Entenda como a Coreia do Sul transformou o país investindo em cultura e educação. Conheça mais a cultura coreana.
Você sabe o que significa ser dorameira ou dorameiro? Esse é o jeitinho brasileiro de se referir aos amantes das séries de dramas asiáticos, os doramas, que foram alçados ao sucesso pelos k-dramas (os dramas coreanos) e que junto ao k-pop (o pop coreano) se transformaram em uma febre mundial.

Até um tempo atrás essas palavras poderiam ser desconhecidas do lado de cá do globo, mas o amor pela cultura coreana já está tão naturalizado por aqui que, em 2023, a Academia Brasileira de Letras incluiu a palavra “dorama” no dicionário da língua brasileira.
Mas tudo isso não aconteceu por acaso, esse fenômeno faz parte da “Hallyu” ou onda coreana, que teve início lá nos anos 1990 e foi responsável por começar a disseminar as produções culturais do país, a fim de levar para fora o nome e o prestígio da Coreia do Sul e com isso atrair resultados econômicos.
Coreia do Sul: do streaming ao Oscar

Para que essa indústria cultural pudesse prosperar, o governo sul coreano investiu na criação de leis de incentivo para a criação e divulgação de filmes, músicas, programação televisiva, videogames, gastronomia entre outros artefatos culturais. Os conteúdos produzidos começaram a ser consumidos primeiro pelo leste e sudeste asiático, no início dos anos 2000, e atingiram o mercado global em 2010 impulsionados pelas redes sociais.
E os exemplos de sucesso que esse incentivo à cultura alcançou não são poucos! Em 2020, o grupo de k-pop BTS se tornou o “primeiro artista coreano” a alcançar o 1º lugar na Billboard, o topo da parada de músicas dos Estados Unidos e foi eleito artista do ano pela revista Time. No mesmo ano, Parasita, de Bong Joon-ho, fez história ao se tornar o primeiro filme em língua não inglesa a ganhar o Oscar de melhor filme e, em 2021, a série sul-coreana Round 6 (Squid Game) conquistou o título de mais assistida da história da Netflix.
A plataforma de streaming inclusive se baseou nesse resultado e de outros k-dramas como “Uma Advogada Extraordinária”, “Vicenzo”, “Pousando no amor”, “Tudo bem não ser normal”, entre outras e anunciou em 2023 um investimento de 2,5 bilhões de dólares em entretenimento sul-coreano para os quatro anos seguintes.

Em entrevista para a Agência Brasil, Daniela Mazur, pesquisadora associada ao MidiÁsia – grupo de pesquisa em mídia e cultura asiática contemporânea – afirma que o que torna a cultura pop coreana tão atrativa para o mundo é que ela começa a pensar as estruturas culturais para além do “consumo cultural estruturado através do imperialismo estadunidense”, mostrando a diversidade dos fluxos midiáticos globais.
Coreia do Sul: impacto cultural dos doramas e do k-pop
Esse crescente interesse pela cultura pop da Coreia do Sul também teve um impacto direto na relevância do idioma e segundo o Duolingo Language Report de 2023 – um relatório anual sobre o aprendizado de idiomas no mundo – o coreano está no Top 10 de línguas mais estudadas em alguns dos maiores países do mundo, como o Brasil, Estados Unidos e Índia, tendo ultrapassado o italiano, conquistando o 6º lugar.
Toda essa movimentação em torno da cultura sul-coreana também acaba se traduzindo em exportações como de roupas, cosméticos, eletrônicos e no aquecimento do turismo.
Hoje as marcas de produtos de beleza coreanos estão na ponta da língua das brasileiras, o modo como se vestem se tornou uma referência para quem está em busca de um estilo minimalista, frases e palavras coreanas começam a fazer parte do vocabulário de quem consome essa cultura e o interesse por viagens para o país, pela gastronomia local ou por influenciadores e personalidades sul coreanas segue crescendo para acompanhar o ritmo deste movimento cultural.
Basta abrir qualquer rede social e é possível encontrar inúmeros conteúdos relacionados a cultura coreana, mostrando como o país soube tirar proveito da globalização, da internet, dos serviços de streaming, das mídias digitais e das redes sociais, para intensificar as trocas de informações culturais entre os países.
Vale lembrar que o Brasil é visto como um mercado importante para a Coreia do Sul, contando desde 2013 com um Centro Cultural Coreano em São Paulo, que foi inaugurado com o intuito de aproximar a cultura coreana dos brasileiros, criando oportunidades para que vivenciem e experimentem essa cultura por meio de exposições, performances, festivais e cursos.
Coreia do Sul e a aposta em educação
Ainda assim, essa não foi a única aposta do país em busca de ascensão global. Na década de 60, a Coreia do Sul tinha tudo para dar errado: devastada pela Guerra da Coreia, o país tinha inúmeros obstáculos para enfrentar e foi o investimento maciço em educação que deu uma guinada em sua trajetória, evidenciando a relação entre crescimento econômico e desenvolvimento humano.
Hoje, a Coreia do Sul faz parte dos Tigres Asiáticos – conjunto de territórios reconhecidos pelo seu rápido crescimento econômico – mostrando que conseguiu consolidar a sua economia, aliando melhorias sociais, como o aumento da escolaridade e da renda.

De acordo com o MOE – Ministry of Education (Ministério da Educação da Coreia do Sul), o governo coreano tem aumentado gradualmente os seus gastos com educação nos últimos 40 anos e, em 2020, o governo gastou 75,7 bilhões de won, quatro vezes os 19,2 bilhões de won gastos em 2000. Durante estes 20 anos, a Coreia destinou anualmente 15-20% do seu orçamento total para a educação, o mais elevado entre os países da OCDE em relação ao seu PIB.
Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), foi justamente o rigor na formação e investimento em educação que deram à Coreia do Sul o título de potência global.
Por isso, apesar de existirem diversos fatores que podem influenciar o desenvolvimento de um país, existe um consenso entre especialistas de que a forma como a Coreia do Sul definiu a educação como prioridade e traduziu essa mentalidade em tudo que era realizado no país, foi essencial para criar o cenário que vemos hoje.
Na Coreia do Sul, todas as escolas, públicas e privadas, são de tempo integral e por lá os professores são vistos como essenciais para esse projeto nacional. Por serem valorizados socialmente, são igualmente valorizados financeiramente, sendo enaltecidos e vistos como figuras que ajudam no desenvolvimento do país.

Segundo o Índice para uma Vida Melhor da OCDE, o país tem um desempenho acima da média nos quesitos: educação, saúde e engajamento cívico. Dentre a população sul-coreana, 88% dos adultos com idades entre 25 e 64 anos concluíram o ensino médio e os estudantes se destacam em leitura, matemática e ciências, com resultados acima da média da OCDE no PISA – Programa Internacional de Avaliação de Estudantes.
No TEDx Talks, Percursos da educação na Coreia do Sul, Soleiman Dias, PhD em Relações Internacionais e Diretor de Admissões da Chadwick International em Songdo, na Coreia do Sul, lista alguns fatores que fizeram a educação sul-coreana dar certo, como por exemplo:
- Bom planejamento educacional.
- Atenção à educação de base, bem como ao Ensino Superior e à Pesquisa Científica.
- Suporte necessário para a remuneração dos educadores e melhoria do ensino.
- Forte participação familiar no processo educativo.
- Escolas de qualidade com estrutura e pessoal qualificado.
Mas como nem tudo são flores, é preciso pontuar que essa febre educacional também trouxe diferentes desafios que a Coreia do Sul precisa enfrentar hoje, entre eles a cobrança excessiva sobre seus estudantes que, além da jornada de estudos formal das 8h às 16h30, continuam estudando nas bibliotecas ou em cursos particulares até tarde da noite, alimentados pela competição acirrada e pelas expectativas das famílias e do país que recaem sobre eles.
Contudo, como esse é um tema para outro artigo, fica aqui o exemplo da Coreia do Sul, para que possamos, sem ser levianos, nos inspirar em resultados positivos e – tendo plena consciência das diferenças culturais, históricas, econômicas e políticas entre o Brasil e a Coreia – incorporar dentro da nossa realidade uma mentalidade que valoriza e enaltece a educação, assim como a cultura local e nossas produções culturais, acreditando que, de fato, basta uma geração para promovermos uma mudança real na sociedade.
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