As Conferências das Partes (COPs) são momentos culminantes de um ano inteiro de negociações, articulações e reuniões técnicas. O que acontece nas duas semanas oficiais é apenas a ponta do iceberg de discussões que se estendem por meses, envolvendo países, organizações, empresas e sociedade civil.
O Brasil, desde a criação da Convenção do Clima, em 1992, participa ativamente das COPs, exercendo um papel reconhecido de conciliador e mediador, capaz de dialogar com países desenvolvidos e em desenvolvimento, por sua experiência diplomática e relevância ambiental e econômica.
Historicamente, o Brasil tem conciliado suas responsabilidades ambientais com a importância econômica do agronegócio e da matriz energética. Esse equilíbrio é fundamental, pois o país não pode simplesmente abandonar fontes como o petróleo, que fizeram parte de sua trajetória de crescimento, mas precisa construir uma transição energética gradual e responsável.
O tema da segurança energética permanece central: embora energias como solar e eólica cresçam, a intermitência dessas fontes exige atenção para garantir estabilidade no fornecimento.
Ao mesmo tempo, o país enfrenta desafios significativos. O desmatamento e as queimadas continuam como pontos sensíveis: mesmo com a redução do desmatamento em cerca de 20% em um ano recente, as queimadas aumentaram mais de 80%, em parte agravadas por eventos extremos como a pior seca em quase 50 anos. Esses fatores deixam o Brasil vulnerável a cobranças internacionais, especialmente por ser o anfitrião da COP30, em Belém.
A COP30 será a primeira conferência climática sediada na Amazônia, o que coloca o Brasil no centro das atenções globais.
Isso representa uma oportunidade única de mostrar resultados na redução do desmatamento, no incentivo a um agronegócio sustentável e na implementação de novas tecnologias para monitoramento ambiental, como o uso de drones e sistemas de inteligência artificial, que podem ajudar a proteger a floresta e os biomas.
Mas também traz o desafio de apresentar avanços concretos, pois a comunidade internacional cobrará coerência entre discurso e prática.
Protocolo de Quioto e a proposta brasileira do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL)
Um dos momentos de maior destaque para o Brasil nas COPs ocorreu na COP3, em Quioto, quando foi adotado o Protocolo de Quioto (1997). O Brasil teve papel decisivo na proposta do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), que permitia a países desenvolvidos compensarem parte de suas emissões investindo em projetos de redução em países em desenvolvimento.
Essa inovação foi essencial para viabilizar financeiramente projetos de reflorestamento, eficiência energética, geração de energia limpa, entre outros, atraindo investimentos e estimulando tecnologias de baixo carbono.
O MDL trouxe bilhões de dólares em projetos para países em desenvolvimento, e o Brasil foi um dos maiores beneficiários, com centenas de projetos aprovados ao longo dos anos 2000. A proposta reforçou a imagem do Brasil como articulador criativo em soluções climáticas, equilibrando interesses de desenvolvimento e mitigação de emissões.
De Copenhague a Paris: desafios e compromissos
Na COP15, em Copenhague (2009), a expectativa global era alta para estabelecer um novo acordo climático, mas as negociações foram marcadas por tensões entre países ricos e em desenvolvimento, sem resultados concretos.
Ainda assim, o Brasil apresentou voluntariamente metas de redução de emissões — sinalizando disposição em avançar mesmo sem obrigações formais — e comprometeu-se a reduzir entre 36,1% e 38,9% de suas emissões projetadas até 2020.
O Acordo de Paris, aprovado na COP21 (2015), representou um marco importante: estabeleceu que todos os países, independentemente do nível de desenvolvimento, apresentariam Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) com metas próprias de redução de emissões. O Brasil foi elogiado por propor metas absolutas de redução: comprometeu-se a cortar 37% das emissões até 2025 e 43% até 2030, em relação aos níveis de 2005, além de restaurar 12 milhões de hectares de florestas e zerar o desmatamento ilegal.
Essas metas posicionaram o Brasil como um dos poucos países em desenvolvimento a apresentar compromissos absolutos, e não apenas relativos ao crescimento econômico, como muitos outros optaram.
Ponto de atenção: desmatamento como principal fonte de emissões
O ponto mais sensível para a política climática brasileira é o desmatamento, que historicamente responde por 40% a 60% das emissões nacionais.
O país registrou progressos significativos entre 2004 e 2012, quando conseguiu reduzir a taxa de desmatamento na Amazônia em mais de 80%, resultado de ações como o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), fiscalização intensificada, criação de áreas protegidas e avanços no monitoramento por satélite.
Contudo, em diferentes períodos, oscilações econômicas, pressões por expansão agropecuária e mudanças nas prioridades políticas levaram a momentos de alta no desmatamento, o que impactou a percepção internacional sobre a consistência das políticas ambientais do país.
Para que suas metas climáticas sejam atingidas, o Brasil precisa garantir redução sustentada no desmatamento e melhorar a governança fundiária e ambiental.
Financiamento climático e cooperação internacional
Outro aspecto importante na trajetória do Brasil nas COPs é sua defesa histórica de mecanismos de financiamento climático, como o Fundo Verde para o Clima, criado para apoiar países em desenvolvimento na adaptação e mitigação dos efeitos das mudanças climáticas.
O Brasil tem destacado, nas conferências, a importância de assegurar recursos suficientes e de acesso simplificado para implementar ações que conciliem conservação ambiental e desenvolvimento socioeconômico.
A cooperação internacional tem sido relevante para iniciativas como o Fundo Amazônia, criado em 2008 e apoiado principalmente por Noruega e Alemanha, com mais de R$ 3 bilhões em doações para projetos de preservação e uso sustentável da Amazônia. Instrumentos como esse mostram que políticas climáticas podem gerar benefícios mútuos para países doadores e receptores.
COP30: importância para o Brasil e para o mundo
A escolha de Belém, no Pará, para sediar a COP30, em 2025, é altamente simbólica e estratégica. Será a primeira vez que uma COP será realizada na Amazônia — maior floresta tropical do mundo e ecossistema essencial para a estabilidade climática planetária.
A realização da conferência na região amazônica oferece diversas oportunidades e traz desafios significativos:
Oportunidades
- Projeção internacional: ao sediar a COP30, o Brasil reforça sua imagem como país relevante nas discussões climáticas, tendo a chance de apresentar avanços e projetos que unam conservação, desenvolvimento sustentável e inclusão social.
- Atenção para a Amazônia: a presença de chefes de Estado, organizações multilaterais, empresas, cientistas e sociedade civil em solo amazônico chama atenção global para a importância do bioma, incentivando parcerias e investimentos.
- Potencial para novos acordos: a COP30 pode ser o momento para atualizar metas do Acordo de Paris, discutir mecanismos de financiamento climático mais efetivos e fortalecer compromissos com a redução do desmatamento.
- Economia local: a conferência deve movimentar a economia de Belém e região, gerando empregos temporários e ampliando oportunidades para setores como turismo, hotelaria e serviços.
- Educação ambiental e conscientização: a COP30 pode deixar legado educativo, ao promover atividades que sensibilizem a população brasileira e mundial sobre mudanças climáticas, conservação da biodiversidade e uso sustentável dos recursos naturais.
Desafios
- Mostrar resultados concretos: com os holofotes voltados para a Amazônia, o Brasil será cobrado internacionalmente a apresentar avanços consistentes na redução do desmatamento e no combate a crimes ambientais.
- Infraestrutura e logística: sediar um evento do porte da COP, que costuma receber dezenas de milhares de participantes, exige planejamento robusto em áreas como transporte, segurança, telecomunicações e hospedagem.
- Articulação federativa: para que a COP30 seja bem-sucedida, é essencial a cooperação entre governos federal, estaduais e municipais, além de envolvimento do setor privado e da sociedade civil.
- Equilíbrio entre desenvolvimento e conservação: durante a conferência, a pauta climática se entrelaça com questões sociais e econômicas, exigindo propostas que levem em conta as necessidades das populações locais e respeitem direitos de comunidades tradicionais.
Transição energética e agricultura de baixo carbono
Outro eixo importante na participação brasileira nas COPs e que deve ganhar força na COP30 é a transição para matrizes energéticas limpas. O Brasil já tem uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, com cerca de 80% da energia proveniente de fontes como hidrelétricas, eólicas, solares e biomassa.
Além disso, a produção de biocombustíveis como etanol e biodiesel coloca o país em posição privilegiada para desenvolver alternativas de baixo carbono para transporte. A promoção de tecnologias limpas no setor energético e a adoção de práticas sustentáveis na agricultura — como plantio direto, recuperação de pastagens e integração lavoura-pecuária-floresta — são áreas com grande potencial para contribuir com as metas climáticas e gerar crescimento econômico.
O papel dos povos indígenas e das comunidades tradicionais
Sediar a COP30 na Amazônia também oferece a oportunidade de valorizar o conhecimento e a contribuição dos povos indígenas e das comunidades tradicionais, que historicamente preservam a floresta e possuem modos de vida alinhados à conservação ambiental.
A inclusão desses grupos nos debates e decisões climáticas fortalece a governança ambiental e amplia a legitimidade das políticas de proteção da floresta, já que eles são, muitas vezes, os mais afetados pelas mudanças no uso da terra e pelas pressões econômicas sobre os recursos naturais.
O legado possível da COP30
Mais do que uma conferência, a COP30 pode representar um ponto de inflexão para o Brasil e para a governança climática global. A chance de discutir, em solo amazônico, soluções para conter o aquecimento global pode deixar um legado que vá além dos documentos oficiais:
- Avançar em pactos de cooperação internacional para proteger florestas tropicais;
- Impulsionar políticas públicas nacionais e regionais de baixo carbono;
- Contribuir para consolidar o Brasil como protagonista construtivo nas negociações climáticas.
Conclusão
A trajetória do Brasil nas COPs é marcada por momentos de liderança, como na criação do MDL e no compromisso com metas absolutas no Acordo de Paris, mas também por desafios, principalmente ligados ao controle do desmatamento.
Com a realização da COP30 em Belém, o país terá a oportunidade de reafirmar seu compromisso com a agenda climática global, mostrar resultados concretos e contribuir com soluções para um futuro mais sustentável, conciliando conservação ambiental, inclusão social e desenvolvimento econômico.
A construção desse caminho dependerá não apenas das negociações durante a COP30, mas do fortalecimento das políticas públicas ambientais, do engajamento da sociedade civil, do setor privado e do compromisso das diferentes esferas de governo com um modelo de desenvolvimento que reconheça a importância estratégica da Amazônia para o Brasil e para o mundo.








