de quem é a culpa - artigo
Família

De quem é a culpa? 

Por Tatiane Zan

Estimativa de leitura: 7min 15seg

25 de julho de 2025

Nesses últimos tempos, temos sido bombardeados com histórias tristes, acerca de adolescentes assassinos. Não tenho outra terminologia para usar, pois vejo que uma das coisas que tem feito agravar tais situações é a tentativa de abrandar ou flexibilizar comportamentos delinquentes em crianças e adolescentes.

Temos criado um sistema muito brando para conter comportamentos inadequados em nossas crianças. E aqui não quero dizer sobre violência física, os tapas e chineladas, meios amplamente utilizados em gerações anteriores como forma de educação.

Estou dizendo de relativizar demais comportamentos que mereciam recriminação com a ideia de que são apenas crianças e que tais comportamentos são parte de uma capacidade mental ainda pouco desenvolvida, mas que, quando forem maiores, elas agirão de forma diferente porque a capacidade de raciocínio delas estará mais desenvolvida e elas agirão então da maneira correta, como se tais aprendizados dependessem única e exclusivamente do próprio desenvolvimento delas, como se não precisassem de orientação, educação, disciplina e correção para serem pessoas que agem de maneira correta e respeitosa com os demais; como se, diante da frustração a tolerância para lidar com ela fosse desenvolvida apenas pelo fato de estarem crescendo; como se a maturidade fosse algo espontâneo e desenvolvido magicamente, e não aprendido e apreendido mediante as relações vivenciadas por ela ao longo do seu desenvolvimento.  

Sabemos que as crianças e os adolescentes passam por dois grandes centros de treinamento na vida, de onde parte a maior parte do conhecimento delas sobre a vida, os relacionamentos, questões cognitivas que as ajudarão quando estiverem adultas, principalmente na profissão que irão escolher, além de valores, princípios, religião e formas de se relacionar, envolvendo a comunicação, o respeito às diferenças, a capacidade de conciliar as coisas, de negociar etc. Estes dois centros se chamam Família e Escola.  

Escola 

Espaço em que crianças e adolescentes permanecem por longos períodos, muitas vezes durante a maior parte de suas vidas. Este é o primeiro lugar onde elas vão ter contato com o mundo, ou com vários mundos diferentes do seu.

Neste lugar, elas vão aprender temas de conhecimentos gerais, aprenderão a ler, escrever, fazer conta. Descobrirão suas potencialidades e dificuldades, tomarão ciência de gostos que em casa jamais conseguiriam ter.

Conhecerão pessoas diferentes, com arranjos familiares diferentes, tecerão seus relacionamentos mais importantes depois dos relacionamentos familiares, aprenderão a se relacionar com as diferenças, perceberão funcionamentos de vida e padrões diferentes dos seus e de seus familiares.

Aprenderão a ceder para ter, também desenvolverão o senso de responsabilidade e consequências, bem como aprimorarão o relacionamento de ordem e hierarquia. Dentre tantas outras coisas que este lugar proporciona!  

Família  

Base de tudo! Dela surgimos e a ela sempre pertenceremos, em menor ou maior grau, mas é fato que o que dela recebermos permanecerá incutido em nós.

Valores, princípios, hierarquia e a forma de lidar com ela, regras, organização, pertencimento, formas de se relacionar com o outro, formas de dar e receber afeto, manejo financeiro, ideia de Deus e princípios metafísicos, respeito às diferenças, acolhimento ou distanciamento de pessoas e situações, noções de certo e errado, maneiras de sentir e lidar com as emoções, preferências e gostos artísticos e até mesmo culinários — tudo o que somos hoje e que seremos um dia teve início em nossa família. Até o que decidimos abandonar, conseguimos porque olhamos para onde surgimos e resolvemos fazer diferente! 

Mas um adendo: só conseguiremos fazer diferente em uma postura de respeito com nossa própria família, com o que eles deram conta de fazer com aquilo que não faz sentido para nós hoje, caso contrário repetiremos sem mesmo perceber como.  

Seguindo então nessa reflexão: onde está o erro que tem levado a situações de assassinatos, principalmente nas escolas, onde um adolescente mata o outro, com intenções cada vez mais vazias de sentido? 

Recentemente uma adolescente foi assassinada por dois colegas de sala que levaram uma faca na mochila (a escola não detectou), (os pais não viram sair com a faca) e, num intervalo, mataram a colega com facadas pelo fato de sentirem inveja por ela ser uma pessoa feliz!

Outro caso recente: uma adolescente mata a “amiga” com um bolo envenenado, dizendo que sentia raiva e ciúmes. Casos de filhos que matam seus pais e irmãos, por vários motivos torpes — sendo as maiores causas proibições, como uso de celular, saída com amigos, e também motivos como financeiros ou a intenção de herdar algo dos pais. 

Temos visto também casos de alunos que batem ou matam professores. E, recentemente, vimos um pai que bateu em uma criança de quatro anos em uma escola, pois esta criança estava irritando seu filho. E poderia escrever laudas e laudas aqui de situações assim em nossa sociedade atualmente. 

Talvez você esteja dizendo que coisas assim sempre aconteceram, mas não eram divulgadas. Vou concordar em partes — na parte que sempre existiram, sim —, mas que vemos um aumento do desrespeito ao outro em várias camadas da sociedade, em um escalonamento que não é apenas por divulgação, mas infelizmente por acontecimentos mesmo.  

E onde está o erro? Quem é o culpado ou quem são os culpados?  

Dr. Lee Salk vai dizer que: “nossa civilização depende grandemente das gerações futuras, e as gerações futuras serão decisivamente marcadas pela maneira como as tratamos na primeira infância e em sua meninice”.  

Temos percebido, como dito anteriormente, uma forma de tratar as gerações que vêm sendo modificada ao longo das últimas décadas, principalmente no que tange a dar às crianças maior autonomia sobre suas decisões e deixá-las mais livres para se comportarem como acharem melhor.

Mas nos esquecemos que a parte cerebral responsável pela tomada de decisão mais assertiva, considerando as consequências das escolhas e inibindo a impulsividade, ou seja, a parte mais racional do cérebro, só está definida aos 25 anos de idade; e que, na infância e na adolescência, não temos esta parte estruturada ainda, e que, sendo assim, não possuímos capacidade de saber de fato o que estamos fazendo, ou se aquilo será bom ou não.

Portanto, a orientação, o direcionamento e a correção das nossas atitudes são fundamentais, pois o desenvolvimento ainda está em processo: as crianças precisam de adultos direcionando sua forma de viver! 

Precisamos urgentemente dar uns passos para trás e assumirmos o controle das nossas crianças e adolescentes, segurando-os pelas mãos até o momento em que eles vão nos mostrando que conseguem dar passos mais firmes e assertivos.  

A escola tem responsabilidade em ensinar principalmente conteúdos pedagógicos e precisa ter a liberdade para reforçar bons comportamentos e valores, podendo disciplinar os alunos quando eles infringirem regras ou não seguirem as solicitações da escola.

Os pais precisam apoiar a escola, dando a ela autonomia em seu campo de participação na educação de seus filhos, vendo-a como parceira nesse processo e não o contrário. Deve dizer aos seus filhos que, na escola, quem tem a responsabilidade e autoridade sobre eles são os adultos que ali trabalham; que devem respeito e obediência aos professores e demais funcionários da escola. 

Os pais precisam tomar para si a rédea de educar, ensinar, orientar, acompanhar, passar bons princípios e valores, disciplinar e vasculhar de perto a vida dos filhos, principalmente suas redes sociais: com quem conversam, com quem andam, o que fazem.

Existem atividades que os menores não deveriam fazer e que muitos pais permitem que façam, acreditando que dar liberdade aos filhos é o melhor caminho. 

Lembrem-se: eles são seres em desenvolvimento, não estão prontos, e algumas experiencias interferirão de forma negativa nesse desenvolvimento.  

Se você, pai ou mãe, encontra-se perdido nesse caminho, procure a ajuda de um terapeuta familiar. Temos ferramentas para ajudá-lo nesse processo.  

Crianças e adolescentes bem-educados promovem uma sociedade mais saudável, desenvolvida e promissora em todos os aspectos.  

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Tatiane Zan
Psicóloga, terapeuta sistêmica familiar. Amo a vida e o conhecimento! Adoro ajudar as pessoas e tornar a vida mais leve! leia também Família Masterchef: os alimentos são benéficos para quem os come e quem os cozinha  Conteúdo formativo Entre razão e emoção: caminhos para o bem-estar de quem educa  Entre razão e emoção: caminhos para […]
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