Ao conviver com duas gatinhas completamente diferentes, aprendi diversas lições sobre relacionamento, personalidade e a importância do espaço pessoal.
Eu convivo com duas gatas, a Bethânia de 9 anos e a Kali de 3 anos. Quando fui morar com minha companheira, ela já tinha a Bethânia há 5 anos, que não gostou de uma estranha invadindo o seu espaço espalhando seu cheiro por tudo quanto é canto.

No começo, eu tinha medo da Bethânia, porque ela tinha fama de gata arisca e briguenta, além de uma cara de pouquíssimos amigos. Lembro que, por vezes, se a Bethânia estava no corredor, passar por ali era uma espécie de batalha, ou eu me esquivava, ou era atacada.
Aos poucos, ela foi se adaptando com o fato de vivermos juntas. O tempo, a necessidade de permanecer em casa, vide a pandemia, e as minhas tentativas incessantes de me tornar amiga dela foram trazendo resultados.
Eu forcei até que a Bethânia cedeu. Mas, hoje, acredito que faltou um pouco de respeito da minha parte. Aqui era a casa dela. Os felinos possuem rotinas e são muito territorialistas. Eu não só “invadi” o espaço dela, como trouxe toda uma dinâmica diferente para a casa que compartilhamos e tomei um pouco da atenção que, até então, era só para ela.
Não contente, ainda resolvi adotar outra gatinha, a Kali, que chegou aqui em casa com um mês de vida. No começo, ficamos apavoradas com a reação que a Bethânia teria. Ela não gostou muito, como era esperado, mas para nossa surpresa, poucas semanas depois elas já estavam dividindo os mesmos espaços sem problema algum.

Anteriormente, Bethânia conviveu com uma pessoa que não gostava de gatos e a trancava em um cômodo da casa, além de ter sido desmamada muito cedo. Também descobrimos que ela tem um problema na coluna e que, às vezes, seu mau-humor é sinônimo de dor. Criamos um estereótipo, ou um contexto, para tentar entender melhor sua personalidade tão forte.
Antes, a Bethânia se escondia ou atacava sempre que alguém diferente aparecia por aqui. Uma amiga tem rancor até hoje dela porque a Bethânia a mordeu enquanto ela dormia. Com a chegada da Kali, eu senti que a Bethânia se tornou mais amigável. Na minha percepção, ao ver a Kali superconfortável comigo, ela entendeu que eu era de confiança e não faria mal a elas.
Estabelecer uma relação com um felino requer paciência e respeito. Já é sabido que gatos podem desenvolver laços afetivos com seus tutores, demonstrando afeto, proteção e cuidado.

Para a Kali não tem tempo ruim, sempre é hora de fuçar alguma coisa e comer alguma planta que ela não pode. Kali faz amizade com qualquer pessoa que aparece por aqui e de alguma forma ajudou a Bethânia a ser mais sociável. Elas brigam e não é sempre que estão juntas. Mas hoje, a Bethânia se sente mais confortável em dividir o mesmo espaço com pessoas que ela não conhece. Vez ou outra as duas dormem juntas, principalmente quando está frio e, pasmem, eu já consigo pegar a Bethânia no colo.
Eu aprendi e aprendo muito com as duas. A Kali não tem medo de nada, a não ser da chuva que a faz se esconder embaixo do fogão. Ela é companheira, até demais, e está sempre nos nossos pés. Sempre que eu espirro, ela mia como quem diz “saúde!”. Ela gosta de desbravar a casa e caçar todos os grilos que aparecem por aqui. Tadinhos, eu tento salvá-los, mas às vezes é tarde demais. A Bethânia, apesar de mais séria, é também a mais falante. Ela é intuitiva e prefere ter seu próprio espaço. Ela demonstra seu amor de um jeito não convencional com o “ron ron” mais alto da casa.
Com a Kali, eu aprendi sobre me importar menos, sobre não ter medo e ser amável de um jeito não convencional. Com a Bethânia, eu aprendi sobre dar espaço, ter paciência e confiar no tempo. A Kali me lembra a Princesa Caroço e a Bethânia me lembra a Marceline*.
Os gatos são mais sutis em suas interações. Entendi que o respeito mútuo é essencial nesse relacionamento. Os felinos no geral valorizam a autonomia e, ao respeitar seu espaço e tempo, fortalecemos nossos laços de confiança.
Cada gato possui uma personalidade própria, assim como nós humanos. Alguns são extrovertidos, curiosos e sociáveis, como a Kali, enquanto outros podem ser mais reservados e independentes, como a Bethânia.

Conviver com gatas de personalidades distintas me ensinou a apreciar a diversidade delas. Assim como nós, elas têm sentimentos, preferências e reações individuais a diferentes estímulos. A convivência com as minhas gatas transformou-se em uma rica troca de experiências e aprendizado. Eu me tornei uma pessoa gateira que passa horas vendo vídeos de gatinhos na internet, que assiste a documentário sobre gatos e acha eles fascinantes.
*Princesa Caroço e Marceline são personagens da animação Hora de Aventura.






