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Luto infantil: como as crianças lidam com a morte e como ajudá-las 

Por FTD Educação

Estimativa de leitura: 10min 35seg

1 de novembro de 2024

Entenda com os especialistas, o que é luto infantil e como ajudar as crianças a lidarem com esse momento.

A infância é um período repleto de descobertas e alegrias, mas também pode ser um momento desafiador quando se depara com a morte.  

Para as crianças, o conceito de perda muitas vezes é envolto em confusão e mistério. Quando a morte de um ente querido ocorre, o impacto emocional pode ser profundo e complexo.  

Para enriquecer nossa compreensão sobre esse tema tão delicado, conversamos com especialistas na área, Eduardo Carlos Tavares, médico pediatra e professor universitário, e Gláucia Rezende Tavares, mestre em Ciências da Saúde. Ambos são cofundadores da Rede API – Apoio a Perdas (Ir) Reparáveis e do Neapsi – Núcleo de Assistência e Pesquisa à Saúde Integrada.  

Juntos, eles compartilham suas experiências e conhecimentos sobre como abordar a morte de forma sensível e apropriada para as crianças, promovendo um espaço de diálogo e acolhimento. 

Vamos explorar, portanto, o que é o luto infantil, como ele se diferencia do luto em adultos e quais estratégias podem ser adotadas para ajudar as crianças a lidarem com a dor da perda de maneira saudável. 

O que é luto infantil?  

Segundo os especialistas Eduardo e Gláucia, “O luto infantil é diferente do luto da criança. Há pessoas que podem ter idade cronológica para serem adultos e funcionam de forma infantil – reativos, descontrolados, impulsivos. O luto das crianças varia de acordo com a bagagem que recebem de suas famílias e sua rede social – escola, comunidade. A literatura descreve a criança lidando, em primeiro estágio, com a ideia da reversibilidade da morte. Por volta dos 7 anos de idade maturacional, que não é a idade cronológica, é que vai lidando com a irreversibilidade da morte”.  

Confira a entrevista com os especialistas em luto infantil Eduardo Carlos Tavares e Gláucia Rezende Tavares!  

1. Como a criança entende a morte em cada fase da vida? As crianças sofrem de forma diferente?  

“Como respondido acima, o desafio de assimilar as dores das perdas e do luto é sair da possibilidade imaginária da reversibilidade à constatação das mudanças irreversíveis. É importante lembrar da necessidade de preparar as crianças para as perdas e para o luto e não evitar a qualquer custo não falar do tema e, principalmente, excluí-las dos rituais de despedida dos entes queridos”, explica os especialistas. 

2. Como falar sobre a morte para uma criança?  

Os especialistas Eduardo e Gláucia chamam atenção para “O fato de que a linguagem não é inocente”. Eles destacam que os pais e os familiares devem ter “atenção às expressões que são ditas, de forma automática, e trazem mais confusão; “Foi para o céu…”, “Virou estrelinha…”, “Foi viajar”, “Deus chamou para morar com ele”. 

Conforme explicam, “Temos, muitas vezes, dificuldade em dizer: ‘Partiu’ ‘Deixou-nos’ ‘Não está mais fisicamente com a gente’. 

São formas de comunicação que esbarram em crenças e dificuldades. Torna-se necessária uma comunicação honesta em que não se tem compromisso de oferecer respostas prontas. É possível dizer ‘não sei’ ou ‘é o que eu acredito, outras pessoas podem ter formas diferentes de compreender’. 

Existe literatura sobre morte e luto dedicada às diversas faixas etárias entre o lactente e o adolescente. Obviamente antes de se utilizar dela, o responsável deve lê-los e formar uma opinião crítica. Alguns livros e artigos são muito bons, mas existem também outras publicações equivocadas e até mesmo doutrinárias, que, no nosso ponto de vista, devem ser evitadas”. 

3. Como falar que uma pessoa querida morreu?  

Gláucia e Eduardo orientam que é necessário “falar que a pessoa morreu, assim como todos os fenômenos que nascem, morrerão. Quanto mais eufemismos, mais difícil a compreensão para a criança. 

Deve-se aproveitar eventos reais como forma de educação para a morte. Falamos da morte de plantas ou animais, que poderão ser utilizadas para explicar na prática o ciclo de nascer, viver e morrer.  

Defendemos a ideia de que as crianças devem conhecer e participar dos rituais fúnebres de animais e pessoas de vínculos afetivos de menor intensidade, evitando que o primeiro velório de que ela participará seja de um membro muito querido, geralmente, mas não necessariamente, avô, avó ou o pet de estimação, o que sempre será mais traumático, se não teve a experiência prévia”. 

4. Quais são as fases do luto infantil? Quais os sintomas?  

“Não trabalhamos com a ideia de fases do luto. Esta forma de apresentação traz o problema de querer encaixar todas as pessoas em determinados seguimentos. Trabalhamos com a ideia de uma noção processual do luto que oscila entre a admissão das perdas, das dores e do luto e o outro lado complementar que é a capacidade de recuperação. Esse movimento pendular se mantém, trazendo a possibilidade de integrar e preservar a memória do ente querido que morreu” reforçam os especialistas. 

Eduardo e Gláucia afirmam também que, “independentemente da idade, a forma de lidar com o luto não cabe blindagem da dor. A dor traz o desafio de busca constante de bem-estar e contínuos aprendizados”. 

5. Quais são as reações emocionais mais comuns que as crianças apresentam quando enfrentam a morte de um ente querido? 

Conforme Gláucia e Eduardo, “infelizmente há uma tendência de categorizar emoções como boas ou más. Emoções são energias que nos move. Não são, em si, boas ou más. A forma como agimos fará toda diferença. É possível que as crianças manifestem medo/raiva/tristeza e depressão se fechando, ou se mostrando mais irritadas. Pode haver alteração no sono e na alimentação. Quanto mais puder preservar as atividades das crianças, na companhia de pessoas que lhe dão segurança, maiores serão as condições de expressão e elaboração da dor”.  

6. Como a idade e o desenvolvimento cognitivo da criança influenciam sua compreensão da morte e o processo de luto?  

“Enfatizamos que as manifestações não são definidas por faixa etária e sim por maturidade e forma de enfrentamento. Há uma forma primária de lidar, mágica, fantasiosa que a situação vai ser, novamente, recomposta. Há o outro momento de lidar com a irreversibilidade e seus desdobramentos” destacam.  

7. Quais são os sinais de que uma criança está tendo dificuldade para lidar com o problema?  

Dificuldade de se relacionar, choro intensivo, recolhimento exagerado, irritabilidade e agressividade desmedidas. Não são índices objetivos e podem variar com o grau de tolerância das pessoas que estão apoiando a criança. 

8. Que estratégias ou intervenções você recomenda para ajudar as crianças a reduzirem a perda de forma saudável?  

Chamamos a atenção para a sensibilidade relacional, conversas honestas e abertura das pessoas de se revelarem com suas próprias inseguranças, medos, raivas e tristezas. O compartilhar emoções pode ser um fator de aproximação e credibilidade nas interações. “Fazer de conta” que está tudo bem é um desserviço e uma ameaça à confiança, alertam os especialistas Eduardo e Gláucia.  

9. Qual o papel da comunicação aberta sobre a morte e o luto na vida de uma criança?  

“Comunicação honesta, sincera é a base para formação de vínculo confiável”, reforçam os especialistas Eduardo e Gláucia. 

10. Como os pais ou os cuidadores podem abordar o tema da morte de maneira sensível e adequada para a idade?  

Segundo os especialistas, “conversas produtivas começam com perguntas. O que você quer saber? O que você não quer falar? Como posso ajudar? Pode me ajudar a ajudar você? São algumas perguntas que vêm como convite à conversa. São conversas que serão tecidas ponto a ponto, que instigam e abrem interesse para que venham mais e mais perguntas, que gerem reflexão, apoio e confiança. Diante da vida que não nos oferece garantia, pode nos oferecer segurança por meio de coerência entre o que se diz e o que se faz”.   

11. Vocês poderiam compartilhar algumas atividades ou rituais que podem ajudar as crianças a expressarem seus sentimentos durante o luto? 

Quando uma criança enfrenta o dor da perda, é fundamental fornecer espaços seguros onde ela possa expressar seus sentimentos. Segundo os especialistas Eduardo e Gláucia, algumas atividades e alguns rituais podem facilitar esse processo, como a “Construção de caixa de memórias, contação de histórias, montagem do genograma, onde se destaca a posição das pessoas significativas e suas influências na vida da criança. Outros rituais podem surgir a partir do interesse e da vivência de cada criança e que faça sentido para ela”. 

12. Como a cultura e as tradições familiares podem impactar a forma como as crianças lidam com a morte? 

A forma como as crianças enfrentam a morte é profundamente influenciada pela cultura e pelas tradições familiares. Conforme os especialistas, “Nossa cultura ainda lida de forma aversiva em relação à morte. Evitamos falar a respeito e tratamos o tema como mórbido. Isso impede crianças de conhecer os rituais fúnebres e idas a cemitérios ou homenagens póstumas. Não oferece espaço psicoeducativo que ressignifique o tabu e a precariedade de recursos para lidar com a morte”. 

13. Quando é o momento certo para buscar ajuda profissional para uma criança que está lidando com a perda? 

“Não existe uma demarcação sobre momento certo. Há alterações comportamentais, como exemplificado acima. Momento que deve ser conduzido não como doença ou fragilidade. Busca de amparo e desenvolvimento de mais recursos para lidar com os desafios das frustrações, dores, perdas e luto”, concluem os especialistas.  

‎‎14. O que é a síndrome do irmão sobrevivente? 

Eduardo e Gláucia também enfatizam um tipo de luto que, embora não exclusivo das crianças, é particularmente comum entre elas: a síndrome do irmão sobrevivente.  

“Esse tema se destacou em nossos grupos de apoio e merece atenção especial. A pessoa que perde um irmão ou uma irmã por morte, apresenta, quase sempre, um sofrimento múltiplo: pela perda do irmão; pela percepção do sofrimento dos pais; pela possível diminuição da atenção dos pais, envolvidos com seu próprio luto e com os cuidados operacionais do óbito do filho; pela dúvida sobre se a intensidade do sofrimento dos familiares seria a mesma se ele tivesse morrido no lugar do irmão ou da irmã.  

Os sinais e os sintomas mais prevalentes dessa síndrome são: sentimento de culpa pelos conflitos eventualmente vividos com o irmão ou com a irmã; sensação de estar perdendo a atenção dos pais; a fantasia de que se fosse ele o falecido, seus pais não estariam sofrendo tanto assim; o desafio de perfeição que se impõe, quando assume cuidar dos pais e não fazer nada que possa magoá-los ou potencializar a dor pela perda do irmão ou da irmã.  

Um comportamento comum que agrava ainda mais esse sofrimento são frases ditas como ‘Se fosse seu irmão ele não faria isso’ ou ‘sua irmã jamais deixaria que isso acontecesse’. Deve-se alertar aos pais, outros familiares e amigos para evitar essa comparação, no mínimo injusta, mas muito frequente, entre o falecido, quase sempre idealizado como perfeito e que, com certeza, não fará nada inadequado e o filho sobrevivente, que continua com suas imperfeições humanas”. 

Você pode conhecer mais sobre luto infantil nas redes sociais dos especialistas Eduardo @tavareseduardocarlos e Gláucia @glauciatavares.Psico  

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