O mundo pode ser representado em diferentes tipos de mapas, a depender dos objetivos de quem os produz e do contexto histórico.
No início de abril, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) lançou a 9ª edição do Atlas Geográfico Escolar com uma novidade: o Brasil no centro do mundo. Esse fato repercutiu na imprensa e nas redes sociais, com pessoas dizendo que o mapa estava errado e outras aplaudindo a inovação.
Mapa 1: Brasil no centro do mundo

É bom que se diga logo de início que o Brasil não é pioneiro nessa história e que outros países, como Austrália, China, Japão e Estados Unidos, também produziram mapas com seus territórios no centro.
Mapa 2: Japão no centro do mundo

Voltando ao Brasil, cabe a pergunta: Por que uma simples mudança na centralidade do mapa causou tantas reações favoráveis e contrárias? A resposta mais rápida a essa pergunta poderia ser “porque todos estamos acostumados com o mapa-múndi convencional no qual a Europa está no centro e na parte de cima do planisfério”.
E a resposta um pouco mais longa é que o mapa do IBGE foi usado quase que como pretexto para alimentar as discussões político-ideológicas entre grupos opostos: grupos opositores ao governo de então, colocando-se contrários e grupos pró-governo, colocando-se favoráveis. Quem diria que até um mapa seria alvo de discórdia na sociedade brasileira!
A versão mais usada do mapa-múndi ficou tão naturalizada a ponto de muitos pensarem que é a representação correta ou a mais correta ou, ainda, a única possível.
Como todo sujeito ou fato do presente é fruto de um processo histórico, voltemos alguns séculos no tempo para compreender esse planisfério “mais famoso”.

Na época das Grandes Navegações, os europeus se lançaram a longas viagens pelo mundo, desbravando mares e oceanos e chegando em terras antes inexploradas por eles, como a que estamos hoje, a América. Foi a “época de ouro” da Cartografia e para as técnicas de navegação, com grandes avanços científicos na produção de cartas náuticas e mapas dos “novos” territórios.
Os primeiros mapas que apresentavam o mundo com todos os continentes colocavam a Europa no centro e na parte superior do mapa. Ora, se esse continente era o centro político e econômico do mundo e de onde partiam as caravelas, é fácil entender por que o mundo era representado na visão eurocêntrica.
Você sabe o que significa a Projeção cartográfica? A projeção cartográfica é um conjunto de técnicas para representar a superfície terrestre no plano.
Um desses mapas foi o desenvolvido pelo cartógrafo Mercator em 1569 (veja o mapa 3). Para representar o mundo, ele usou uma projeção cartográfica que teve grande serventia para navegação marítima, pois facilitava o cálculo de distâncias. No entanto, essa projeção distorcia as áreas das superfícies: aquelas localizadas nos extremos norte e sul apareciam bem maiores que os demais territórios.
Mapa 3. Mapa de Mercator de 1569

A projeção de Mercator é usada até hoje e você pode observar, no mapa 4, os tamanhos da Groenlândia e da América do Sul; e da Antártida e da Rússia. Depois, compare com as áreas reais no quadro 1.
Mapa 4. Mapa atual com a projeção e Mercator

Quadro 1. Comparação entre áreas
| Continentes | Área aproximada (km²) |
| Antártida | 14 milhões |
| África | 30 milhões |
| América do Sul | 17 milhões |
| Groenlândia | 2 milhões |
Os planisférios mais conhecidos e usados nos dias de hoje, no mundo inteiro, continuam com a Europa no centro e na parte superior. E essa forma de representar o mundo ficou tão cristalizada que perdemos a dimensão que é resultado de um contexto político, histórico e cultural no qual o chamado mundo ocidental — com o poder centrado na Europa Ocidental e Estados Unidos —, continua em destaque. Houve, portanto, a manutenção de uma visão colonialista, na qual os países do Norte figuram na parte superior do mapa.
Mas já que a Terra é esférica, ela pode ser representada no plano de diversas formas, a depender da centralidade, da projeção e da orientação escolhidas, como vemos também nos mapas seguintes.
Mapa 5. Mapa-múndi com a China no centro

Mapa 6. Mapa com projeção polar, centrado na Antártida

Neste mapa, é possível ter uma noção mais próxima da realidade em relação ao território da Antártica. Em outras projeções esse continente aparece “esticado”. Fonte: Atlas escolar.
Mapas 7 e 8: Projeções de Werner e de Petermann


Outras formas de descolonizar o olhar e dar luz ao chamado Sul Global (conjunto de países que têm em comum o passado colonial e condições sociais e econômicas que os caracterizam como subdesenvolvidos ou em subdesenvolvimento; a maioria se encontra no hemisfério Sul e ao Sul dos países chamados desenvolvidos) é representar o mundo com a projeção de Gall-Peters, na qual, ao contrário da projeção de Mercator, os países do Sul ganham destaque.
Mapa 9. Mapa com projeção de Gall-Peters

Além das diferentes centralidades e projeções, as representações do mundo podem variar a orientação, ou seja, a posição dos territórios no mapa. Nesse sentido, os mapas orientados para o Sul quebram com a visão eurocêntrica e tiram o protagonismo dos países do Norte, como podemos observar no mapa 10 (a seguir).
Mapa 10. Mapa-múndi orientado para o Sul

Há quem pense que esse mapa está de cabeça para baixo. Só que não… nele, o Sul está na parte superior e o Norte na parte inferior.
Com tantas formas de representar o mundo, não há motivos técnicos para desconsiderar qualquer uma delas. A escolha depende da informação que se deseja representar e a ideia que se quer “vender” ou, ainda, a história que se quer contar.
Por fim, com todas as licenças poéticas ao título do livro “O perigo de uma história única”, de Chimamanda Ngozi Adichie, fiquemos atentos para “O perigo de um planisfério único”.
Contar e considerar outras histórias e construir outros tipos de mapas é “pensar fora da caixa” e um bom começo para descolonizar o olhar e dar voz e vez para aqueles que, por séculos, foram subjugados.
“A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que sejam mentira, mas que são incompletos. Eles fazem com que uma história se torne a única história” (Chimamanda Ngozi Adichie).
Saiba mais:
- ADICHIE, Chimamanda Ngozi. “O perigo de uma história única”. São Paulo: Companhia das Letras. p. 26.
- Atlas escolar IBGE. Disponível em: https://atlasescolar.ibge.gov.br/
- BROTONN, Jerry. Uma história do mundo em doze mapas. Rio de janeiro: Zahar, 2014.
- O autor discute o contexto político, social e religioso em que se insere a produção de doze mapas, da Grécia antiga aos digitais atuais,
- Mapas com diversas centralidades. Disponível em: https://revistaforum.com.br








