A primeira lembrança que tenho de mim mesmo é ao lado do meu irmão, Benny. Eu me lembro de estarmos deitados na cama dos nossos pais e que eu segurava uma pequena cartilha que tentava ler em voz alta. Eu me lembro que sorria, que me encantava com aquelas letras desconhecidas e que me divertia tentando ensinar o meu irmão, cinco anos mais velho, a ler e a falar. Ele nunca aprendeu a ler e a falar, não da forma convencional.
Eu me lembro que a minha cama e a cama do Benny faziam um L e que dormíamos com os pés unidos. Eu me lembro que um dia, com medo, passei a colocar o travesseiro do meu irmão na minha cama para que a gente dormisse com as cabeças coladinhas. Ele não entendia o motivo — eu o enganava dizendo que seria mais confortável. Como sempre aconteceu, ele me ouviu, aceitou e então passamos a dormir assim. Benny, sem saber, me protegia dos sustos e dos perigos da vida.
Crescemos, e quem passou a tentar protegê-lo fui eu. Resguardá-lo dos olhares estranhos e dos medos que as outras pessoas sentiam pela sua “diferença”. Quando jovem, eu sempre estava pronto para dar “uma voadora” caso alguém fizesse algo com ele. Caso alguém o destratasse, discriminasse ou fosse rude. Nunca dei uma voadora, mas inúmeras vezes percebi olhares que me magoavam. E talvez magoassem o Benny também, mas ele relevava e seguia com suas invenções.
Benny gosta particularmente do contato com as crianças. Ele se sente mais próximo delas. Quando jovem, ele se aproximava dos nossos primos e tentava ensinar-lhes a sintomática e única palavra que ele conseguia articular: “mama”. Os anos se passaram, os primos tiveram filhos – o Benny tem um carinho especial por eles –, mas desistiu de ensinar o famoso “mama”. Talvez isso tenha acontecido porque o Benny virou um “senhorzinho”, e o contato com as crianças e com os pais delas cause certo desconforto.
Em Benny, o inventor, conto de forma divertida a história de um dia em sua vida. Suas invenções, truques e “lógicas” para se comunicar e se inserir nesse mundo tão cheio de diferenças. Eu queria homenagear o meu irmão; fazer com que ele se sentisse orgulhoso e feliz ao ter sua história conhecida. Tenho certeza de que fomos bem-sucedidos; sempre alguém comenta do livro e não tem um dia em que o Benny não pega um dos exemplares e dá um beijo gostoso na sua ilustração!
Mas a literatura, como sempre estudei na teoria, tem alcances que a gente nem imagina.

Na semana que passou, fomos convidados para participar da Feira Literária da Escola Municipal Levindo Coelho, em Belo Horizonte; esse foi o primeiro trabalho remunerado de Benny. Algumas vezes, ele manifestou certo receio, me mostrando que “não sabia falar”. Eu dizia que, apesar de ele não ser oralizado, não conhecia ninguém que se comunicasse melhor que ele. Ele ria, aceitava, mas depois retomava o assunto. Ele estava com medo e, assim como ele já havia me protegido, eu estava pronto para protegê-lo.
Os professores e os alunos já tinham lido o livro, e logo que entramos na escola, vimos umas duas dezenas de crianças na porta da biblioteca. Quando as crianças nos olharam, todas elas arregalaram os olhos e começaram a gritar: “É o Benny! É o Benny!”, e correram com a alegria de quem se dá conta de que o herói, tão inventado e sonhado nas páginas dos livros, é realidade (os alunos do 3º ano comentaram que ficaram surpreendidos e alegres por Benny existir de verdade). As crianças, que só o “conheciam” pelas lindas ilustrações do Lalan Bessoni, cercaram meu irmão e começaram a abraçá-lo, beijá-lo e a perguntar sobre sua vida, criações e brincadeiras.
No começo, Benny não entendeu o que estava acontecendo – confesso que eu também não. Afinal, estávamos acostumados aos olhares de estranhamento e medo. Mas aquele momento, único e inédito, era só carinho, cuidado e amor.
Fomos para o ginásio e mais umas oitenta crianças fizeram perguntas e beijaram o Benny. Elas nos deixaram com a certeza de que conhecer e empatizar com a história de alguém rompe preconceitos e paradigmas. Foi uma felicidade que não conseguimos colocar em palavras. Talvez um dia o Benny possa inventar um gesto para mostrar como é ser recebido com amor e carinho infinitos.








