O mês de julho é conhecido como “Julho das Pretas“, movimento que amplia as reflexões sobre o protagonismo das mulheres negras e fortalece a luta por direitos, justiça social e bem-viver. No Brasil, o período também homenageia Tereza de Benguela, importante líder quilombola do século XVIII.
Conhecida como Rainha Tereza, ela governou o Quilombo do Quariterê (também chamado de Quilombo do Piolho), localizado no Vale do Guaporé, na região que atualmente corresponde ao estado de Mato Grosso. Sob sua liderança, o quilombo consolidou formas próprias de organização política, econômica e militar, tornando-se um símbolo da resistência negra no período colonial.
O ponto alto das celebrações acontece em 25 de julho, data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, instituído em 1992 durante o I Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas e Afro-Caribenhas, realizado em Santo Domingo, na República Dominicana. No Brasil, essa mobilização ganhou força por meio do movimento Julho das Pretas, que busca ampliar a visibilidade da agenda política das mulheres negras e fortalecer o enfrentamento ao racismo, ao sexismo e às múltiplas desigualdades.
Como nos ensina Lélia Gonzalez (1984), não há enfrentamento ao racismo sem o enfrentamento ao sexismo. Essas opressões atuam de forma articulada, produzindo impactos específicos na vida das mulheres negras.
Segundo dados da Fiocruz, as mulheres negras representam aproximadamente 28% da população brasileira. Entretanto, continuam sendo as principais vítimas das violências de gênero. De acordo com o estudo Retrato dos Feminicídios no Brasil, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 62,6% das vítimas de feminicídio entre 2021 e 2024 eram mulheres negras. Mulheres brancas representavam 36,8% dos casos, enquanto indígenas e amarelas correspondiam a 0,3% dos registros.
Esses números revelam que racismo e machismo seguem operando de forma interseccional na sociedade brasileira, produzindo desigualdades que não podem ser compreendidas isoladamente. Nesse contexto, a interseccionalidade, conceito desenvolvido pela jurista Kimberlé Crenshaw, constitui uma importante ferramenta analítica ao demonstrar como raça, gênero, classe, sexualidade, deficiência, nacionalidade e outros marcadores sociais interagem e moldam experiências distintas de opressão e privilégio.
Como mulher negra, recordo as palavras de Sojourner Truth, pronunciadas em 1851 durante a Convenção dos Direitos das Mulheres, em Ohio, nos Estados Unidos: “E eu, não sou uma mulher?”. Sua pergunta permanece atual porque denuncia a exclusão histórica das mulheres negras das categorias universais de humanidade, cidadania e direitos.
O racismo e o sexismo continuam desumanizando mulheres negras diariamente. Por isso, o mês de julho possui um profundo significado político: ele reafirma que somos merecedoras do bem-viver, da dignidade e do reconhecimento, apesar das estatísticas que insistem em revelar as desigualdades.
A sociedade brasileira foi construída e continua sendo sustentada pelo trabalho, pelo cuidado, pela resistência e pela produção intelectual das mulheres negras. Não há democracia plena sem o reconhecimento dessa contribuição.
Uma educação antirracista valoriza o legado das mulheres negras
Construir uma educação antirracista significa reconhecer, diariamente, o legado produzido pela população negra e, em especial, pelas mulheres negras. Seguimos produzindo conhecimento, chefiando famílias, empreendendo, ocupando espaços de liderança e construindo novos futuros, embora muitas vezes permaneçamos invisibilizadas pelas narrativas oficiais.
Recentemente, durante uma viagem a Alagoas com minha filha e meu esposo, visitei a Serra da Barriga, território onde se localizou o Quilombo dos Palmares. Entre tantas aprendizagens, uma fala do guia permaneceu comigo: “Muitas pessoas acreditam que quem fundou Palmares foi Zumbi, mas uma das figuras centrais de sua origem foi Acotirene, frequentemente apagada da história.”
Independentemente das diferentes interpretações historiográficas sobre a formação de Palmares, essa reflexão evidencia um aspecto recorrente da história brasileira: o apagamento das mulheres negras dos processos de resistência.
As narrativas sobre Palmares costumam privilegiar figuras masculinas, enquanto mulheres como Aqualtune, Dandara e Acotirene permanecem menos conhecidas do grande público. Entretanto, elas exerceram papéis fundamentais na organização política, na transmissão de conhecimentos, na proteção da comunidade e nas estratégias de resistência.
Resgatar essas trajetórias não significa apenas reparar uma injustiça histórica; significa oferecer às novas gerações referências mais plurais sobre liderança, inteligência, coragem e construção coletiva.Faço, então, um convite ao leitor: quando você pensa em educadoras negras que marcaram sua trajetória escolar, de quem se lembra?
Para muitas pessoas, essa resposta revela um vazio.
No meu caso, durante toda a Educação Básica e parte da formação superior, tive apenas duas professoras negras. Uma delas foi Azoilda Loretto da Trindade, durante minha graduação em Pedagogia. Azoilda é uma das maiores referências da educação antirracista brasileira. Criadora da proposta dos Valores Civilizatórios Afro-Brasileiros, contribuiu para ressignificar o processo de ensinar e aprender a partir de princípios como ancestralidade, oralidade, circularidade, cooperação, memória , afetividade e energia vital.
Mais do que uma grande intelectual, Azoilda foi uma professora que marcou profundamente minha trajetória pela amorosidade, pela generosidade e pelo compromisso radical com a transformação da educação.
Talvez seja esse um dos maiores ensinamentos das mulheres negras: transformar resistência em legado, conhecimento em emancipação e afeto em prática política.
O que, afinal, podemos aprender com as mulheres negras?

Aprendemos que é possível transformar dor em luta, invisibilidade em protagonismo e memória em legado. Aprendemos que liderança também se constrói pelo cuidado, pela coletividade, pela ancestralidade e pela coragem de abrir caminhos para que outras pessoas caminhem depois.
Das mulheres negras herdamos muito mais do que histórias de resistência. Herdamos saberes, práticas educativas, formas de organização comunitária, produção intelectual, criatividade, afeto e um compromisso permanente com a construção de uma sociedade mais justa. Reconhecer esse legado não é um gesto de homenagem, mas um compromisso com a verdade histórica e com a democracia.
Neste Julho das Pretas, o convite é que possamos olhar para as mulheres negras não apenas como personagens da história, mas como intelectuais, educadoras, líderes políticas e produtoras de conhecimento que continuam transformando o Brasil todos os dias.
Como educadora, pesquisadora e mulher negra, acredito que uma educação antirracista começa quando ampliamos nossas referências e reconhecemos aqueles e aquelas que foram sistematicamente invisibilizados. Valorizar o legado das mulheres negras é ampliar as possibilidades de futuro para todas as pessoas.
Que o mês de julho não seja apenas um momento de celebração, mas um compromisso permanente com o enfrentamento ao racismo, ao sexismo e a todas as formas de desigualdade. Afinal, uma sociedade que reconhece as mulheres negras como protagonistas da sua história é também uma sociedade mais democrática, mais humana e mais comprometida com o bem-viver.
Referências
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Retrato dos Feminicídios no Brasil. São Paulo: FBSP, 2026. Disponível em: https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2026/03/nota-tecnica-dia-mulher-2026.pdf. Acesso em: 16 jul. 2026
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984. Disponível em: https://goo.gl/VFdjdq. Acesso em: 6out.2019.








