A PONTE ENTRE ESCOLA E FAMÍLIA
Educador

A ponte entre escola e família: parcerias necessárias para uma educação comprometida com a infância

Por Gilvania Porto

Estimativa de leitura: 10min 28seg

16 de setembro de 2025

“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.” (Provérbio tradicional africano) 

Diz um antigo provérbio africano que educar uma criança é tarefa de toda uma aldeia — uma imagem potente que nos convida a pensar na Educação como um compromisso coletivo. No contexto da Educação Infantil, essa ideia ganha ainda mais sentido: o vínculo entre escola e família precisa ser cultivado com intencionalidade e sensibilidade, pois é na união de saberes, práticas e afetos que se constrói o percurso formativo dos meninos e meninas desta etapa. Quando escola e família caminham juntas, tornam-se partes vivas dessa aldeia que acolhe, orienta e fortalece os primeiros passos dos pequenos. 

Além disso, é nesta etapa da vida que se constroem as primeiras relações de coletividade. Assim, esse elo precisa ser ainda mais intencional e sensível, pois é nesse período que se estabelecem as primeiras referências de convivência, cuidado, solidariedade, respeito e aprendizagem. 

A Educação Infantil, por sua natureza, exige que cuidado e Educação sejam pensados como dimensões indissociáveis, e esse cuidado não pode ser assumido exclusivamente pela escola ou pela família. É nesse contexto que se delineia a importância da parceria: compartilhada, construída com escuta, confiança e presença. Como afirma Monção (2015), compartilhar a Educação da criança entre profissionais e famílias é um elemento-chave para a constituição de uma Educação Infantil democrática e de qualidade. 

A construção de vínculo afetivo

Desde o primeiro contato da criança com a escola, inicia-se também um processo de aproximação com sua família. Conhecer os hábitos, as histórias, os medos e as alegrias das crianças passa, inevitavelmente, por escutar aqueles que as acompanham fora do espaço escolar. Nesse sentido, criar instrumentos de aproximação — como encontros prévios, escutas individuais, rodas de conversa — fortalece vínculos, permite que a professora compreenda melhor o contexto de cada criança e construa um ambiente mais justo e sensível. 

Essas práticas revelam-se fundamentais não apenas para planejar o cotidiano, mas para legitimar a presença das famílias no espaço escolar. A escuta — atenta, ética, sem julgamentos — é o que possibilita compreender diferentes visões sobre infância, muitas delas ainda marcadas por experiências escolares tradicionais e pouco alinhadas às abordagens contemporâneas. 

Hoyuelos (2021), ao citar Malaguzzi, nos lembra que participar é sentir-se protagonista. As famílias precisam sentir-se parte do processo educativo, e isso exige da escola abertura, acolhimento e clareza nas intenções. 

Participação consciente: entre diálogo, escuta e protagonismo 

A construção da confiança entre família e escola não é automática. Como mostra Maranhão (2008), ela emerge no tempo, no diálogo constante, na troca de olhares e saberes. Não se trata de informar às famílias, mas de construir com elas. Parceria implica presença, implica escuta recíproca, implica em saber distinguir o que é papel da família e o que é papel da escola. 

Reuniões individuais (como anamneses iniciais), momentos de acolhida, encontros formativos e partilhas pedagógicas são algumas das estratégias que potencializam esse vínculo. Cada uma delas deve carregar intencionalidade e sensibilidade, considerando a singularidade de cada grupo familiar.

As perguntas que orientam essas conversas precisam ir além da burocracia, e convidar à escuta verdadeira: “Como é seu filho?”, “O que ele gosta de fazer?”, “Como reage quando está triste ou feliz?”, “Como se relaciona com outras crianças?”, “Com quem divide o espaço de casa?”. Essas pequenas perguntas abrem grandes portais para o entendimento da criança em sua complexidade. 

Criar espaços de vivência e sentido

A escola deve ser um lugar de vivência plural, onde todas as famílias — com suas histórias, formações, composições e culturas — se sintam pertencentes. Para isso, é necessário construir espaços de convivência que respeitem a diversidade e fortaleçam o senso de comunidade. 

Há muitas possibilidades para isso: encontros com especialistas, rodas de conversa temáticas, oficinas, mutirões para construção de ambientes escolares, eventos culturais e pedagógicos. Também é possível envolver as famílias em momentos cotidianos, como participar de uma roda de leitura, compartilhar uma receita ou desenvolver uma proposta junto com a turma. 

É preciso ir além dos eventos pontuais. A presença da família na escola deve ser cotidiana, naturalizada, construída com afeto e clareza de propósito. Como afirma Szymanski (2009), uma relação de respeito mútuo favorece o sentimento de confiança e fortalece o pertencimento. 

Um cuidado partilhado, uma escola em comunhão

“A aprendizagem não é apenas um processo cognitivo é também afetivo” (Vigostsky)

Essa afirmação de Vygotsky nos convida a compreender que educar uma criança não se resume à transmissão de conteúdos ou ao desenvolvimento de habilidades cognitivas. Envolve, sobretudo, a construção de vínculos, o acolhimento das emoções e a presença sensível dos adultos que cuidam e ensinam. Na Educação Infantil, o cuidado partilhado entre escola e família ganha um papel fundamental: é no afeto, na escuta e na confiança mútua que se consolida uma escola em comunhão — um espaço que educa com o coração, que reconhece a criança como sujeito de direitos e que constrói, junto com as famílias, um cotidiano rico em experiências significativas. 

Reconhecer a criança em sua integralidade é compreender que sua formação não pode ser responsabilidade exclusiva da escola, nem tampouco da família. É um compromisso coletivo, sustentado pela escuta, pelo respeito à singularidade e por práticas que integrem e não afastem. 

A escola deve, portanto, orientar, acolher, propor. Mas também ouvir, ajustar, aprender. É nessa troca viva que se constrói uma Educação coerente com os princípios de uma pedagogia da escuta, do acolhimento e do respeito às múltiplas infâncias. 

Barbosa (2010) lembra que o envolvimento das famílias pode acontecer de diversas formas, mas o fundamental é que elas se sintam valorizadas e legitimadas em seu papel parental. Para isso, cada convite precisa ter sentido, cada encontro deve proporcionar troca e cada escuta deve gerar pertencimento. 

Dicas para construir na escola um espaço de partilha e diálogo com as famílias  

Ao longo do texto, sugeri algumas possibilidades de ações que podem ser desenvolvidas em sua escola como forma de fortalecer e potencializar os laços entre escola e família, e legitimar a escuta atenta e cuidadosa com os anseios e necessidades da comunidade escolar. 

Sugiro mais algumas possibilidades de encontros a seguir: 

1. Caderno ou diário de troca (comunicação afetiva): Criar um caderno de comunicação mais afetivo e dialógico, onde professores e famílias possam relatar pequenos acontecimentos do cotidiano da criança, observações sensíveis, avanços e curiosidades. Mais que recados administrativos, esse espaço valoriza a criança como sujeito e estreita o olhar compartilhado sobre sua trajetória. Caso sua escola possua ferramentas digitais, isso também pode acontecer usando a tecnologia.  

2. Projetos de escuta das infâncias com devolutiva para as famílias: Envolver as crianças em projetos de escuta (por exemplo, “O que gosto na escola”, “Quem cuida de mim?”, “Minha casa, minha história”) e apresentar os resultados às famílias em encontros ou painéis. Isso aproxima as famílias das vozes das crianças e fortalece vínculos a partir das próprias experiências infantis. 

3. Convidar familiares para compartilhar saberes e fazeres: Valorizar os conhecimentos que as famílias carregam: cozinhar, contar histórias, cuidar de plantas, bordar, cantar, trabalhar com ferramentas… A escola pode abrir espaço para que familiares venham compartilhar com as crianças algo de sua cultura, fortalecendo o pertencimento e a valorização da diversidade. 

4. Caminhadas no território com participação das famílias: Organizar pequenos percursos pelo entorno da escola com a presença de familiares — seja para observar a natureza, conhecer comércios locais, visitar espaços públicos ou apenas olhar o bairro com outros olhos. Esse tipo de vivência ressignifica o território e incentiva o sentimento de comunidade. 

5. Mural da presença das famílias: Criar um espaço físico ou virtual onde se registre com fotos, frases ou bilhetes a presença das famílias nos diferentes momentos da vida escolar. Isso ajuda a visibilizar a parceria e reforça a ideia de que a escola é construída a muitas mãos. 

6. Encontros temáticos mediados por literatura infantil: Promover encontros com famílias a partir da leitura de livros infantis. O livro pode ser o ponto de partida para rodas de conversa ou pequenos grupos de troca, criando um clima acolhedor e reflexivo. Você pode desenvolver um encontro onde pessoas de várias famílias contam histórias, de diferentes modos, para as crianças da escola em forma de rodízio.  

7. Grupos de escuta e acolhimento familiar: Oferecer momentos periódicos em que os responsáveis possam conversar entre si, mediados por um profissional da escola, sobre os desafios da parentalidade, a infância, os afetos e as angústias do cotidiano. Esse espaço não precisa ser técnico — apenas humano e presente. Um espaço de escuta e partilha, em que todos possam se fortalecer e se apoiar na missão de educar seus filhos com amor e limites.  

8. Festas e rituais com significado coletivo: Celebrar mudanças de estação, conquistas das crianças, ciclos da vida escolar ou datas significativas para a comunidade local. Evite datas comerciais e crie celebrações com sentido e participação ativa das famílias, como festas das culturas, feiras das infâncias ou celebrações da colheita (caso haja hortas, por exemplo). 

Para concluir: Uma escola que escuta e caminha junto

Fortalecer a relação entre escola e família é reconhecer que a Educação não se faz de forma solitária. Trata-se de um compromisso coletivo, sustentado pelo diálogo, pela escuta atenta e pelo respeito às singularidades de cada criança e de cada núcleo familiar. 

Quando a escola se abre verdadeiramente à participação das famílias, cria-se um ambiente mais potente para o desenvolvimento infantil — um espaço onde o cuidado e a aprendizagem caminham juntos, onde as vozes da comunidade escolar são ouvidas, e onde todos, juntos, podem refletir, crescer e transformar. 

Educar na perspectiva de uma infância plena, respeitada e acolhida exige coragem para romper com modelos tradicionais e construir, no cotidiano, uma escola que se entende como parte de uma comunidade. Uma escola que compreende que a presença das famílias não é acessório, mas parte essencial de sua identidade pedagógica. 

Que cada educador e educadora possa cultivar esse vínculo com generosidade, intencionalidade e afeto, reconhecendo na parceria com as famílias não um desafio, mas uma possibilidade viva de transformar a escola em um verdadeiro espaço de comunhão — onde todos se sintam pertencentes à aldeia que educa, cuida e acredita nas infâncias. 

Referência Bibliográfica 

  • BARBOSA, Maria Carmen Silveira. ANAIS DO I SEMINÁRIO NACIONAL: CURRÍCULO EM MOVIMENTO – Perspectivas Atuais: Especificidades da ação pedagógica com os bebês. Belo Horizonte, novembro de 2010, p. 6 e 7. 
  • HOYUELOS, Alfredo. A Ética no pensamento e na obra pedagógica de Loris Malaguzzi. São Paulo: Phorte, 2021. 
  • MARANHÃO, D. G.; SARTI, C. A. Creche e família: uma parceria necessária. Cadernos de Pesquisa, v. 38, n. 133, p. 171-194, jan./abr. 2008. 
  • MONÇÃO, M. A. G. O compartilhamento da educação das crianças pequenas nas instituições de Educação Infantil. Cadernos de Pesquisa, v. 45, n. 157, 652-679, 2015. 
  • PROVÉRBIO africano. “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. In: XAVIER, Maria. Educar em comunidade. São Paulo: Editora Exemplo, 2020. 
  • SILVA, Nilma Lino Gomes. A escola e a família: uma parceria necessária. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2003. 
  • SZYMANSKI, Heloisa. A relação família /escola: desafios e perspectivas. Brasília: Liberlivro, 2009. 
  • VIGOTSKI, L. S. Imaginação e criação na infância. Tradução Zoia Prestes e Elizabeth Tunes. São Paulo: Expressão Popular, 2018. 
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colunista Gilvania Porto
Mãe em formação, Pedagoga, especialista em Educação Infantil, pela PUC-RJ, Mestre em Educação Básica, pela UERJ, formadora de professores por mais de 30 anos. Busco inspiração em escolas pelo mundo, mas principalmente no Brasil. É Consultora Educacional da FTD Educação, no Rio de Janeiro. leia também Conteúdo formativo Cuidar da Infância em movimento: reflexões sobre […]
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