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Que lições devemos tirar de eventos extremos como as inundações do Rio Grande do Sul? 

Por FTD Educação

Estimativa de leitura: 12min 44seg

21 de junho de 2024

De cidades insustentáveis às mudanças climáticas, as catástrofes recentes revelam as necessidades de mudança de rumos das nossas sociedades. Saiba quais lições aprender como as inundações do Rio Grande do Sul. 

As intensas chuvas que assolaram o Rio Grande do Sul, causando inundações recordes, começaram no dia 27 de abril (2024) e ganharam força no dia 29 do mesmo mês. Trinta dias após o início dos temporais, a Defesa Civil registrava que cerca de 629 mil pessoas tiveram que sair de suas casas, 169 perderam suas vidas e 44 estavam desaparecidas. No total, 2,3 milhões de pessoas foram afetadas pelo evento extremo. 

Na primeira quinzena de chuvas fortes, quase todas as estações (44 de 45) do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) com dados pluviométricos do Rio Grande do Sul registraram aumento de chuvas em relação aos anos anteriores.  

A maior parte das estações apontava o dobro ou mais, em relação à média histórica de chuvas no período. Em Porto Alegre, capital do estado, os volumes de chuva foram os maiores já registrados, considerando medições desde 1916. 

Impactos em todo o estado 

Dos 479 municípios gaúchos, 473 foram afetados, sendo que as áreas mais impactadas pelos escorregamentos, deslizamentos de encostas, deslocamentos de rochas, inundações, enxurradas e enchentes foram a Região Hidrográfica do Guaíba — compreendendo os vales do rio Pardo e dos rios Sinos, Caí, Gravataí e Jacuí, que desembocam no Guaíba — e também a Região Hidrográfica das Bacias Litorâneas, que recebe as águas do Guaíba na Laguna dos Patos.  

Reprodução: Atlas socioeconômico Rio Grande do Sul

Essas regiões hidrográficas concentram uma grande quantidade de municípios em regiões de margem e vales de rios, como Porto Alegre (Guaíba), Canoas e Novo Hamburgo (Sinos), Pelotas (Patos), Santa Cruz do Sul (Pardo) e Lajeado (Taquari).  

A intensa ocupação demográfica, próxima aos cursos d’água e em áreas de baixa altitude, geralmente cercadas por áreas mais altas de morros e com baixa cobertura vegetal, torna essas cidades suscetíveis aos impactos gerados pelo alto índice pluviométrico.   

As características físicas desses locais também geraram maior vulnerabilidade a movimentos de massas em encostas e fortes enxurradas, pois a chuva que precipita em regiões de nascentes — como a Serra e os Campos de Cima da Serra — ganha força e volume à medida em que vai se somando aos demais rios e afluentes. 

Reprodução: Atlas socioeconômico Rio Grande do Sul

População pobre e negra é a mais afetada 

Ainda que as fortes chuvas tenham atingido quase a totalidade do estado, é importante registrar também que nem todos sofrem da mesma forma. Como tem sido uma constante nesses eventos climáticos extremos, há um recorte socioeconômico e racial no impacto da tragédia, sendo a população pobre e, sobretudo, negra a mais afetada.  

Segundo estudo do Observatório das Metrópoles, na região metropolitana de Porto Alegre 31,1% das unidades territoriais de mais baixa renda foram afetadas, enquanto entre as unidades de mais alta renda foram 15,3%.  

Na cidade de Canoas, uma das mais devastadas pelas chuvas, 61,4% dos setores mais pobres foram afetados. São essas áreas que também abarcam favelas e vilas, que concentram números expressivos de população negra.  

Os bairros de Mathias Velho, em Canoas; Santos Dumont, em São Leopoldo; Santo Afonso, em Novo Hamburgo; Santa Rita em Guaíba; além de Rubem Berta, Sarandi e Humaitá, em Porto Alegre; são importantes exemplos dessa condição precária e vulnerável. 

Ao contrário de grande parte dessas áreas, onde não há sistemas de proteção a enchentes e inundações, alguns bairros de renda mais alta da capital, como Menino Deus e Cidade Baixa, apenas teriam sido inundados em função de falha no sistema de contenção das águas.  

Reprodução: Atlas socioeconômico Rio Grande do Sul

A desigualdade com que os impactos atingem os diferentes segmentos da população evidencia a necessidade de reconstruir as cidades atingidas a partir de novos parâmetros sociais e geográficos, ou seja, que combinem tanto uma análise da frequência cada vez maior de eventos extremos, mas também que repensem os moldes de desenvolvimento urbano, entendendo, por exemplo, que os mais pobres são os mais vulneráveis em situações dessa natureza, e essa vulnerabilidade se expressa tanto na forma de lidar com os eventos, como em relação às suas consequências. 

Veja a relação entre renda e áreas alagadas na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA)

Reprodução: Observatório das Metrópoles

As enchentes e a composição étnico-racial do território. Reprodução: Observatório das Metrópoles

Combinação de elementos climáticos 

Analisar as origens dos eventos que atingiram o Rio Grande do Sul exige entender as relações entre as condições urbanas e socioeconômicas, mas também as condições físicas, como o relevo e o clima.  

Do ponto de vista climático, o Rio Grande do Sul está localizado em uma região subtropical, onde ocorre o encontro entre sistemas polares, carregados de ar frio, e sistemas tropicais, mais quentes. Durante o episódio das inundações de 2024, houve uma combinação inédita de fatores que ajudam a entender o contexto do evento. 

Nos meses de abril e maio é comum a entrada de massas de ar frio no estado, que se dispersam para outros locais. Porém, desta vez, houve uma espécie de bloqueio atmosférico à dispersão desse ar frio em função da forte onda de calor que estacionou por dias uma massa de ar quente e seco, provocando altas históricas das temperaturas em grande parte do país, especialmente no Sudeste e Centro-Oeste. Ao mesmo tempo, um corredor de umidade deslocou-se da Amazônia e, em função da barreira geográfica da cordilheira dos Andes, também chegou ao estado gaúcho.  

Tais elementos combinaram-se à ocorrência do El Niño, fenômeno atmosférico-oceânico no qual o aquecimento anormal das águas do Oceânico Pacífico provoca diversos impactos climáticos ao redor do mundo. Instalado desde junho passado (2023), potencializou eventos como a seca extrema na Amazônia, as ondas de calor com atraso da regularidade das chuvas de verão em todo o Centro-Oeste e Sudeste, além das chuvas excessivas no Sul. 

Mudança no comportamento das chuvas 

Apesar da combinação de fatores, o aumento das chuvas entre o fim de abril e o fim de maio, embora inédito em intensidade, não pode ser considerado como imprevisível ou excepcional. Em audiência pública realizada na Câmara Municipal de Pelotas, em junho de 2022, o ecólogo e professor da FURG, Marcelo Dutra da Silva, alertava:  

“O comportamento das chuvas mudou. Eu tenho feito um levantamento e já percebi que de 2013 pra frente, nós temos um acumulado de precipitação no mês de mais de 300 mm. A minha pergunta é: o que nós, por exemplo, na Defesa Civil, temos programado para prever essas possibilidades? Em algum momento, vamos começar a ver [enchentes] em áreas em que a água não chegava com tanta frequência e vamos lembrar disso que estamos falando aqui.” 

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a quantidade de dias com extremos de precipitação, acima de 50 mm, vem crescendo a cada década desde o início da série histórica, em 1961. De 29 dias com precipitação elevada na década de 1960, passamos para 44 dias, na década de 2000, e posteriormente a 66 dias, na década de 2010.

A tendência de aumento nos índices pluviométricos já havia sido verificada em tempos recentes no Rio Grande do Sul. Em 2015 e 2023, fortes chuvas atingiram o estado.  

Reprodução: UFRGS

Assista ao vídeo: Eventos climáticos e expropriação: Rio Grande do Sul 2024, o que a Geografia tem a dizem?

Mudanças Climáticas 

Em 2015, um relatório encomendado pelo governo federal chamado “Brasil 2040: cenários e alternativas de adaptação à mudança do clima” já apontava a tendência de aumento das chuvas no Sul do país, notando que ela seria uma das muitas possíveis consequências do avanço das mudanças climáticas globais em curso, provocadas pela dinâmica produtivista mundial, ainda sustentada na exploração desenfreada de recursos naturais e na queima de combustíveis fósseis. 

As mudanças climáticas decorrentes do aquecimento global corroboram os indicadores apontados há décadas pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), apontando cenários ora imprevisíveis ora devastadores para o ambiente, a sociedade e a economia. Esses cenários indicam diminuição do tempo de recorrência de eventos extremos, aumento de sua duração, intensidade e área de abrangência, além da imprevisibilidade de sua ocorrência. 

A mudança no padrão de chuvas e a incidência de eventos climáticos extremos não é, portanto, algo particular ao Rio Grande do Sul ou ao Brasil. No mesmo mês de maio, por exemplo, Quênia, Burundi, Tanzânia e Somália sofreram com chuvas intensas. Assim como no Brasil, as condições precárias socioeconômicas e raciais ampliaram diretamente o impacto desses eventos sobre a população.

Nas últimas duas décadas, o número médio de mortes causadas por inundações na África é quatro vezes maior do que na Europa ou na América do Norte, e cerca de 70% da população é afetada pelo menos uma vez a cada dois anos por eventos como inundações e secas. Segundo o IPCC, a população de periferias globais morre 15 vezes mais por eventos climáticos extremos e o número de pessoas expostas a secas e inundações em cidades deve dobrar até 2030. 

Cidades despreparadas 

O desequilíbrio provocado pelas mudanças climáticas impacta diretamente a vida das pessoas, modifica a geração de energia, causa perdas na produção alimentar, pressiona a economia e o consumo, além de ampliar a situação de vulnerabilidade, especialmente entre os mais pobres. Esse é um ciclo particularmente agravado pelos modelos de produção econômica e de urbanização pautados pela desigualdade econômica e social.   

O exemplo gaúcho é emblemático. As inundações sem precedentes são explicadas também pela falta de resiliência da estrutura urbana. Parte fundamental das obras previstas em estudos feitos após a grande inundação que atingiu a cidade de Porto Alegre em 1941 foram ignorados, assim como pesquisas mais recentes

Houve transbordamentos de diques de contenção, rompimentos de barragens e falhas em bombas de sucção. O sistema antienchentes falhou por falta de manutenção. Não houve investimentos em prevenção de inundações, o Departamento Municipal de Água e Esgoto passou por um processo de pesado desfinanciamento e os avisos de evacuação chegaram horas após o desligamento das bombas. A falta de preparo, de investimentos e, principalmente, o descaso com as mudanças climáticas em curso custou muito para a população e para o Rio Grande do Sul, de modo geral. 

Para além dos problemas decorrentes de um modelo de urbanismo que não prioriza a construção de cidades menos desiguais e mais sustentáveis, a própria lógica de uso e ocupação do solo no Rio Grande do Sul, assim como em outros estados e cidades do Brasil, é algo para ser problematizado e repensado.  

A maior parte da cobertura vegetal dos biomas do estado que poderia servir nas margens de corpos d’água e áreas de encosta como mecanismos naturais de contenção foi retirada. Em seu lugar, ou foram implantados sistemas agropecuários ou foram construídas grandes cidades, sem qualquer previsão de mecanismos de permeabilidade às chuvas. A isso soma-se a desfiguração de leis ambientais e a prevalência de iniciativas imobiliárias predatórias ao meio ambiente. 

O que fazer após o desastre das inundações no Rio Grande do Sul? 

A rede nacional de solidariedade que se formou após a tragédia no Rio Grande do Sul foi fundamental para salvar vidas e auxiliar aqueles que perderam absolutamente tudo.  

São muitos os exemplos de pessoas envolvidas em resgates de pessoas e animais, em estruturação de abrigos, em construção de estruturas de emergência, em organização de cozinhas solidárias e em composição das mais diversas brigadas de solidariedade para distribuir doações. 

Porém, o desafio da reconstrução das cidades atingidas é algo sem precedentes no Brasil. A demanda por recursos está sendo parcialmente respondida, entre várias outras iniciativas do executivo, pela suspensão da dívida do Estado, que drenava recursos para o sistema financeiro. Associado a isso, há uma série de outras propostas parlamentares que buscam estabelecer novas diretrizes para lidar com a emergência climática. 

Neste momento, a pergunta mais importante não é se as cidades serão reconstruídas, mas como essa reconstrução será planejada e realizada. É fundamental aprender com o passado para que a reconstrução seja guiada por novos padrões de desenvolvimento, visando produzir cidades sustentáveis, mais igualitárias, justas e que considerem a urgência da mudança climática.   

Propostas e exemplos para a construção de cidades sustentáveis são variados. Há políticas fundamentais de governanças de bacias hidrográficas que implementem soluções possíveis, como reflorestamento e pisos permeáveis. 

É possível modificar os planos diretores estratégicos das cidades para conter a especulação imobiliária e pensar em um desenvolvimento urbano que garanta direito à cidade por meio da garantia de moradias de interesse social em áreas mais providas de infraestrutura, evitando a ocupação em áreas de maior risco, como encostas de morros e várzeas de rios.  

Também é necessário criar uma cultura náutica que entenda os rios não apenas como uma paisagem para valorizar imóveis, mas como parte fundamental do desenvolvimento humano, considerando, por exemplo, os modos de vida tradicionais dos ribeirinhos e caiçaras. 

A oportunidade de corrigir os rumos predatórios com os quais as nossas cidades têm sido construídas está colocada. 

Evidentemente, uma solução concreta e duradoura também deve estar articulada com medidas que combatam os problemas do modelo de desenvolvimento que produziu a emergência climática, isso envolve, por exemplo, mudar a matriz energética, regular o desenvolvimento econômico, desenvolver medidas protetivas para as florestas, combinar justiça ambiental e justiça social, entre outras iniciativas.  

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