Uma reflexão sobre o uso de inteligências artificiais como assistentes de criatividade e inovação.
Eu faço parte de uma geração (alô, Millenials!) que cresceu em um período de intensa transformação digital e rápida evolução tecnológica.
Essa transição ocorrida entre o final dos anos 1990 e a primeira década dos anos 2000 trouxe mudanças significativas em diversas áreas da minha vida, afetando desde coisas triviais como buscar e consumir informações até comportamentais, como a comunicação, a vivência em sociedade e até mesmo a forma como me relaciono com o trabalho.
Na era digital atual, percebo que muitas pessoas observam a inteligência artificial (IA) como uma estrela do rock, com todos os holofotes direcionados para si, à medida em que vai transformando tudo ao seu redor durante a sua performance.
Da automação de fábricas até a personalização das nossas experiências on-line, da tradução instantânea da informação para milhares de idiomas em tempo real até a composição de músicas dos mais diferentes gêneros com um simples prompt de comando, a IA abre portas e possibilidades que, antes, nem sabíamos que existiam – e muito menos que precisávamos delas.
A pergunta que fica no ar é: até que ponto inovações tecnológicas beneficiam pessoas em vez de fomentar a possibilidade de substituí-las?
No design de games, por exemplo, o uso de IA aliada a tecnologias de fotogrametria possibilita às grandes produtoras criarem mundos supermassivos e personagens que beiram à realidade, reagindo ao que fazemos em tempo real durante a narrativa do game e adaptando-se aos passos e ações dos jogadores. Isso sem contar a aplicação de técnicas cinematográficas que tornam a jogabilidade mais empolgante e imersiva.
Por outro lado, o uso de tecnologias inovadoras para automatizar o processo de dublagem de personagens com o uso indiscriminado da IA generativa tem gerado controvérsias entre os profissionais dessa e de outras áreas criativas.
No caso específico do mercado de games, estamos falando de uma indústria que movimentou US$200 bilhões no último ano em todo o planeta, sendo US$13 bi somente no Brasil.
O Sindicato dos Atores de Hollywood (SAG-AFTRA) recentemente chamou a atenção da web para o uso indiscriminado de tecnologias impulsionadas por inteligência artificial em seu segmento.
Profissionais da categoria declararam publicamente uma greve geral e estão batalhando para que as principais desenvolvedoras de games do mercado americano possam prover mais proteção para quem trabalha com captura de movimento e dublagem de jogos eletrônicos.
Também é o caso de desenvolvedores, revisores e redatores de texto, artistas conceituais, dentre outras profissões – todas legitimamente contrárias ao uso desenfreado da IA como substituta e que exigem garantias de que essa revolução tecnológica não vá deixá-los de lado.
Existe uma preocupação legítima de que a IA, se usada em massa, possa reduzir tanto salários quanto as oportunidades de emprego para profissionais de diversas áreas ligadas à tecnologia consideradas “plenamente operacionais”.

Inteligência versus criatividade
A definição literal de inteligência é “a capacidade de resolver problemas, e de se adaptar às novas configurações linguísticas, sociais e educativas”.
Jean Piaget afirmava que a inteligência ilumina, então, todas as funções cognitivas até a conclusão de uma lógica. A criatividade, por sua vez, pode ser definida como o motor potencial de sensibilidade e de leitura que inclui as vivências do sensível que se abre do sensorial ao intelectual. Esse potencial aprofunda o raciocínio, ligando-o ao intuitivo e permitindo a vivência do próprio ser da sua ação criativa (MOREIRA, 2016).
Já a inteligência artificial (IA) é uma mistura curiosa quando se trata da relação entre inteligência e criatividade. Por um lado, ela é como aquele amigo que sempre tem ótimas ideias e nos ajuda a pensar “fora da caixa” (quando bem provocada). Mas, como toda amizade, tem que ter equilíbrio. Particularmente, penso que o fator humano na inovação envolve uma série de elementos subjetivos, como empatia, contexto cultural e insights pessoais – todos impreterivelmente difíceis de replicar em algoritmos de IA.
Por mais avançados que os algoritmos de IA estejam se tornando, eles ainda carecem da capacidade de entender completamente o contexto e a subjetividade que muitas vezes impulsionam a inovação.
Enquanto a IA pode processar grandes volumes de dados e identificar padrões quase que instantaneamente, ela carece da intuição, da emoção e experiência pessoal que muitas vezes impulsionam a inovação criativa.
Em um mundo em constante mudança por meios digitais disruptivos acontecendo a toda velocidade, a criatividade se tornou uma das habilidades humanas mais essenciais. A criatividade humana é algo que ainda desafia a compreensão completa da ciência e da tecnologia, entretanto, a ciência também mostra que ser criativo pode potencializar outras competências importantes, como a adaptabilidade, a capacidade de resolver problemas, a inovação e até mesmo a liderança.

Tenho explorado e usado várias ferramentas de IA Generativa, e embora o potencial delas seja enorme, elas ainda têm limitações importantes quando comparadas à criatividade humana:
- Primeiro: elas não têm um modelo mental completo do mundo real, o que é essencial para fazer associações profundas e gerar insights criativos e verdadeiramente originais;
- Segundo: embora possam explorar um vasto conjunto de ideias, ainda não conseguem identificar quais dessas ideias realmente têm valor, relevância ou significado. Falta a elas discernimento;
- Por fim: IAs generativas não possuem vivências, experiências, habilidades tácitas ou intuição desenvolvida ao longo de uma carreira, que são necessárias para alcançar níveis elevados de expertise criativa em áreas específicas.
A criatividade nos permite encontrar soluções para problemas de maneiras não convencionais, comunicar ideias de forma impactante e até reinventar processos e modelos de negócios. Em resumo, ela é a chave para navegarmos com sucesso nesse cenário em rápida evolução.
Se começarmos a depender demais da IA para “exercitarmos a criatividade”, corremos o risco de ficar presos a ideias que os algoritmos já conhecem, perdendo aquela centelha única que só os humanos têm. Nós somos capazes de fazer conexões abstratas e repensar padrões óbvios (ainda que, por vezes, carregados com nossos vieses), habilidades que são fundamentais para a inovação disruptiva (desculpa aí, Gemini!).
Para evitar cair nessa armadilha midiática de que “a IA vai roubar todos os empregos antes mesmo do que você imagina”, precisamos tratar a IA como uma parceira de equipe e não como a estrela principal do show. Ela deve ser um complemento… aquela “ajudante” que faz tudo fluir melhor, ou seja, deve ser vista como uma ferramenta que pode amplificar o potencial humano.








