Muitas vezes, percebo adultos criando expectativas em relação ao comportamento de crianças e adolescentes, esperando delas comportamentos conscientes e maduros que, muitas vezes, nem mesmo nós, adultos, conseguimos ter com tanta destreza.
As crianças vêm ao mundo como uma tábula rasa, que vai sendo inscrita ao longo do seu processo de desenvolvimento. Assim acreditava John Locke, filósofo inglês do século XVII, que, como observador e pensador do comportamento humano, entendia que o conhecimento advém da experiência sensorial, parte daquilo que experimentamos e a forma como codificamos cada uma das experiências.
Em contraponto, também podemos considerar as ideias de outro filósofo que contrapõe à teoria da tábula rasa e traz pra gente o conceito de inatismo, como se nascêssemos com uma ideia pronta, dentro daquilo que podemos nominar de mundo inteligível, como se nossa alma já recebesse, ao sermos concebidos na barriga de nossas mães, um certo conhecimento na alma que nos capacitaria previamente para algumas coisas, tornando-nos capazes de recordar tais conhecimentos previamente adquiridos na nossa vida cotidiana. Descartes também bebe nessa fonte das ideias inatas, as quais adquirimos antes do nosso nascimento, nos dizendo que a razão é a principal fonte de conhecimento.
Sobre a forma como aprendemos, eu bebo das duas fontes. Pois, acredito que aprendemos e significamos a vida a partir das experiências que vamos tendo ao longo da vida, mas também que essas experiências, de certo modo, passam pela experiência intrauterina, as quais modularão as experiências que teremos e a forma como reagiremos a elas.
Porém, essas experiências prévias à consciência, passarão não por algo transcendente, que viemos marcados para ter, mas sim pelas experiências que experimentamos intrauterinamente através do que nossas mães sentiram. E de certo modo, essas sensações prévias nos acompanharão ao longo de nossa vida, trazendo uma sensação de conhecimento. O que nos faz acessar um pouco do que Descarte acredita, no entanto, a apropriação do conhecimento, do saber, ela precisa passar pelo sensório consciente de cada um.
Algo que vale a pena lembrarmos é que o cérebro só atinge sua maturidade completa aos 25 anos de idade, onde o córtex pré-frontal se desenvolve totalmente, permitindo funções complexas, como a tomada de decisão e a regulação emocional. Diante disso, vale pensar sobre essa expectativa do adulto que deseja que a criança tenha consciência do que está fazendo.
A importância do exemplo
Como disse acima, a criança vai aprender a partir das experiências que irá adquirir ao longo do desenvolvimento, iniciando, inclusive, desde a barriga da mãe, através da memória sensorial intrauterina.
As crianças são como esponjas, absorvem tudo o que fazemos e tudo o que dizemos. Até os cinco anos de idade, o cérebro está em constante movimento, formando milhares de conexões neurais, formando as habilidades cognitivas, emocionais e motoras. Por isso é tão perigoso o uso de eletrônicos e redes sociais, principalmente nesta fase a qual chamamos de primeira infância.
Podemos perceber um exemplo acerca de como elas aprendem conosco, vejamos o quanto nos surpreendemos quando uma criança de um ano sabe tocar a tela de um celular. Lembro-me quando surgiu o touch screen, e o quanto eu tinha dificuldades de apertar e não errar no comando que eu queria dar ao aparelho de celular, e hoje crianças pequenas tocam e fazem coisas que ficamos impressionados como adultos.
Mas será que elas nasceram com esta habilidade de tocar a tela de um celular? Ou será que aprenderam conosco, que não desgrudamos do celular quase nunca?
Outro exemplo: em minha experiência clínica, atendi crianças que se recusavam a comer frutas e verduras. Durante a anamnese, os pais relatavam esse comportamento como um problema. Então, eu costumava perguntar como era o consumo desses alimentos por eles mesmos. Não raramente, os pais se entreolhavam constrangidos e admitiam que também não comiam — compravam apenas para a criança, por saberem que era saudável e importante para ela.
Um dos atendimentos que mais mostram sobre isso é de uma mãe que me procurou angustiada, pois seu bebê de um ano e pouco não dormia, e ela já não sabia mais o que fazer e gostaria que eu atendesse a criança para descobrir o que se passava. Em nossa consulta perguntei, quem era a pessoa ansiosa da família, e ela muito sem graça disse que ela também tinha dificuldades há muitos anos de pegar no sono e dormir bem por uma noite inteira.
Poderia trazer aqui ainda muitos exemplos, mas acredito que esses já apresentam situações das quais agora mesmo vocês podem estar identificando aí na sua casa, no comportamento dos seus filhos.
E sim, os filhos aprendem com o meio! Eu mesmo tenho um exemplo que amo contar, meus pais eram semianalfabetos, mas meu pai que era músico autodidata e gostava de tocar e cantar os corinhos do hinário cristão, e eu sempre o via segurando então aquele livrinho, e acredito que este tenha sido meu maior exemplo de estar sempre com um livro em mão na infância. As crianças imitam os adultos!
As crianças imitam os adultos
Como essa frase ressoa em você? Te preocupa ou te tranquiliza? Como tem sido seu exemplo de ser humano para seus filhos e crianças ao seu redor? E não estou dizendo aqui apenas de serem bons seres humanos, mas de ensinar aos seus filhos a serem também bons seres humanos, com valores e princípios morais estáveis. Que possuem a consciência de que na vida, precisamos plantar para colher. Muitos pais hoje em dia têm se esquecido disso, e espera que os filhos colham, mas nunca os ensinaram sobre o trabalho que dá o plantio, as etapas do arar, planta, regar, cuidar e colher.
Uma das coisas que nós, adultos, precisamos sempre trabalhar é a comunicação. Este é um dos maiores desafios da vida humana: comunicar bem! Pois partimos do pressuposto de que não precisamos falar, na expectativa que o outro adivinhe o que queremos ou que seja implícito o que se deve ser feito! Acredito que nem preciso dizer que isto não funciona.
Afinal, você deve ter muitos exemplos de brigas, desentendimentos e/ou frustrações ocorridas por esses motivos, não é mesmo? E imagine ter essa falha de comunicação com crianças e adolescentes, estas as quais o cérebro não está completamente desenvolvido, nos quesitos planejamento, tomada de decisão, controle de impulsos e regulação emocional. Pense na expectativa equivocada que criamos quando presumimos que crianças e adolescentes já sabem exatamente o que fazer.
E o que podemos e devemos evitar para que não seja gerado um problema grande com esse nosso comportamento de acreditar que eles sabem o que jugamos que deveriam saber?
- Acreditar que eles não sabem, e que só saberão depois de comunicarmos, de forma clara, o que queremos que eles façam e saibam.
- Dar nomes às coisas, explicitando o que são e o que fazer com aquilo, inclusive os sentimentos.
- Dizer a eles o que estamos sentindo ou o que sentimos quando alguma emoção nos toma, sem mentir. Se queremos que eles sejam verdadeiros conosco, precisamos ser verdadeiros com eles primeiro.
- Mostrar como fazer as coisas, detalhar as coordenadas, fazer junto, vistoriar, checar se foi feito corretamente e, se não foi, voltar ao início e repetir todo o ciclo novamente.
- Não criticar e xingar apenas porque erraram, principalmente se for algo que você não ensinou, seguindo os passos acima. Lembre-se: você sabe; a criança e o adolescente só saberão se você ensinar!
- Crie o hábito de perguntar às crianças e aos adolescentes porque fizeram o que fizeram. Aprenda a escutar: isso te dará maior campo de cuidado com eles, mais oportunidades de ensinar o que você quer que aprendam.
- Não peça que façam o que você não faz! Não adianta: ninguém aprende com discursos que não são coerentes com as atitudes, ainda mais quando se trata de figuras de autoridade, como os pais, a quem os filhos tendem a copiar. Se você quer que eles usem menos o celular, seja você o primeiro a diminuir seu uso das telas, principalmente quando estiver com eles por perto.
- Alimente-se bem, beba água, faça atividade física, leia livros, tenha bons comportamentos e saiba se relacionar bem com as pessoas ao seu redor, se você deseja que a criança e o adolescente que você ama tenha tais hábitos.
- Ofereça sempre limites com afeto, sem críticas, comparações e ofensas. Mas sempre entendendo que eles irão aprender com você. Seja paciente e ensine quantas vezes for necessário até que você tenha certeza de que o conhecimento foi adquirido.
- Incentive, aceite, acolha, aprove, elogie, reconheça e valide todo bom comportamento, todo acerto, toda boa intenção. Diga o quanto você se importa com o aprendizado da criança e do adolescente, e o quanto você também deseja acertar para ser sempre um bom exemplo a ser seguido.








