Levantamento nacional mostra que a maioria dos jovens sofreu bullying ainda na infância e aponta desafios urgentes para escolas no enfrentamento da violência.
O bullying segue sendo um dos temas mais urgentes na Educação brasileira, não apenas pelo aumento das denúncias, mas porque suas consequências emocionais têm acompanhado crianças e adolescentes até a vida adulta. Uma nova pesquisa da Minds & Hearts/HSR Specialist Researchers joga luz sobre um ponto crucial que deveria acender o alerta nas escolas: mais de 60% dos jovens afirmam ter sofrido bullying antes dos 10 anos, ou seja, quando muitos sequer compreendem o que é violência ou têm vocabulário para nomear o que sentem.
O dado, por si só, já indica o tamanho do desafio. Mas o estudo revela ainda mais: praticamente todos os adolescentes da amostra já viveram algum episódio de bullying ao longo da vida, seja dentro da escola, na família ou no ambiente digital. A violência, portanto, não é exceção – é experiência cotidiana.
Como o estudo foi conduzido e por que seus resultados importam para as escolas
Entre 20 de abril e 2 de maio de 2025, a equipe da Minds & Hearts entrevistou 1000 adolescentes (16 a 18 anos), jovens adultos (19 a 24 anos) e pais, contemplando todas as regiões do Brasil, de escolas públicas e particulares. O estudo buscou entender não apenas os episódios de agressão, mas o que eles provocam emocionalmente e como a escola participa, ou não, do enfrentamento.
Uma das perguntas centrais era: o bullying está se tornando normalizado?
As respostas mostram uma percepção dividida: metade dos jovens discorda totalmente da normalização, mas muitos reconhecem que agressões verbais, piadas cruéis e preconceitos do dia a dia acabam sendo vistos como “parte do convívio”.
Essa contradição é fundamental para a escola entender a importância de identificar os tipos de violência ou comportamentos inadequados e, como explica a coordenadora pedagógica do Espaço Ekoa, Ana Clara Bin, é preciso tratar a “doença” com o remédio certo.
“Não adianta tratar uma infecção com dipirona. Precisamos estar atentos se aquele comportamento é, de fato, bullying, ou se são episódios de racismo, gordofobia, lgbtfobia ou, até mesmo, reação de ‘defesa’ e quebra de combinados. Ignorar ou tratar de forma equivocada a situação pode gerar frustração, dúvidas sobre como agir ou procurar ajuda, além do afastamento entre estudantes e escola”, explica.
Bin, ainda reforça que as escolas sabem o que é bullying e trabalham o tema há muitos anos, mas pode ser que para os estudantes não seja tão claro como para a equipe acadêmica. “O bullying tem suas característica: são agressões que podem ser físicas, emocionais ou sociais, praticadas por uma pessoa ou grupo, de forma intencional e repetida em que o desequilíbrio de poder está claro”.
No Podcast Conteúdo Aberto abordamos o tema com desdobramentos práticos para a escola, com a presença de Ana Bin e Naira Maneo, sócia da HRS. Assista ao vídeo:
Escola: principal palco onde o bullying acontece
Apesar de a violência aparecer também em redes sociais, grupos da família e entre amigos, a escola continua sendo o espaço onde o bullying mais ocorre, até pelo tempo diário em que os adolescentes passam nos espaços educacionais.
Entre os mais velhos, de 19 a 24, mesmo na faculdade, a percepção amplia: eles enxergam o bullying como algo que ultrapassa as paredes da escola e se espalha no digital, especialmente em episódios de exposição, mensagens ofensivas e cancelamento, fenômenos que ganham força com o avanço da cultura das redes.
Mais uma vez, há um sinal claro para as instituições: quando o mundo fora da escola reproduz o mesmo padrão, a escola se torna o único espaço possível de enfrentamento estruturado.
Antes dos 10 anos: quando as primeiras feridas aparecem
O recorte etário talvez seja o ponto mais sensível do estudo. Mais de 60% dos entrevistados afirmam ter sofrido bullying antes dos 10 anos, fase em que a criança deveria experimentar pertencimento, segurança e desenvolvimento emocional saudável.
Esse início precoce faz com que o bullying seja mais do que um episódio traumático: ele se torna estrutura emocional, moldando autoimagem, segurança e a forma de se relacionar com o mundo.
Adolescentes mais velhos relatam ainda maior repetição das agressões – entre três e quatro episódios significativos ao longo da vida escolar. E quanto mais velhos ficam, maior a variedade de violências que vivenciam: ataques virtuais, ameaças, agressões físicas e exclusão social.
Os tipos de bullying: quando discriminação, preconceito e violência se encontram
O estudo também revela que o bullying não surge do nada: ele é profundamente atravessado por discriminações históricas. Entre os tipos mais citados estão:
- agressão verbal (apelidos cruéis, xingamentos, humilhação);
- exclusão social;
- gordofobia (especialmente entre meninas);
- racismo;
- misoginia e machismo;
- agressão física;
- ameaças;
- violência digital;
- cancelamento;
- LGBTfobia.
Essas violências não são isoladas: elas refletem padrões sociais que acabam sendo reproduzidos na escola e carregam marcas de desigualdade estrutural no Brasil, reforçando estigmas que afetam diretamente a autoestima e o desenvolvimento dos estudantes.
Por isso, especialistas defendem que enfrentar o bullying na escola passa também por uma educação antirracista, por práticas de letramento midiático e por uma escola que valorize a diversidade em todas as suas formas.

Feridas emocionais que continuam mesmo anos depois
Entre os impactos citados pelos jovens, aparecem sentimentos que se arrastam ao longo de toda a adolescência e, muitas vezes da vida adulta: insegurança, tristeza, vergonha, baixa autoestima, ansiedade e depressão.
Mais de 60% dos jovens que participaram da pesquisa afirmam que ainda pensam nos episódios de agressão, mesmo anos depois. Meninas tendem a internalizar mais os sentimentos; meninos, a reagir com raiva ou desejo de vingança. E mais da metade dos participantes admite ter reproduzido algum tipo de comportamento agressivo – sinal claro de que a violência se retroalimenta quando não há acolhimento.
O silêncio que preocupa: 38% não contam a ninguém
Quase 4 em cada 10 jovens não falam sobre o bullying que sofrem. A razão? medo, vergonha ou sensação de que nada vai mudar.
Maneo, explica que “quando contam, recorrem primeiro à mãe, depois a amigos, ao pai e, por último, à escola; um dado que deveria preocupar educadores. Muitos relatam receber respostas como ‘isso é coisa da idade’ ou ‘ignora que passa'”, reforçando ainda mais o silêncio.
Pais, por outro lado, afirmam buscar ajuda profissional ou a própria escola, mas 24% dizem sentir culpa por não terem percebido os sinais antes.
“Nesse ponto, os pais também precisam de muita orientação. A gente escuta muito os pais falando ‘Do nada meu filho se isolou no quarto’, mas nada é do nada. Tem uma história que veio se construindo e, por tudo isso, é que a pessoa toma uma ação. Sendo assim, os pais precisam de orientação para não minimizarem as motivações nesse primeiro momento”, finaliza.

As escolas estão preparadas?
A percepção geral é crítica: só 18% dos adolescentes acreditam que suas escolas têm políticas eficazes contra o bullying. Pais são ligeiramente mais otimistas (24%), mas ainda muito abaixo do ideal.
Entre as estratégias consideradas mais efetivas, jovens e responsáveis citam:
- palestras e campanhas educativas;
- rodas de conversa;
- atividades de Educação emocional;
- projetos de inclusão;
- serviços psicológicos acessíveis;
- comunicação constante com as famílias.
Mais de 30% pedem monitoramento contínuo e regras claras, um recado direto para gestores escolares.
Caminhos possíveis: da prevenção ao cuidado cotidiano
Especialistas reforçam que uma política antibullying não pode ser pontual: ela precisa ser permanente, institucional e visível. Escuta ativa, diálogo, empatia, pertencimento e uma convivência escolar estruturada são pilares.
A pesquisa apresenta, inclusive, o Projeto Compromisso Anti-Bullying, que propõe monitoramento semestral, indicadores claros e um selo de boas práticas. Para as famílias, isso importa: 76% afirmam que confiariam mais em uma escola com selo, e 67% dizem que o dado influenciaria a matrícula.
O estudo confirma o que professores já percebem no dia a dia: o bullying na escola não é um episódio isolado, mas um fenômeno que atravessa gerações, plataformas e relações. Porém, ele também mostra que existem caminhos e que tais caminhos dependem tanto da instituição quanto da comunidade escolar.
Quando a escola se compromete com Educação emocional, diálogo, inclusão e monitoramento contínuo, abre espaço para que cada estudante seja visto, escutado e protegido.








