Educador

Milton Santos, mestre e intelectual 

Por Angela Rama

Estimativa de leitura: 5min 43seg

14 de agosto de 2023

Milton Santos continua inspirando estudantes, ativistas, intelectuais e todos aqueles que desejam um país com mais justiça social. 

“Fui aluna de Milton Santos.” Quando digo isso para educadores do Brasil afora, vejo os olhos brilharem de admiração pelo professor e pesquisador que tanto nos orgulha. E os motivos não são poucos, a começar por ser o único geógrafo latino-americano a receber, em 1994, o prêmio Vautrin Lud, considerado o “Nobel da Geografia”.  

Nascido em Brotas de Macaúbas, Bahia, sua primeira formação foi em Direito. Como acadêmico e professor, Milton Santos é um dos maiores pensadores do Brasil e do mundo. | Reprodução: Itau Cultural

Antes de continuar, uma advertência! Este texto não pretende ser uma minibiografia do professor, já que há muitas disponíveis na Internet e em mídias impressas. A intenção é revisitar as memórias da estudante universitária que fui. 

O ano era 1988. Com dezenove anos, eu tinha no meu currículo o Magistério e uma vida relativamente tranquila e privilegiada, ainda que na periferia leste da capital paulista. Entrar na Universidade de São Paulo significava muito mais que cursar Geografia: era uma experiência nova com a diversidade de paisagens e grupos sociais em longos trajetos diários pela cidade. 

Fazer Geografia também significou conhecer lugares pelo Brasil, fazer amigos que permanecem até hoje e abrir a mente para novas ideias, a partir da leitura de grandes autores e mestres, sendo Milton Santos um deles.  

Tive aula com o professor logo no início da graduação. A sala nove, a maior de todas, estava repleta de estudantes e havia um grande burburinho para receber o autor de vários livros que constavam da bibliografia de todos os cursos de Geografia e que, até pouco tempo, eu não conhecia.

E a “nossa celebridade acadêmica” era um homem negro e nordestino do interior da Bahia, algo raro à época (e ainda é) mesmo nas grandes universidades públicas do Sul-Sudeste.  

Fundamentos econômicos, sociais e políticos da Geografia era o nome da disciplina ministrada por Milton Santos naquele início da minha vida universitária. As aulas, repletas de referências a autores e textos, eram muito distantes daquelas da minha vida escolar pregressa. 

Até então, para mim, Geografia era o que aprendi nos livros didáticos, quando estes traziam conteúdos totalmente descritivos e acríticos. Reflexões e discussões em sala de aula, nem pensar naquele momento, embora já se aproximasse o fim da ditadura — aquele mesmo regime que havia levado Santos à prisão e ao longo exílio entre 1964 e 1977. 

Obras de Milton Santos | Reprodução: miltonsantos.com.br

Mas voltando à sala nove, lembro de uma pequena passagem. Certa vez, não consegui acompanhar a explicação do professor e acabei virando o rosto para minha amiga ao lado, expressando interrogação. Sentado à mesa posta no tablado, muito atento, o professor chamou minha atenção. Na época, bastante ingênua, me senti injustiçada, afinal me considerava uma aluna dedicada, pois lia os textos indicados e anotava até a respiração dos mestres, características que – hoje sei — não esgotam, nem de longe, o esperado de uma universitária ou universitário. 

Eu, na Ocupação Milton Santos, em São Paulo. Julho de 2023.

O ano, agora, é 2023! Há duas décadas da morte de Milton Santos, uma exposição em São Paulo traz um pouco de sua vida e obra. Nela, revisito em fotografias, livros, textos e vídeos a importância do mestre. E relembrando a cena da sala nove entendo a postura do professor e o que me trouxe de aprendizado para a vida. O jeito, em certa medida, austero e, ao mesmo tempo, paterno, refletia sua seriedade com o conhecimento, seu respeito pela ciência e a importância atribuída às teorias que eram a base de uma Geografia renovada1 e que ajudavam a melhor compreender as desigualdades do nosso mundo. 

E esses aspectos do intelectual eram, provavelmente, os mesmos que ele esperava dos seus alunos e que fez muitos deles reafirmarem a escolha pela ciência geográfica. O depoimento da minha amiga de turma Soraia Ramos2 e orientada no Mestrado pelo professor reforça isso: 

O meu querido e eterno mestre Milton Santos foi decisivo para eu seguir na graduação em Geografia, pois com ele descobri uma Geografia crítica que analisa o espaço geográfico a partir de uma perspectiva marxista. O privilégio de tê-lo como professor e a leitura de seus livros me fizeram sentir a total conexão entre a sua visão da Geografia e a minha necessidade de compreensão e transformação do mundo – naquela época eu era militante de um partido de esquerda. 

Ao longo de minha vida acadêmica, participei de grupos de pesquisa coordenados pelo professor que, sempre rigoroso com a dedicação dos alunos, nos recebia em sua sala com afeto e muita disposição em nos orientar sobre a Geografia e a vida. Ao final dos encontros nos dizia sua palavra de conforto e incentivo: CORAGEM!

Soraia Ramos, orientada no Mestrado pelo professor na década de 1990, na Ocupação Milton Santos, em São Paulo. Julho de 2023. | Reprodução: acervo pessoal.

Os prêmios e honrarias recebidos pelo professor no Brasil e em várias partes do mundo revelam a grande importância do seu trabalho, mas representam apenas a ponta de um iceberg composto por suas grandes contribuições que inspiram reflexões e atitudes por um país melhor para todos e todas, das mais diversas periferias das cidades e do mundo!

E, finalizando esse texto, diretamente dos territórios periféricos da Grande São Paulo, a aproximação entre poesia e Geografia homenageia o mestre:

MILTOMGRAFIA

No mapa mundi
ele Brota em Macaúbas
e colhe África onde se planta
Periferia.
Na superfície da pele
cor de petróleo –
terreno fértil
para estudar o passado
e entender o futuro-,
escorre o suor da
sabedoria.
O cérebro
fincado no mundo
são bússolas
que guiam escravos modernos
através dos Quilombos da Geografia.
Na face dois olhos
semiáridos de tanto regar
territórios devastados
pelo silêncio dos que não dormem
porque não comem,
e dos que vivem em banho-maria.
Na boca
um sorriso onde afiou suas lâminas
e destilou o verbo no silêncio da academia.
Ao leste do peito
solo de mil sonhos
o Professor e
topógrafo do sentimento,
colocou no mapa
o estado da utopia.

Por Sergio Vaz3


Ocupação Milton Santos

Quando: 19/07/23 a 08/10/23 

>>Terça-feira, Quinta-feira, Sexta-feira e Sábado, das 11 h às 20 h. 
>>Domingos e feriados, das 11 h às 19 h 

Onde: Itaú Cultural – Avenida Paulista, 149, São Paulo. 

Mais informações: www.itaucultural.org.br 


  1. De forma geral, esta Geografia se convencionou chamar “Geografia Crítica”.  ↩︎
  2. Meu especial agradecimento à Soraia Ramos pelo depoimento. ↩︎
  3. Sérgio Vaz é escritor e organiza diversas ações voltadas à produção cultural nas periferias da Grande São Paulo. É fundador da Cooperativa Cultural da Periferia, a Cooperifa. ↩︎
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