Descubra por que esse tipo de produção tem conquistado cada vez mais público.
Se antes nós dependíamos da TV Aberta e do interesse das emissoras em comprar os direitos das obras para acompanhar um anime – como são chamadas as animações japonesas – hoje, nós temos a internet e as plataformas de streaming investindo na exibição e na produção de conteúdos originais para acompanhar o crescimento dessa audiência. Como aconteceu recentemente com a adaptação em live-action do anime One Piece, da Netflix, que estreou com 18,5 milhões de visualizações em 46 países, totalizando 140 milhões de horas assistidas em sua primeira semana.
Segundo dados da Parrot Analytics a demanda global por conteúdo de anime cresceu 118% nos últimos dois anos, se tornando um dos gêneros de conteúdo que mais cresceu durante a pandemia. No top 10 dos países que mais consomem animes estão Estados Unidos, Filipinas, França, México, Brasil, Coréia do Sul, Taiwan, Tailândia, Canadá e Chile.
Esse “boom” é um prato cheio para os entusiastas da cultura japonesa, mas faz muitos questionarem: O que torna esse tipo de produção interessante?

Eu, que vivi a primeira febre dos animes lá nos anos 90 – quando Os Cavaleiros do Zodíaco e Sailor Moon chegaram ao Brasil graças a extinta Rede Manchete – e continuo acompanhando as produções orientais ainda hoje, vou contar para vocês o que fazem essas obras terem esse impacto cultural e estarem presente em muitas referências e inspirações da cultura pop ainda hoje.
Em primeiro lugar é importante entender que diferente dos desenhos animados tradicionais, que normalmente são voltados apenas para o público infantil e tem classificação livre, os animes possuem uma imensa variedade de temas e gêneros, como ação, aventura, comédia, drama, fantasia, romance, ficção científica, recortes do dia a dia, esportes, sobrenatural, suspense, entre outros, voltados para públicos-alvo específicos.
Cada anime tem a sua demografia, que equivale a uma classificação indicativa, com nichos que indicam para qual faixa etária determinada produção é indicada. Conheça as principais delas:
Kodomo

Kodomo quer dizer literalmente criança, por isso esse gênero tem enredos simples e de fácil compreensão voltado para o público entre 4 e 10 anos. Normalmente, as histórias são engraçadas e trazem lições de moral e ensinamentos como a valorização da família e a importância da amizade. Alguns exemplos são Hamtaro, Meu Amigo Totoro e Pokémon – que também virou febre aqui no Brasil nos anos 2000. (O filme do Pokémon inclusive foi sucesso de bilheteria e é a minha primeira memória de ter chorado no cinema quando o Ash vira pedra).
Shounen

Shounen significa garoto e é uma das classificações mais populares dos animes, com obras voltadas para o público entre 12 e 18 anos, trazendo histórias que focam no desenvolvimento e na jornada do herói, com muita ação, luta e aventura, como Os Cavaleiros do Zodíaco, Naruto, Dragon Ball, My Hero Academia, YuYu Hakusho e One Piece.
Shoujo

Já shoujo significa garota e traz histórias com protagonistas femininas focadas em dramas, romances e ritos de passagem que marcam o desenvolvimento da mulher. Entre os subgêneros mais conhecidos estão os animes de garotas mágicas como Sailor Moon e Sakura Card Captors.
Seinen

Voltado para o público adulto masculino, os animes seinen atendem a faixa etária entre os 20 e 40 anos, abordando temas complexos ou mais “pesados” que exigem uma maturidade emocional. Como exemplos temos Berserk, Cowboy Bebop, One Punch Man, Erased, Ghost in the Shell, Tokyo Ghoul e Akira.
Josei
Os animes josei são direcionados para mulheres adultas e tendem a amadurecer os temas apresentados nas obras shoujo, trazendo questões do cotidiano de forma mais realista. Alguns exemplos são Usagi Drop, Chihayafuru, Nodame Cantabile, Paradise Kiss e Natsuyuki Rendezvous.

Essa ramificação permite a criação de histórias para todos os públicos e, apesar do estilo único com olhos grandes e personagens expressivos demostrando emoções ou sentimentos de maneira exagerada, os animes contam histórias simples que têm seus enredos permeados por temas complexos e sensíveis como aceitação, superação, preconceitos, conflitos, bullying e vários problemas do nosso dia a dia, o que permite – assim como em qualquer outra forma de arte – se emocionar e aprender com cada personagem.

Além disso, os animes nos possibilitam conhecer um pouco mais sobre a cultura japonesa, que nunca deixa de ser alvo de fascínio por preservar tradições e valores milenares ao mesmo tempo em que evolui exponencialmente de braços dados com a tecnologia.
Confira algumas produções para conhecer as animações japonesas:
A viagem de Chihiro

É impossível começar essa lista sem falar das obras do diretor Hayao Miyazaki cofundador do Studio Ghibli. Miyazaki é considerado um ícone da animação japonesa e é responsável por várias produções que conquistaram até mesmo quem não é fã desse estilo.
A viagem de Chihiro, que ganhou o Urso de Ouro e o Oscar de Melhor Animação em 2003, é uma de suas animações mais conhecidas e abriu as portas para que outras produções japonesas começassem a ter mais reconhecimento e atenção do público e dos críticos internacionais.
A história acompanha uma garota que está de mudança junto aos seus pais, mas que após pegarem um atalho no caminho, acabam indo parar em um mundo mágico, repleto de criaturas sobrenaturais inspiradas na mitologia japonesa. Enquanto seus pais são transformados em animais, Chihiro precisa descobrir como salvá-los e voltar para o seu mundo.
O filme é uma jornada sobre amadurecimento e autoconhecimento: toda vez que a protagonista é colocada em teste ela precisa crescer e ganhar confiança em si mesma, algo que todos nós já passamos na transição para a vida adulta.

Além da trilha sonora e arte impecável, com cenas de contemplação e momentos que levantam reflexões e trazem críticas ao mundo moderno, a guerra ou a destruição do meio ambiente, o Studio Ghibli apresenta meninas reais – que realmente aparentam a idade que tem – e Miyazaki é conhecido por criar protagonistas femininas fortes, corajosas, autossuficientes e que não pensam duas vezes para lutar pelo que acreditam. Essa visão é um refresco diante da maneira como as protagonistas femininas são retratadas nas animações e narrativas ocidentais, e mais um motivo para conferir suas obras.
Se gostar de A Viagem de Chihiro, aproveite para conhecer outras animações do Studio Ghibli que estão disponíveis no serviço de streaming da Netflix, como Princesa Mononoke, O Castelo Animado, Vidas ao Vento, Meu amigo Totoro, O mundo dos pequeninos, Nausicaä do Vale do Vento, entre outros.
Your Name (Kimi no na wa)

Lançado em 2016, Your Name é um anime de encher os olhos, que vale a pena assistir não só pela história cativante, mas também para conferir o nível de detalhamento que uma animação consegue entregar.
A obra, criada por Makoto Shinkai, narra a história de dois personagens que tem a vida entrelaçada de forma inusitada, quando acabam acordando no corpo um do outro. A partir daí, Mitshuha, uma garota do ensino médio, entediada por morar num vilarejo rural e Taki, um garoto que tem uma rotina agitada em Tóquio, começam um relacionamento incomum pontuado por situações e sentimentos novos.
Distantes fisicamente e sem se conhecer, quanto mais os personagens tentam se aproximar, mais descobrem como na vida todas as coisas estão interligadas, em uma história que fala sobre destino e esperança.
Conhecido pela sua qualidade técnica e visuais hipnotizantes, vale a pena ficar de olho em outras obras de Makoto Shinkai, como “Suzume”, que estreou este ano e conta a história de uma jovem que encontra uma porta mágica em meio a ruínas de sua pequena cidade. Ao tentar passar por ela, Suzume percebe que outros portais também se abriram por todo país causando destruição. A obra faz um paralelo aos desastres naturais que abalaram o Japão e traz uma metáfora de que precisamos curar feridas que ainda estão abertas.
A Voz do Silêncio (Koe no Katachi)

A Voz do Silêncio é uma obra sensível que aborda temas delicados, como bullying, traumas, preconceitos, inclusão, transtornos mentais, violência escolar e amadurecimento.
O anime conta a história de Nishimiya Shoko uma menina que sofre bullying por ser deficiente auditiva. Transferida para uma nova escola, ela passa a ser maltratada pelos colegas, principalmente por Ishida Shouya. Quando os ataques ficam mais agressivos e a situação fica insustentável, ela muda de escola novamente, e a partir daí é seu bully, Ishida, que fica sem amigos e começa a ser humilhado pelos colegas.
A obra acompanha os personagens na infância e na adolescência, quando Ishida – depois de também sofrer violência escolar – tenta se redimir com Shoko, mostrando os impactos destas situações na saúde mental e emocional dos jovens.
O bullying é reconhecido como um problema social no Japão, por isso, ao mostrar as consequências, tanto para quem é vítima como para quem realiza esses ataques, o anime nos convida a refletir sobre os impactos do preconceito e o que nós como sociedade podemos fazer para que esse tipo de violência não se repita, principalmente dentro do ambiente escolar.
Violet Evergarden

Violet Evergarden é um verdadeiro exercício de empatia e existencialismo. A protagonista é uma garota orfã, que foi encontrada pelo exército e presenteada ao major Gilbert para ser treinada como uma arma. A jovem soldado luta e sobrevive a situações extremas para seguir as ordens do major, o único que enxerga humanidade em sua pessoa.
Violet começa a trabalhar como Autômata de Auto Memória, um serviço que consiste em escrever cartas transformando em palavras emoções difíceis de expressar. Como ela mesma ainda não consegue compreender emoções e se mostra fria e distante, a cada episódio acompanhamos a sua jornada conhecendo a vivência de outras pessoas e um pouco mais sobre si mesma, a fim de entender o que significa ser livre e amar.
Fullmetal Alchemist Brotherhood

Tendo conquistado uma pontuação de 9,1 no IMDb (Internet Movie Database), Fullmetal Alchemist: Brotherhood é considerado uma obra-prima entre os fãs de anime.
Com uma história muito bem desenvolvida Fullmetal combina ação, aventura, personagens complexos, política intrigante e pensamento filosófico acessível, ao apresentar um universo onde a alquimia deu certo.
A história do anime acompanha Edward e Alphonse Elric, dois jovens que ao tentarem trazer a sua mãe de volta à vida, cometeram o maior tabu da alquimia: a transmutação humana. Ed perdeu um braço e uma perna e Alphonse todo o seu corpo, agora com a alma de Alphonse ligada a uma armadura os irmãos partem para descobrir a Pedra Filosofal – o principal segredo da alquimia.
Nesta jornada para recuperar o que perderam, os irmãos vão enfrentar desafios e aprender duras lições inclusive a de que tudo, assim como na alquimia, é uma troca equivalente.

Eu poderia continuar essa lista indicando dezenas de animes, mas acredito que estes são um bom ponto de partida pra entenderem como as animações japonesas conseguem ser inspiradoras. Eu, que cresci com essas histórias e aprendi muito sobre acreditar em mim mesma, não desistir dos meus sonhos, lutar pelo que acredito e dar atenção aos detalhes e sutilezas da vida, acredito que revisitar os animes adulta é como ler um livro em duas fases diferentes da vida e ainda assim conseguir diferentes impressões e interpretações.
Fica o convite para mergulharem na cultura japonesa e em seu mundo fantástico das animações.








