Contar histórias, escrever diários de campo, descrever lugares, paisagens, gestos, modos de viver e brincar: todas essas ações fazem parte do ofício do historiador, e crianças e adolescentes podem realizá-las também. E as férias podem ser um tempo muito especial para isso.
Já há muito tempo que a história ensinada nas escolas e nos livros didáticos deixou de ser uma sequência de acontecimentos onde se destacam as ações de governantes e elites políticas e/ou sociais. Nas últimas décadas, os estudantes são encorajados a encontrar os rastros das histórias de diferentes grupos e pessoas, considerando suas vidas cotidianas com suas canções, objetos de cultura material, obras de arte, maneiras de trabalhar e produzir cultura, etc.
Mas o mais interessante desses novos modos de ensinar História, é o convite que sempre se faz aos estudantes para que eles escrevam narrativas históricas a partir das suas observações e dos documentos recolhidos e dialogados com colegas, comunidade escolar e familiares. Trata-se de uma atividade que deve se repetir ao longo da Educação Básica, de modo que se torne uma rotina na vida dos estudantes/cidadãos indagar sobre o passado em relação ao presente vivido e/ou descoberto em noticiários. E por que não desenvolver tais atividades também nas férias? Vamos conversar sobre alguns livros que podem funcionar como incentivo e indicar caminhos para a escrita dos estudantes nas férias.

Em Manual da criança caiçara, Marie Ange Bordas conta histórias de vidas de crianças caiçaras que conheceu ao mesmo tempo, em que algumas dessas crianças se tornam narradoras no livro. Uma criança, por exemplo, conta a história da chegada da Marie, autora do livro, e das suas andanças e conversas para descobrir como vivem as crianças caiçaras e colocar em seu livro. Assim, o leitor conhece as palavras que usam, o que fazem no dia a dia, como dançar fandango, como jogar tarrafa em busca de peixes ou catar fruta no pé da árvore, entre muitas outras coisas. A leitura pode ser feita em sala de aula antes das férias, pode ser indicada para as férias ou ser uma escolha dos pais aos seus filhos.



Outra leitura que pode incentivar a produção de narrativas intitula-se Malala, a menina que queria ir para a escola, escrita pela jornalista Adriana Carranca. Ela conta sua viagem ao vale do Swat, localizado entre o Paquistão e o Afeganistão, e onde a menina Malala cresceu junto de seu povo, os Pashtuns. É um livro de viagem, de descoberta do lugar onde Malala vivia e de como ela foi proibida de ir à escola. Em seu relato, a jornalista nos conta sobre a sua surpresa ao descobrir histórias de reis e rainhas no vale do Swat, seus modos de comer e de receber estrangeiros. O livro pode ser lido com os pais, principalmente em suas primeiras páginas, quando a descrição dos lugares com muitas informações pode fazer com que as crianças percam ritmo de leitura e se desinteressem, mas com os pais seguramente isso não acontece. É possível ler partes com as crianças e deixar outras partes para que elas leiam sozinhas. Já os maiores podem ler sozinhos.

Em suas férias, os estudantes podem visitar amigos ou familiares em outros bairros ou cidades, podem fazer viagens a lugares que não conheciam ou podem, mesmo, ficar em casa. Em todos esses lugares, eles podem escrever Manuais e/ou Diários descrevendo paisagens e destacando edificações e modos de viver e produzir cultura. Por exemplo, eles podem escrever o Manual da Rua X, Como vivem os moradores do lugar X, A festa X do lugar Y, O lugar onde vive minha avó, O lugar onde vivem meus primos, Histórias do meu lugar, Diário de leitura do livro X, Impressões de viagem (e aqui pode ser de uma viagem de fato ou de leituras feitas)e assim por diante. Eles podem escolher alguns moradores e escrever sobre as histórias que ele conta sobre aquele lugar, podem contar sobre uma festa de rappers ou uma festa tradicional do lugar onde vivem, ou do lugar que foram visitar.
Convide os estudantes a escreverem um Diário e/ou Manual e/ou Relato de viagem com tudo que vivem no seu dia a dia de férias ou tudo que encontraram nos lugares que forem. Peça que comparem modos de se vestir, comidas, arruamentos, edificações, moradias, maneiras de se comportar e falar, palavras novas que descobriu, nomes das árvores, bichos, pássaros e plantas que encontrar, etc. Sugira que registrem conversas com outras pessoas, que perguntem por suas histórias, sobre como vivem, trabalham e se relacionam com o lugar onde vivem. Será que aparece alguma história bacana que as crianças podem narrar em seu Diário/Manual/Relato e depois contar para os colegas? Ou fazer mapas destacando novidades e as coisas que mais gostaram?

Para os estudantes de Ensino Médio, leitura de clássicos pode ser bastante instigante. Os Contos de Machado de Assis foram editados em dois volumes pela Companhia das Letras. É possível sugerir que eles leiam alguns e que escrevam impressões de leitura. No mesmo sentido, Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, ganhou uma belíssima adaptação em HQ pela Globo Livros. As cores escolhidas pelo desenhista Rodrigo Rosa estabelecem ótimo diálogo com a narrativa original. Essas leituras e impressões podem ser escritas com familiares, ou entre amigos.
No retorno das férias, os estudantes poderiam trocar seus Diários e/ou Manuais e/ou Relatos de viagens e/ou Impressões de leitura na classe, fazer exposições e estabelecer comparações. Pode ser que as vidas cotidianas apresentadas por alguns deles sejam parecidas, ou muito diferentes. Pode ser que o que alguns destacam, nos mesmos lugares vividos e/ou visitados, não seja o mesmo que outros colegas observam. As impressões de leitura podem destacar elementos/conteúdos também bastante diferentes, o que permitirá que os debates aprofundem as leituras de cada um. Ainda neste sentido, no retorno das aulas, o professor pode oferecer resenhas críticas sobre esses textos para leitura na classe. Desta forma, os alunos podem transformar suas impressões de leitura em resenhas críticas, após discussão sobre a importância dessas resenhas para a produção cultural de um país.
As narrativas produzidas pelos estudantes podem envolver escrita, colagem ou desenho, cada um escolhe a melhor maneira de registrar suas histórias das férias, podem usar diferentes maneiras de narrar! É interessante mostrar aos estudantes que os Manuais/Diários/Relatos podem constituir narrativas históricas a partir da observação cuidadosa das paisagens e das leituras, são anotações que destacam elementos e guardam impressões que podem ser lidas futuramente também.

E sempre é possível desafiar os estudantes a escolherem um livro da biblioteca para leitura nas férias e a escrita de impressões de leitura. Muitas leituras e impressões no retorno seguramente permitirão elaborar algumas aulas bastante produtivas e plurais!
Gostaria de finalizar este convite a leituras e à produção de narrativas históricas pelos estudantes em férias com um lembrete: as bibliotecas das escolas públicas são muito ricas. Elas são alimentadas pelo Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE), organizado pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), que regularmente distribui livros para as diferentes faixas etárias das escolas. Incentive seus estudantes e/ou filhos a frequentarem a biblioteca e a trazerem livros para ler em casa com os pais, amigos, vizinhos, etc. Há textos literários clássicos e romances mais recentes, Histórias em Quadrinhos, biografias, e muito mais. No mesmo sentido, as escolas particulares também possuem bons acervos que podem e devem ser visitados!







