As bets ensinam! Por que escolas e educadores precisam intervir para transFORMAR comportamentos financeiros
Conteúdo formativo Educador

As bets ensinam! Por que escolas e educadores precisam intervir para transFORMAR comportamentos financeiros

Por Carolina Ligocki

Estimativa de leitura: 12min 43seg

16 de julho de 2026

 As apostas on-line revelam um desafio urgente para famílias e escolas: formar pessoas capazes de pensar antes de agir, proteger seus dados e sua atenção e gerir o dinheiro com responsabilidade ao longo da vida. 

Está evidente que as bets se espalharam e fazem parte do cotidiano de muitos brasileiros. Elas aparecem nas transmissões esportivas, nos uniformes, nos anúncios, nos influenciadores, nos memes, nos aplicativos e nas conversas entre jovens e adultos. 

Segundo estimativa do Banco Central, em 2025, brasileiros chegaram a destinar até R$ 30 bilhões por mês às bets. Isso equivale a até R$ 360 bilhões movimentados em apostas on-line ao longo de um ano.  

Para nós, que estamos imersos no mundo da Educação Financeira desde 2008, isso é assustador! As bets podem até parecer apenas entretenimento, no entanto, para nós, fica claro que estamos diante de plataformas que educam e reforçam comportamentos financeiros muito prejudiciais. E o pior, elas crescem rapidamente no Brasil, onde temos uma população de mais de 80% das famílias endividadas, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC), com muitas pessoas vivendo desafios para manter uma vida digna, sem condições básicas de saúde, educação, segurança.  

As bets comunicam uma lógica financeira perigosa, reforçando a ideia de que: 

  • que ganhar dinheiro é rápido e fácil. 
  • a gastar por impulso. 
  • que risco pode ser confundido com oportunidade. 
  • que frustração se resolve arriscando. 
  • que emoção vale mais do que planejamento. 
  • que dinheiro pode ser posto em jogo, ser desperdiçado. 

Nós sabemos que dinheiro é muito mais do que números na conta. Dinheiro é um recurso fundamental para uma vida com dignidade. É um dos meios para ter alimentação, moradia, transporte, saúde, educação, descanso, lazer, cuidado com a família e contribuição social. É também fundamental para construir autonomia, segurança, realizar projetos, empreender, resolver problemas sociais e ambientais, ampliar possibilidades ao longo do tempo e contribuir com a sociedade. 

Por isso, convido você, que é educador, em casa ou na escola, a não tratar as bets apenas como um problema externo e a se juntar a nós nessa campanha da transFORMAÇÃO financeira. 

Precisamos fortalecer as pessoas, já que as bets estão liberadas e cada dia mais acessíveis. 

Tem muita gente lucrando com as bets 

As plataformas de apostas são extremamente lucrativas para quem anuncia e vende, mas isso não é verdade para os usuários. Elas são estruturadas para capturar atenção, estimular repetição e transformar o impulso dos usuários em receita. 

Elas combinam conhecimentos avançados de Ciências Comportamentais e usam técnicas de publicidade, gamificação, bônus, linguagem esportiva, influência social, design persuasivo e personalização digital. 

A cada clique, a pessoa fornece sinais sobre seus interesses. A cada interação, o sistema aprende o que prende a atenção. A cada retorno, o comportamento vai se fortalecendo.  

Isso significa que, por meio das bets, é possível manipular os comportamentos e conduzir as pessoas a agir de forma impulsiva, reduzindo a autonomia e a capacidade de pensar criticamente. 

Quando crianças e adolescentes crescem em um ambiente que normaliza a aposta como caminho de ganho, passam a associar dinheiro A sorte, pressa, adrenalina e resultado imediato. 

E eu acredito que um dos maiores prejuízos de normalizar a aposta como caminho de ganho financeiro, é que nossas crianças e nossos adolescentes crescem associando dinheiro a sorte, pressa, adrenalina e resultado imediato, em vez de associá-lo a conhecimento, trabalho, planejamento, escolhas, responsabilidade, colaboração, persistência e tempo. 

Dinheiro se movimenta a partir de decisões e ações 

Em nossa jornada, atendendo famílias, educando comportamentos financeiros de crianças e adultos, fica cada dia mais “gritante” que, para ter uma vida com dinheiro SEMPRE, não basta ter acesso à informação e a conhecimentos matemáticos. Isso é importante. Mas a vida financeira é feita de decisões e ações. 

Uma pessoa pode saber calcular juros e, ainda assim, se endividar por impulso. Pode entender porcentagem e, mesmo assim, cair em uma promessa de ganho rápido. Pode conhecer investimentos e, ainda assim, arriscar dinheiro tentando recuperar perdas. 

Por isso, estamos cada dia mais convencidos de que é preciso ensinar os estudantes a diferenciar desejo de necessidade, a reconhecer seus próprios valores, a identificar pressão social, propaganda, influência digital, a desconfiar de recompensa imediata, a compreender o poder do tempo nos juros compostos, a internalizar a importância da conduta ética, além de perceberem as consequências pessoais, sociais e ambientais de ações atuais e futuras. 

É preciso ajudá-los a compreender que dinheiro é um recurso limitado e poderoso, que precisa ser gerido ao longo do tempo para sustentar saúde, bem-estar, autonomia, projetos e contribuição social. Mas, além disso, ajudá-los a desenvolver o repertório financeiro, as atitudes e os comportamentos para fazer isso com naturalidade. 

Quando o dinheiro é gasto em uma escolha, deixa de estar disponível para outra. Essa é uma aprendizagem poderosa. 

Construindo proteção e autonomia 

Mais do que simplesmente amedrontar e proibir, desenvolver essas competências protegem contra bets e, também, contra outras armadilhas: consumo impulsivo, endividamento, comparação nas redes, promessas de enriquecimento fácil, golpes digitais, pressão de grupo e decisões tomadas por emoção. 

Educadores podem ajudar as famílias a perceber que a prevenção começa na forma como crianças e adolescentes aprendem a lidar com desejos, frustrações, limites, escolhas e consequências. As famílias podem partir de perguntas simples: 

  • O dinheiro da família é conversado ou é um tabu? 
  • Os filhos sabem que toda escolha financeira tem consequência? 
  • Eles conseguem diferenciar necessidade de desejo? 
  • Eles entendem que publicidade tem intenção? 
  • Eles percebem que influenciadores são remunerados para promover produtos, serviços e comportamentos? 
  • Eles sabem que clicar, curtir e assistir deixa rastros? 
  • Eles sabem diferenciar aposta de investimento? 

Quando escola e família falam sobre esses temas com naturalidade, a criança aprende que dinheiro não é apenas consumo. Ele viabiliza cuidado, liberdade e futuro e precisa ser usado com responsabilidade. 

O papel do educador  

Sabemos que muitos educadores podem sentir insegurança para tratar de bets, especialmente porque o tema envolve tecnologia, legislação, saúde, comportamento e finanças. 

Estas perguntas podem servir de ponto de partida, sem a intenção de dar uma aula técnica sobre o mercado de apostas. 

  • Por que uma plataforma oferece bônus? 
  • Por que algumas pessoas continuam apostando mesmo depois de perder? 
  • Por que a expressão “quase ganhei” é tão poderosa? 
  • Por que anúncios de bets são tão frequentes? 
  • Quem ganha quando muitas pessoas apostam? 
  • O que uma pessoa deixa de fazer com o dinheiro que foi para apostas? 
  • O que diferencia uma escolha livre de uma escolha manipulada? 
  • Como proteger nossa atenção em ambientes digitais? 

A ideia é pôr os estudantes em posição ativa. Em vez de apenas receberem regras e informações, eles passam a investigar o funcionamento do sistema. 

Educar comportamentos financeiros não significa dizer aos estudantes o que devem pensar. Significa ajudá-los a perceber o que está influenciando suas decisões e ações e desenhar cenários de possíveis consequências. 

É formar pessoas capazes de construir uma vida com mais equilíbrio, autonomia e propósito. É proteger saúde emocional, relações familiares, projetos de vida e participação social. É também uma forma de cidadania. 

O que as bets “ensinam” e o que a Educação Financeira deve ensinar 

As bets “ensinam”  A Educação Financeira pode ensinar 
imediatismo perspectiva de futuro e persistência 
repetição impulsiva pausa, reflexão, planejamento e ação baseada em valores 
ilusão de controle análise crítica e autoconhecimento 
que perder por pouco significa estar perto de ganhar probabilidade, risco e limite 
que bônus é oportunidade que incentivo comercial tem intenção de ganhos futuros 
apostar é algo normal porque todo mundo fala disso que normalização não é sinônimo de segurança 
jogar pode virar dinheiro fácil responsabilidade financeira e comportamentos sustentáveis 

Essa é nossa missão com a Educação Financeira Comportamental: formar pessoas capazes de pensar antes de agir, escolher de acordo com valores, planejar antes de gastar, ter gratidão pelo que tem, guardar para proteger e concretizar objetivos, entender como construir um fluxo financeiro sustentável e a se proteger de manipulações diante de estímulos cada vez mais sofisticados. 

O dinheiro que se perde em apostas não desaparece apenas da conta de uma pessoa. Ele sai da mesa da família, do comércio local, da poupança para emergências, do cuidado com a saúde, da educação, da convivência e da possibilidade de contribuir para com a comunidade. 

Contamos com você para essa transFORMAÇÃO financeira. 

Até a próxima! 

Referência: 

AGÊNCIA BRASIL. Apostadores destinam até R$ 30 bi por mês a bets, informa BC. Diponível: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2025-04/apostadores-destinam-ate-r-30-bi-por-mes-bets-informa-bc 

Carolina oficina das finanças
Co-fundadora da Oficina das Finanças, autora, investidora, empresária, palestrante e bióloga.
O que achou dessa matéria?

O que achou dessa matéria?

Clique nas estrelas

Média da classificação 0 / 5. Número de votos: 0

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

mais recentes
Família

Saúde mental das crianças nas férias: 9 atitudes que fortalecem o bem-estar infantil

brincadeiras nas férias
Família

15 brincadeiras para as férias com as crianças: diversão, vínculo e desenvolvimento longe das telas 

brincadeiras nas férias

15 brincadeiras para as férias com as crianças: diversão, vínculo e desenvolvimento longe das telas 

Silêncio, som e descanso: por que o professor precisa reaprender a ouvir nas férias?
Conteúdo formativo

Silêncio, som e descanso: por que o professor precisa reaprender a ouvir nas férias? 

Silêncio, som e descanso: por que o professor precisa reaprender a ouvir nas férias?

Silêncio, som e descanso: por que o professor precisa reaprender a ouvir nas férias? 

como reduzir telas nas férias
Família

Como reduzir o tempo de tela nas férias e promover momentos mais saudáveis e divertidos em família 

como reduzir telas nas férias

Como reduzir o tempo de tela nas férias e promover momentos mais saudáveis e divertidos em família 

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro:

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro:

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro: