família estruturada: um conceito mal compreendido
Família

Família estruturada: um conceito mal compreendido 

Por Tatiane Zan

Estimativa de leitura: 4min 9seg

23 de fevereiro de 2026

Recentemente gravei em minhas redes sociais um vídeo falando sobre situações que vivenciamos em nossa sociedade no último mês e obtive muitos retornos positivos e surpresos sobre a minha definição sobre família estruturada. Por isso resolvi escrever sobre esse tema.  

Um dos fatos refere-se ao caso dos adolescentes que assassinaram um cachorro da comunidade local em Santa Catarina; e o outro, também envolvendo adolescentes, uma briga ocorrida no Distrito Federal, em que um adolescente de 19 anos agrediu um de 16 e o deixou em coma inicialmente, com o crânio desfigurado, vindo a óbito um tempo depois.

Essas duas situações foram divulgadas na mídia, e um dos pontos em comum entre elas é o fato de os adolescentes pertencerem a famílias ricas. Famílias com posses, bens, meninos que tiveram acesso a boas escolas, tiveram acesso à tecnologia. O adolescente de 19 anos, inclusive, era ex-piloto de automobilismo. Um exemplo disso é que os pais enviaram os adolescentes suspeitos de matarem o cachorro Orelha a pauladas à Disney, logo depois do crime.  

E aqui encontramos uma questão: Será que o dinheiro é capaz de produzir caráter e de fato uma boa formação? 

Durante as entrevistas, ouvi repórteres e li comentários sobre a referência a estes adolescentes como “vindos de famílias estruturadas”. E me deparei com o seguinte questionamento: O que seria uma família estruturada?. 

Família estruturada: o que é 

Como vimos acima, a sociedade tem um conceito de família estruturada um pouco deturpada do que realmente é, descrevendo-a como uma família que tem dinheiro, bens e até mesmo boa formação escolar. Mas vamos descrever o que família estruturada significa. 

Existe um teórico da Psicologia Sistêmica chamado Salvador Minuchin, que descreve família estruturada da seguinte maneira: “Uma família funcional tem fronteiras claras, hierarquia parental definida e papéis organizados.” 

Ainda para Minuchin, essa ausência de estruturação hierárquica vai comprometer a capacidade de os pais regularem o comportamento e as emoções dos filhos, deixando-os alheios a essa capacidade no seio familiar. 

Outro teórico Murray Bowen vai dizer que “A família é uma unidade emocional.” Pais que são emocionalmente diferenciados proporcionam aos filhos esse modelo de autocontrole, pois são mais regulados, portanto mais estáveis. 

E ainda, como um referencial teórico, gostaria de mencionar Diana Baumrind, que tem uma teoria fantástica e que, infelizmente, hoje está em desuso.  

“Pais autoritativos combinam alta responsividade com exigência apropriada.” Baumirind 

Nesta frase, podemos entender que famílias estruturadas tendem a operar em um padrão onde a autoridade se faz presente. Há limites consistentes, apoio emocional e ensino de responsabilidade. Sempre digo da importância do limite com afeto, pois assim obteremos exatamente a formação de indivíduos regulados.  

Ao pensarmos no modelo real de família estruturada, encontraremos: 

  • Hierarquia parental: os pais ocupam uma liderança de forma legítima. 
  • Fronteiras claras: diferenciação clara de subsistemas (pais e filhos). 
  • Função executiva dos pais: responsabilidade por orientação e contenção.  

O ambiente familiar é regulador emocional e criador de comportamentos mais saudáveis ou menos saudáveis. É neste ambiente familiar que vamos aprender sobre limites, espaços público e privado, controle emocional, liberdade, direitos e deveres, afeto e respeito ao próximo.

E um componente que favorece este ambiente ser saudável e, consequentemente, forma pessoas saudáveis em todos os aspectos é a estruturação parental.

Pais que são adultos saudáveis, regulados emocionalmente e que compreendem seu papel na criação e na educação dos filhos conferem autoridade sobre a vida deles, dizendo o que fazerem, como fazerem e como se comprometerem com a correção quando houver um desvio do padrão de funcionamento esperado. É preciso instaurar na mentalidade dos filhos a ideia de hierarquia. 

O que vimos nestes dois casos foi uma desestruturação das famílias. Em famílias estruturadas, os pais não isentam seus filhos de serem penalizados por seus comportamentos errados, mas permitem que estes sofram as consequências de suas escolhas, em termos de forjar caráter, educando, ensinando sobre regulação emocional, respeito aos limites de bom convívio social e desenvolvendo aspectos saudáveis para uma boa maturação do indivíduo, formando pessoas maduras e responsivas.   

Família estruturada não tem a ver com dinheiro, posses ou formação acadêmica. É aquela que tem papéis definidos e executados de forma satisfatória e regulatória, onde promove internamente trocas de afeto e limites – e estes se estendem para a sociedade de maneira geral. Família estruturada promove um ambiente interno saudável e que se expande para todo o entorno.  

Que possamos de fato criarmos famílias estruturadas, pois estas, sim, são funcionais! 

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Tatiane Zan
Psicóloga, terapeuta sistêmica familiar. Amo a vida e o conhecimento! Adoro ajudar as pessoas e tornar a vida mais leve!
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