Entenda a importância do brincar para criar adultos saudáveis.
Recentemente minha sobrinha de oito anos foi em uma festa de aniversário de uma coleguinha com o tema “Spa”. As atividades incluíam escalda-pés, máscara facial com pepino nos olhos, maquiagem e penteados. Em um golpe de sorte, devo dizer, a responsável pelo “entretenimento” da festa atrasou e as crianças sem pensar duas vezes foram brincar em um espaço aberto com natureza por perto.
Eu, como boa millennial, fiquei um pouco chocada com o tema da festa para essa faixa etária, mas para a Geração Alpha, que engloba as crianças nascidas a partir de 2010 – todas nativas digitais – é mais comum crescerem seguindo tendências de vídeos do TikTok (como as rotinas de skincare), do que usarem a imaginação criando brincadeiras.
É aí que começa o problema: o repertório das crianças tem se limitado às telas e isso faz com que antecipem comportamentos comuns a adultos, ficando entendiadas ao brincar e tendo pouca paciência ou espaço para a criatividade.
Some a isso crianças com agendas lotadas de compromissos para que construam um currículo e se tornem mais competitivas quando entrarem no mercado de trabalho, crianças se tornando influenciadores mirins com milhares de seguidores, crianças imitando adultos na maneira como se vestem e se comportam. Essas são formas de adultizar as crianças, atropelando uma fase fundamental da infância.
Adultização Infantil

Esse fenômeno, que estimula comportamentos que destoam da idade cronológica e emocional das crianças é chamado de adultização infantil, e tem se tornado cada vez mais presente no mundo contemporâneo.
“A adultização infantil nada mais é do que antecipar as fases do desenvolvimento, retirando das crianças momentos importantes voltados ao estímulo das dimensões sociais, afetivas e cognitivas próprias de cada idade”, explica a professora de Educação da PUCPR, Evelise Labatut Portilho.
De acordo com a pedagoga, essa antecipação pode deixar “vácuos” no desenvolvimento, o que mais tarde pode ser considerado como “falta”, por não estarem preparadas para viver situações inadequadas para a própria idade.
Por exemplo, uma coisa é a criança brincar com as maquiagens e roupas da mãe, outra coisa é uma festa direcionada para isso fazendo com que a ideia de se produzir, se maquiar e se preocupar com a aparência, seja hipervalorizada. O segundo caso se torna uma situação preocupante, por estar diretamente relacionada a construção da autoestima das crianças e de suas referências para o adulto que se tornarão.
Eu mesma venho de uma casa repleta de mulheres, e usar maquiagem para ir à escola (algo comum hoje em dia) jamais me passou pela cabeça, maquiagem era algo reservado para eventos especiais ou festas. Foi só quando entrei na faculdade, e vi que as garotas se arrumavam, que comecei a replicar esse comportamento, então eu me pego pensando: o que estamos ensinando para as nossas crianças?
Fenômeno “Sephora Kids”

Gostaria muito de dizer que estou exagerando, mas a realidade é bem diferente.
Prova disso é o fenômeno “Sephora Kids” ou “Crianças Sephora”, referência ao público infantil que tem tomado as lojas de cosméticos, em busca de produtos de beleza, produtos que é claro, nenhuma criança precisa.
Esse movimento tem sido impulsionado pelas redes sociais, onde vídeos mostrando rotinas de cuidados com a pele para evitar o envelhecimento são frequentes. A questão é que agora, meninas de 9 a 14 anos estão replicando esse conteúdo, mostrando como fazem o seu skincare religiosamente de manhã e à noite e saindo em busca de produtos nada inofensivos, como máscaras de retinol, substância usada para tratar o envelhecimento da pele.
No TikTok, a lógica da plataforma é fazer com que vídeos curtos viralizem, e quando um conteúdo vira tendência, ele certamente vai chegar até as crianças. Se uma menina vê outra garota fazendo sua rotina de cuidados on-line, vai ter uma identificação e moldar o seu comportamento para fazer parte da tendência e se sentir incluída na conversa.
A adoção desses cuidados desnecessários, tem afetado não só a pele dessas meninas, mas também a sua autoestima. Uma pesquisa da Dove descobriu que 1 em cada 2 meninas, entre 10 e 17 anos, espera, agora, se preocupar mais com sua aparência à medida que envelhecem.
Para ilustrar o impacto desse fenômeno, a marca criou uma campanha que questiona “Quando 10 parou de parecer 10?, trazendo um vídeo que contrasta momentos em que meninas de 10 anos estão sendo apenas crianças com trechos de meninas de 10 anos fazendo skincare. O convite é para que todos protejam essas crianças, estimulando que meninas se divirtam com seus rostos e não percam a sua infância se preocupando com rugas.
Se você nunca tinha ouvido falar sobre esse tema, sugiro que dê uma olhada no vídeo abaixo para entender os efeitos da adultização nas meninas desta geração:
Quais fatores influenciam a Adultização Infantil?
Uma criança adultizada reproduz comportamentos e valores do mundo adulto, mas não aqueles valores positivos que desejamos que se espelhem para se tornarem adultos felizes e saudáveis. Nesse fenômeno, os comportamentos enaltecidos são os de conotação negativa como a sexualização, a hipervalorização da aparência, das marcas e do consumismo.
Para especialistas em Infância, existem alguns fatores que têm influenciado esse processo de adultização das crianças, tais como:

Publicidade infantil
O mercado infantil é um mercado lucrativo, porque os filhos influenciam diretamente no consumo familiar. Sendo assim, as crianças têm sido bombardeadas com propagandas em diferentes mídias, estimulando o consumismo e o materialismo e influenciando meninas e meninos a terem determinados comportamentos e desejos.
Afastamento do “Ser criança”
As crianças têm se afastado das brincadeiras livres que fazem parte do universo infantil e se aproximado de tudo aquilo que faz parte do universo dos adultos, se preocupando com assuntos ou opiniões que não condizem com a sua faixa etária, como por exemplo, a preocupação com aparência ou status.
Estímulos inadequados
Acessando a internet cada vez mais cedo, as crianças vêm consumindo estímulos inadequados, sem supervisão, o que as deixa desprotegidas para lidar com conteúdos que não tem maturidade para compreender, além de empobrecer suas habilidades motoras, suas relações sociais, e tornar atividades que exijam o uso da imaginação e da criatividade enfadonhas por estarem acostumadas a hiperestimulação.
A professora de Educação da PUCPR, Evelise Labatut Portilho, reforça ainda que a própria família, muitas vezes, incentiva o comportamento antecipado das crianças, e lembra que limites são necessários e saudáveis no desenvolvimento infantil.
“A família deve observar as características de cada etapa do desenvolvimento de forma natural, respeitando o ritmo e o espaço de cada criança. A antecipação de etapas não vai deixá-la uma pessoa melhor”, ressalta a pedagoga.
A importância do brincar

A resposta para evitar a adultização infantil é fácil: precisamos levar a brincadeira a sério!
Hoje, falamos sobre o resgate da infância, justamente porque o brincar livremente, tem sido ameaçado pelas mudanças culturais e sociais que enfrentamos. As crianças ficam cada vez mais dentro de casa, mergulhadas no mundo on-line, sem supervisão, porém ainda assim superprotegidas, sem espaços de lazer que possam frequentar.
É hora de valorizar e entender os benefícios das brincadeiras para tirar as crianças dessa realidade.
“Ao brincar, a criança tem contato com o mundo por meio da fantasia, imaginação, representação, pensamento crítico. Ela vive as dimensões do desenvolvimento de forma lúdica, explorando as diversas situações,” explica a professora de Educação da PUCPR, Evelise Labatut Portilho.
Assim como podemos observar na vida animal – quando um filhote de leão brinca de caçar e a mãe leoa finge se assustar – a infância prepara para a vida adulta pelo brincar.
“No cognitivo, ela entra em contato com o mundo à sua volta, descobrindo conceitos e percepções. Na dimensão afetiva, vive situações que provocam as emoções, como é o caso das brincadeiras de faz de conta, os jogos de maneira geral. Na dimensão social, o convívio com outras crianças possibilita sair do lugar de centração do mundo (tudo está voltado a ela) e percebe que necessita estar junto, cooperar, dividir, respeitar as regras, etc.”, reforça Evelise.
Isso significa que ao se reunir com amigos para criar ou participar de uma brincadeira, a criança não está apenas brincando, mas tendo a oportunidade de desenvolver habilidades como a negociação, a convivência com o outro, a empatia, e ao brincar sozinha a criança tem oportunidade de desenvolver a coragem, a avaliação de riscos, a solução de problemas, ou seja, são inúmeros benefícios que fazem com que uma infância “brincada” seja uma ponte para uma vida adulta saudável. Não é à toa que brincar, praticar esportes e se divertir é um direito previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Para conseguir trazer as crianças para esse cenário, priorize brincadeiras ao ar livre e o contato com a natureza, se possível; além de incentivar a imaginação para que possam transformar itens cotidianos em brinquedos.
Outro ponto importante diz respeito ao que as crianças andam consumindo na internet e em redes sociais. É preciso acompanhar essa navegação para educá-las a respeito de conteúdos inadequados, como cyberbullying, desafios violentos, influenciadores digitais irresponsáveis, entre outros, e apresentar conteúdos que sejam condizentes com a sua faixa etária, fugindo daqueles que reforçam valores negativos.
Vale lembrar que redes sociais são voltadas para maiores de 13 anos e, de acordo com as regras das próprias plataformas, qualquer interação realizada nestas redes antes desta idade deveria ser feita sob supervisão dos pais.
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