uma iniciativa liderada pela HP em parceria com o Global Learning Council e a T4 Education, que reúne as contribuições de 100 especialistas globais em Educação, tecnologia e políticas públicas.
O documento funciona como um verdadeiro “freio de arrumação”: reconhece o enorme potencial da IA para apoiar o ensino e a aprendizagem, mas alerta que sua adoção precisa ocorrer dentro de parâmetros éticos, pedagógicos e sociais claros, sob risco de aprofundar desigualdades, fragilizar processos formativos e sobrecarregar educadores.

Um diagnóstico global, com múltiplas vozes
O relatório é resultado de três conselhos HP Futures, realizados ao longo de 2025, que reuniram professores da Educação Básica e do Ensino Superior, formuladores de políticas públicas, acadêmicos, líderes de organizações da sociedade civil e empreendedores de EdTechs. Os participantes representaram uma distribuição equitativa de regiões do mundo, gêneros e trajetórias profissionais, o que permitiu uma leitura ampla e plural dos desafios da IA na Educação.
Além das discussões qualitativas em mesas-redondas e deliberações individuais, o estudo foi complementado por uma pesquisa com 2860 estudantes de 21 países, que investigou como os jovens utilizam a IA e quais são suas percepções sobre o futuro dessa tecnologia na escola.
Os dados revelam uma ambivalência importante:
- Mais de 60% dos estudantes afirmam usar IA diariamente para pesquisas e atividades escolares;
- Ao mesmo tempo, 71% defendem limites claros para o uso da IA na Educação, demonstrando consciência dos riscos associados ao uso indiscriminado dessas ferramentas.
Adoção acelerada, riscos ampliados
O HP Futures 2025 parte do reconhecimento de que a IA já está presente no cotidiano escolar — do planejamento de aulas à correção de atividades e ao apoio à aprendizagem personalizada. Em experiências-piloto relatadas por educadores, ferramentas baseadas em IA chegaram a reduzir em até 60% a carga de trabalho relacionada a planejamento e avaliação, liberando tempo para interações pedagógicas de maior valor.
No entanto, o relatório enfatiza que essa aceleração traz riscos relevantes, que precisam ser considerados desde a formulação de políticas até o uso cotidiano em sala de aula. Entre os principais desafios identificados estão:
- Riscos pedagógicos, como a perda de “fricção” no aprendizado, a atrofia cognitiva e a dependência excessiva de respostas prontas, que podem enfraquecer o pensamento crítico e a capacidade de resolver problemas de forma autônoma.
- Riscos éticos, relacionados à falta de transparência dos algoritmos, ao viés embutido em modelos treinados majoritariamente em contextos ocidentais e ricos (os chamados contextos WEIRD) e ao uso indevido de dados estudantis.
- Riscos tecnológicos e institucionais, como políticas públicas obsoletas frente à rápida evolução dos modelos de IA e a crescente dependência de grandes fornecedores privados.
- Riscos sociais, associados à desigualdade digital, à falta de conectividade e às barreiras linguísticas, que podem excluir escolas rurais e populações historicamente marginalizadas.
- Riscos psicológicos, incluindo a criação de vínculos afetivos com chatbots e assistentes virtuais, potencializando isolamento social e impactos na saúde mental de crianças e adolescentes.
Ouvir professores e estudantes é condição de eficácia
Um dos alertas centrais do relatório diz respeito à implementação verticalizada da IA, feita “de cima para baixo”, sem a escuta efetiva de professores e estudantes. Segundo os especialistas, políticas impostas sem diálogo tendem a gerar resistência, uso inadequado das ferramentas e resultados pedagógicos frágeis.
Mayank Dhingra, diretor global de negócios e estratégia educacional da HP e coordenador do projeto, reforça que a IA só cumpre seu papel quando apoia o trabalho docente, e não quando o substitui ou o sobrecarrega. Ele destaca a importância de monitorar indicadores como bem-estar dos professores, carga de trabalho e resultados de aprendizagem, ajustando rapidamente as ferramentas quando necessário — e não apenas em ciclos anuais.
O relatório também chama atenção para contextos de baixa conectividade e sugere soluções pragmáticas, como o uso de bots via SMS ou WhatsApp, além da criação de conselhos de educadores e gabinetes estudantis com reuniões periódicas, atas públicas e planos de ação, garantindo compromisso institucional e transparência.
Recomendações: princípios antes das ferramentas
A principal orientação do HP Futures 2025 é clara: a IA deve ser incorporada à Educação de forma responsável, equitativa e orientada por princípios, com foco na preparação dos estudantes para o futuro do trabalho e da cidadania.
Entre as recomendações centrais estão:
- Garantir acesso justo à IA evitando que a tecnologia amplie desigualdades educacionais e assegurando um patamar mínimo de acesso a serviços baseados em grandes modelos de linguagem para todas as escolas.
- Adotar uma abordagem “princípios e políticas primeiro, ferramentas depois”, definindo previamente objetivos educacionais, parâmetros éticos e critérios pedagógicos.
- Incluir estudantes na governança da IA reconhecendo que suas experiências e percepções são fundamentais para uma adoção realista e sustentável.
- Revisar currículos priorizando habilidades analíticas, criativas, éticas e humanas, com maior ênfase em filosofia, história, ética e resolução interdisciplinar de problemas.
- Manter desafios cognitivos intencionais evitando a automação excessiva do pensamento e estimulando o uso crítico da IA.
- Investir fortemente na formação de gestores e educadores com programas contínuos de letramento digital e em IA, que reposicionem o professor como mediador, mentor e desenvolvedor de competências.
Boas práticas já em curso
O relatório também destaca experiências concretas que mostram que é possível integrar IA à Educação de forma crítica e responsável. Entre os exemplos estão iniciativas no Japão, França, Colômbia, Itália, Estados Unidos e Brasil. No caso brasileiro, a Bioma Educação se destaca pelo uso de portfólios reflexivos apoiados por IA, que estimulam a metacognição, a autoavaliação e uma relação consciente com a tecnologia.
Essas experiências reforçam a tese central do HP Futures 2025: a questão não é se a IA estará presente na Educação, mas como ela será integrada. Sem princípios claros, escuta ativa e políticas dinâmicas, o risco é substituir problemas antigos por novos — agora mediado por algoritmos. Com intencionalidade pedagógica e responsabilidade social, no entanto, a IA pode se tornar uma aliada poderosa para fortalecer o trabalho docente e ampliar oportunidades de aprendizagem.








