Aos dez meses de idade, minha filha aprendeu a encaixar o cubo no seu respectivo buraco do brinquedo educativo. Foram semanas colocando o cubo na boca e dando outras utilizações para a peça até que ela fosse, finalmente, usada para o fim ao qual foi criada. Outros brinquedos também começaram a ganhar novas funções para a nenê (ao invés do imediato movimento de lamber ou colocar tudo, absolutamente tudo, na boca): acertar a bola no potinho, escalar a rampa do escorregador, se segurar na haste do gira-gira…
Os livros ainda não têm a mesma sorte, mas o caminho tem sido promissor: além do lambe-lambe das folhas, a mais nova descoberta deste brinquedo pela nenê é que a resistência do papel não é párea para as mãozinhas da menina. Fora da supervisão de um adulto, rasgar páginas de livros tem sido a nova função desses objetos – para o desespero da mãe, que já separou as bibliotecas “da mamãe e da filhinha”, depois de algumas perdas lástimáveis.
Tudo dentro da normalidade, claro. Não à toa, a recomendação de obras mais adequadas para essa faixa etária é daquelas cujo material chamamos de “cartonado” (folhas de papel cartão em alta gramatura prensadas até ganhar uma espessura grossa). Esses materiais tornam o manuseio do bebê supostamente mais fácil, dando autonomia para a criança folhear as páginas e, ao mesmo tempo, preservando o objeto frágil de papel fino.
Assim como o cubo do brinquedo educativo, a criança precisa de tempo para se habituar aos objetos, torná-los parte do seu dia a dia, se familiarizar com a sua textura, espessura, maleabilidade, cheiro e gosto, e depois partir para a compreensão da função real do objeto. E, com os livros não é diferente: dar acesso à diversidade de obras, formatos, cores e narrativas enriquece o vocabulário sensorial das crianças e as aproximam desse mágico universo que é a literatura.

Isabel Lopes Coelho publisher de Literatura na FTD Educação. É também autora da obra A representação da criança na literatura infantojuvenil (Ed. Perspectiva, 2020), fruto da sua tese de doutoramento em Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo (USP). Em 2012, recebeu o prêmio BOP – Best Children’s Publisher of the Year, concedido na Feira do Livro Infantil de Bolonha.
Coelho participa de eventos internacionais como convidada e palestrante, como o Salon du Livre et de la Presse Jeunesse (Montreuil, Fança, 2006 e 2012), o Minimondi (Parma, Itália, 2007), o I Encuentro Latinoamericano de Editores de Libros para Niños e Jóvenes (Bogotá, Colômbia, 2009), o FIL Rights Exchange Programm (Guadalajara, México, 2017), o Rendez-vous de Québec Éditions (Montréal, Canadá, 2018) e Sharjah Book Conference (Sharja, Emirados Árabes, 2019). Participou do Programme Courants du Monde (Paris, França, 2012) e foi bolsista no Fellowship da Internationale Jugendbibliothek (Munique,Alemanha,2015).
A publisher também ministra cursos e palestras sobre literatura infantil e sobre o livro ilustrado








