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Infância entre raízes e ventos: a natureza como território do brincar e do pertencer

Por Gilvania Porto

Estimativa de leitura: 13min 38seg

3 de outubro de 2025

“O quintal de minha casa tinha um muro baixo, e por isso era mais fácil pular para dentro do mundo.” (Manoel de Barros) 

A infância e a natureza compartilham uma mesma essência: ambas são territórios do sensível, do espontâneo, da descoberta e da imaginação. Entender a relação da criança com o mundo natural exige reconhecer que, assim como há uma pluralidade de infâncias, existem também diferentes naturezas. Somos seres de cultura e de natureza, e essa dimensão de pertencimento ao natural foi se perdendo no modo de vida moderno. O desafio agora é reconectar esses elos e resgatar essa conexão vital. 

Entre quintais e lembranças: o chamado da infância à natureza 

As infâncias são plurais, assim como são múltiplas as formas de estar e se relacionar com a natureza. Os seres humanos pertencem a esse mundo natural, mas a modernidade criou uma sensação de distanciamento, como se cultura e natureza fossem opostas. Precisamos, mais do que nunca, restabelecer os laços que nos conectam aos ambientes naturais e, com isso, possibilitar às crianças uma relação mais genuína com o mundo vivo que nos cerca. 

Que memórias você guarda da sua infância junto à natureza? Com o que você brincava? O que era prazeroso, instigante, surpreendente? E as crianças de hoje — ainda brincam na natureza? Ao revisitarmos essas lembranças, especialmente as brincadeiras com terra, água, vento e fogo, despertamos nossa criança interior e, com ela, a capacidade de compreender o encantamento que a natureza oferece. 

As brincadeiras com esses elementos nos ensinavam de forma espontânea e prazerosa a lidar com a vida e com a natureza de forma singular. Por isso, é fundamental que os professores se reencontrem com sua própria infância, lembrando das experiências vividas para compreenderem a potência que existe nesses encontros. 

Esse processo é também essencial, quanto mais sintonizados com suas próprias vivências, mais sentido fará o trabalho pedagógico com as crianças. O modo de vida contemporâneo muitas vezes nos afasta da natureza; portanto, resgatar essa relação dentro de nós é um passo importante para que ela reverbere nas práticas educativas. 

A infância e os elementos do mundo: ar, água, terra e fogo como matéria do brincar 

O convívio com a natureza, na infância, acontece sobretudo por meio do brincar. O direito ao brincar é garantido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), que afirma a importância da liberdade para se divertir, praticar esportes e conviver.

Na prática, muitas crianças têm pouco contato com ambientes naturais, especialmente em grandes cidades. Cabe à escola, portanto, promover essas experiências. Ao brincar com e na natureza, as crianças entram em contato com a vida em sua forma mais pulsante e transformadora. Elas interagem com o mundo, sentem seus ritmos, investigam seus mistérios. Esse brincar é também pesquisa, é exploração, é construção de conhecimento. 

A natureza é um território vasto de experimentação e aprendizagem, tanto para as crianças quanto para as professoras. Stella Barbieri (2012) destaca que todos os espaços são potenciais territórios educativos: florestas, quintais, rios, praças, praias. São cenários que nos convidam a investigar, imaginar e criar. 

O brincar com os elementos naturais é um modo de conhecer o mundo e a si mesmo. Brincar com a água, sentir o vento, pisar na terra, observar o fogo – ainda que em uma vela ou fogueira – são experiências que mobilizam o corpo, os sentidos, a emoção. Segundo o Instituto Alana (2018), o afastamento das crianças da natureza tem gerado impactos significativos em sua saúde física e emocional: obesidade, hiperatividade, baixa motricidade, miopia, entre outros. 

Na perspectiva da Educação Infantil, garantir o direito ao brincar na natureza é também garantir o direito à liberdade. Como previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), brincar e interagir são formas essenciais de viver a infância em sua plenitude. 

O educador e a reconexão com a natureza: o primeiro passo para ensinar com sentido 

Antes de propor experiências com a natureza às crianças, é essencial que o educador se permita também vivê-las. O modo como nos relacionamos com o mundo natural reflete diretamente no olhar que lançamos sobre a infância e suas possibilidades de aprendizagem.  

Na rotina acelerada e fragmentada do mundo moderno, muitos professores também perderam o vínculo com os ambientes naturais, distanciando-se das sensações, ritmos e encantamentos que esse contato pode proporcionar.  

Ao resgatar em si mesmo a memória do brincar livre, do quintal da infância, do cheiro da terra molhada ou do vento no rosto, o educador se abastece de sentido e inspiração. Como nos lembra Barbieri (2012), a natureza é um território vasto de descobertas estéticas e de formação humana.  

Essa reconexão não é apenas um gesto de autocuidado, mas um movimento ético e político que fortalece a intencionalidade pedagógica e sustenta a construção de propostas significativas. Ao se abrir à escuta sensível da natureza, o professor amplia seu repertório, aprofunda sua escuta e se torna mais disponível para guiar as crianças em experiências que dialoguem com o mundo e com a vida. 

A escola como território de reaproximação com a natureza 

A escritora e educadora Stella Barbieri (2012, p. 115) nos lembra que “todos os lugares são lugares de aprender. Cidades, florestas, quintais, territórios a serem investigados, com árvores, rios, clareiras, praças e praias”. A natureza, nesses termos, revela-se um manancial para a formação estética e sensível de crianças e adultos.

Contudo, no contexto urbano, é cada vez mais comum que as crianças estejam “emparedadas”, com pouco tempo e liberdade para explorar espaços ao ar livre. O afastamento entre infância e natureza é, como aponta o Instituto Alana (2018, p. 14), uma crise do nosso tempo, com impactos físicos, emocionais e sociais importantes. 

Em contextos urbanos, muitas crianças têm seu cotidiano limitado ao concreto, aos espaços fechados, aos tempos cronometrados. Por isso, a escola assume um papel fundamental como promotora do reencontro com o ambiente natural. Ao favorecer esse contato, contribui para o desenvolvimento integral da criança, oferecendo experiências significativas com os elementos da natureza. 

Brincar na natureza é mais do que uma atividade: é uma vivência transformadora. Em contato com a natureza, a criança se conecta com a vida, com a ancestralidade, com os ciclos da existência. A natureza provoca, inspira, acolhe, desafia. 

A gravidade da redução do tempo ao ar livre na infância foi retratada de forma impactante pela campanha Libertem as Crianças, lançada pela OMO, em 2026. O documentário, filmado na prisão de segurança máxima Wabash Correctional Facility, nos Estados Unidos, revelou que os detentos tinham mais tempo de contato com o espaço externo do que muitas crianças em idade escolar.

A comparação, tão provocativa quanto necessária, convida-nos a refletir sobre como a infância tem sido aprisionada em rotinas excessivamente controladas, distantes do vento, da terra e das raízes que alimentam a experiência de brincar livremente. Para nós, professores da Educação Infantil, esse alerta reforça a urgência de garantir que as crianças tenham a natureza como aliada, território vivo de aprendizagens e pertencimento. Recomendo, inclusive, assistir ao documentário, pela potência com que provoca e sensibiliza para essa causa. 

Natureza como linguagem e imaginação: do chão ao simbólico 

Brincadeiras com terra, lama, folhas, galhos, pedras, sementes e água são fontes inesgotáveis de aprendizado e encantamento. As crianças tocam, cheiram, observam, manipulam, constroem. Fazem tinta com flores, caçam minhocas, exploram formas e texturas. Sobem em árvores, equilibram-se em raízes, correm na grama, mergulham nos elementos com todos os sentidos. Cada experiência é única, rica, vital. Como afirma Renato Noguera, “as crianças veem o extraordinário onde os adultos veem o comum”. 

Gandhy Piorski (2016) afirma que os quatro elementos (terra, água, ar e fogo) habitam o imaginário e dão forma às experiências lúdicas: o fogo evoca paixão e energia; a água, emoções e fluidez; o ar, leveza e expansão; a terra, estrutura e acolhimento. Essa dimensão simbólica do brincar na natureza permite que a criança se expresse de modo profundo e autêntico. 

Parques naturalizados: onde a infância cria raízes 

Uma proposta concreta para aproximar as crianças da natureza na escola são os parques naturalizados. Nesses espaços, elementos naturais como troncos, pedras, plantas e árvores estruturam os ambientes de brincadeira e investigação. Esses espaços promovem experiências sensoriais, motoras e afetivas, ao mesmo tempo que ressignificam os tempos e espaços da infância. Mais do que construir um novo mobiliário, trata-se de transformar a cultura escolar: valorizar o quintal, a sombra da árvore, o cheiro da terra molhada. E convidam às crianças e educadores à interação, ao movimento, à curiosidade, à investigação e a sensibilidade. 

Esses espaços são também um convite à afetividade com o meio ambiente. Quando a criança planta, rega, colhe, investiga insetos, sente aromas, experimenta sabores, ela constrói uma relação de cuidado e pertencimento com a natureza. 

Educar é também cultivar: vínculos, sensações e pertencimento 

O escritor Richard Louv (2016) cunhou o termo “transtorno de déficit de natureza” para destacar os efeitos do afastamento das crianças dos ambientes naturais. Ao promover vivências ao ar livre, a escola também cuida da saúde emocional, da empatia, da escuta e do respeito pela vida. 

A natureza permite que a criança explore, se arrisque, se encante. Ela desafia e acolhe. Ensina. Transforma. Como nos lembra a Revista Jardín Fabulinus (2016), é brincando que a criança aprende a socializar-se, resolver conflitos, cooperar, respeitar o outro, organizar-se – elementos fundamentais da vida em comunidade. 

Ao promover o contato direto com a natureza, a escola planta as sementes da consciência ecológica desde cedo. A vivência com o meio natural permite que a criança compreenda, na prática, o valor da preservação ambiental. Ações isoladas e descontextualizadas, como pintar lixeiras coloridas, não substituem experiências vivas e significativas. O vínculo com a natureza constrói-se com o corpo, os sentidos, a emoção e a imaginação. 

Educar na natureza e com ela é, portanto, um ato político, poético e necessário. Um convite a reaprender com o mundo, a sentir-se parte dele, a cuidar e a celebrar a vida em sua diversidade e beleza. 

Ações práticas e situações educativas que podem ser desenvolvidas na escola com as crianças 

1. Escuta e investigação: o que as crianças sabem e desejam? 

Ação: Roda de conversa inicial e mapeamento dos saberes das crianças sobre a natureza: 

  • Propor uma escuta ativa sobre suas experiências com água, terra, vento, árvores, animais. 
  • Registrar com desenhos, falas, fotografias ou mapas afetivos: “O que tem de natureza onde eu moro?”, “Com o que gosto de brincar lá fora?” 
  • A partir dessas escutas, construir projetos temáticos (por exemplo: “As árvores do nosso quintal”, “Como é feito o barro?” ou “Os bichos que encontramos na escola”). 

2. O ambiente como educador: criar espaços vivos 

Ação: Reorganização dos espaços escolares com as crianças: 

  • Convidá-las a planejar e participar da criação de espaços verdes, hortas, espiral de ervas, minhocários, ou um “jardim dos cheiros”. 
  • Usar materiais naturais na ambientação: troncos, pedras, folhas, sementes, raízes. 

3. Brincar como forma de pesquisa 

Ação: Oficinas de exploração sensorial com os elementos da natureza: 

  • Terra: fazer tintas naturais, modelar barro, construir caminhos de chão. 
  • Água: experimentos de flutuação, sons da água, jogos com recipientes. 
  • Ar: brincar com tecidos ao vento, construir cata-ventos, soltar pipa, bola de sabão, explorar a respiração. 
  • Fogo: fazer uma roda em volta de velas, cozinhar no quintal (chá, pão, milho), assar marshmallow no fogareiro, falar sobre o sol como fonte de calor e vida, construir lanternas com latas e velas, com supervisão de adultos. 

4. Caminhadas investigativas: natureza além dos muros 

Ação: Saídas pedagógicas na vizinhança ou áreas verdes próximas: 

  • Observar os elementos naturais e registrar com desenhos, coletas, diários de campo. 
  • Criar um “museu natural” na escola com o que foi recolhido (sementes, folhas, pedras etc.) e construir narrativas a partir disso. 
  • Explorar com lupa, binóculo, balança, balde — ferramentas simples, mas que convidam à investigação. 
  • Fazer uma pulseira de natureza, usando fita adesiva pelo lado da cola para fora e capturando elementos naturais que estão caídos pelo pátio ou quintal da escola.  

5. Crianças que constroem o mundo 

Ação: Mutirões com famílias e crianças para transformar espaços: 

  • Convidar as crianças a desenhar como gostariam que fosse o quintal da escola. 
  • Planejar coletivamente, com as famílias, pequenos mutirões: plantar árvores, pintar bancos, montar espreguiçadeiras com paletes, criar um “cantinho do silêncio” ou um “laboratório de cheiros”. 
  • Valorizar a participação ativa das crianças em todas as etapas — da ideia à execução. 

6. Natureza como linguagem poética 

Ação: Produções artísticas e literárias a partir da relação com a natureza: 

  • Criar livros coletivos com histórias inspiradas nos elementos naturais. 
  • Promover dramatizações, esculturas com galhos, trilhas sonoras de sons da natureza. 
  • Fazer exposições ou saraus com as produções das crianças, fortalecendo o protagonismo e a expressão autoral. 
  • Construir quadrinhos da natureza com elementos coletados no jardim, e a moldura pode ser feito com papelão reutilizado.  

7. A rotina viva: tempos que respeitam os ritmos da natureza 

Ação: Reconfigurar o tempo escolar para contemplar os ciclos da natureza: 

  • Observar as estações do ano, a fase da lua, os horários da luz. 
  • Criar rituais diários ao ar livre: roda da manhã sob a árvore, pausa da tarde no jardim, caminhada ao redor da escola antes do lanche, lanche nos espaços externos da escola.  
  • Planejar com as crianças a rotina da turma: o que é preciso para cuidar da horta? Quando é tempo de colher? 

Por uma pedagogia que reconheça que somos natureza 

Cultivar uma pedagogia que respeite a diversidade cultural e biológica é também cultivar um mundo mais sensível, justo e conectado com a vida. Reconhecer que somos natureza é reafirmar o compromisso com a formação de seres humanos mais conscientes, criativos e responsáveis. 

Ao oferecer vivências significativas com a natureza desde a infância, plantamos sementes que poderão florescer em adultos mais atentos às questões ambientais, mais comprometidos com o cuidado e mais abertos à beleza do mundo. 

Referências Bibliográficas 

  • ALANA. Território do Brincar: A relação da infância com a natureza. São Paulo: Alana, 2018. 
  • BARBIERI, Stella. A arte de se relacionar. São Paulo: Peirópolis, 2012. 
  • BARROS, Manoel de. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Planeta do Brasil, 2003. 
  • BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 16 jul. 1990. 
  • LOUV, Richard. A última criança na natureza. São Paulo: Aquariana, 2016. 
  • NOGUERA, Renato. Por que amamos? Ética afetiva para revolucionar as relações. São Paulo: HarperCollins Brasil, 2020. 
  • PIORSKI, Gandhy. Brinquedos do Chão: a cultura do brincar nas infâncias. Petrópolis, RJ: Vozes, 2016. 
  • Revista Jardín Fabulinus, n. 1. 2016. BRASIL. Estatuto da Criança e do Adolescente. Lei nº 8.069 de 13 jul. 1990. 
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Mãe em formação, Pedagoga, especialista em Educação Infantil, pela PUC-RJ, Mestre em Educação Básica, pela UERJ, formadora de professores por mais de 30 anos. Busco inspiração em escolas pelo mundo, mas principalmente no Brasil. É Consultora Educacional da FTD Educação, no Rio de Janeiro. leia também Conteúdo formativo Entre razão e emoção: caminhos para o […]
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