Motivação na sociedade paliativa: do engajamento superficial ao propósito
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Motivação na sociedade paliativa: do engajamento superficial ao propósito 

Por Ailton Dias

Estimativa de leitura: 6min 20seg

3 de dezembro de 2025

Em uma época que transforma dor em falha individual e entusiasmo em obrigação moral, a escola corre o risco de confundir engajamento superficial com propósito. Repensar a motivação é, mais do que nunca, um ato educativo e comunitário. 

A escola sempre foi um espaço de elaboração do sentido humano. No entanto, vivemos um tempo em que até a Educação começa a refletir a lógica da sociedade paliativa descrita por Byung-Chul Han. Em vez de enfrentar as causas profundas do sofrimento docente e das tensões escolares, buscamos alívio rápido, estímulos positivos, frases de efeito, atividades velozes que prometem resolver dores estruturais. Suavizamos sintomas, mas deixamos intocados os mecanismos que produzem exaustão, desânimo e desencontro. 

O filósofo sul-coreano observa que, no mundo contemporâneo, a negatividade, aquilo que gera atrito, conflito e reflexão, é substituída pela positividade compulsória. Em suas palavras, “negatividades como mandatos, proibições ou punições dão lugar a positividades como motivação, auto-otimização ou autorrealização”. A sociedade paliativa, por medo da dor, transforma felicidade em dispositivo de docilização e exige que cada sujeito seja permanentemente animado, disponível e motivado. A dor deixa de ser reconhecida como experiência humana e passa a ser tratada como erro pessoal. 

Quando essa lógica chega à escola, ela rearranja silenciosamente o cotidiano. Problemas coletivos são privatizados. A sobrecarga, que deveria ser tema de política educacional, vira falta de resiliência. A exaustão, que deveria ser objeto de cuidado institucional, vira pouca motivação. A dificuldade, que deveria convocar análise pedagógica e comunitária, vira defeito individual. Nessa operação, educadores deixam de ser vistos como parte de um corpo coletivo e se transformam em unidades isoladas, obrigadas a manter-se bem apesar de tudo. É a atomização do humano, tão presente na leitura de Han, onde cada pessoa fica sozinha diante do próprio esgotamento. 

Ao mesmo tempo, a escola passa a confundir motivação com engajamento superficial. Há um apelo constante para que professores e estudantes estejam envolvidos em tudo, animados com tudo, participando de tudo. Mas esse engajamento nem sempre nasce do sentido. Muitas vezes nasce apenas da pressão. Quando o cotidiano escolar acumula demandas, relatórios, metas, exigências e iniciativas que surgem sem diálogo com a realidade concreta da escola, o entusiasmo passa a ser mais uma expectativa do que uma construção de propósito. 

Em Sociedade Paliativa, Han afirma que “a ordem neoliberal opera por positividade, não por repressão”, substituindo crítica por otimismo e conflito por estímulos agradáveis. Nas escolas, essa positividade se manifesta quando a dor docente é evitada e quando as tensões do trabalho pedagógico são mascaradas por estratégias de animação, como se alegria fosse sinônimo de saúde institucional, mas a motivação real, aquela que sustenta uma vida educativa, não nasce da ausência de dor, e sim da presença de sentido. 

Quando a dor é privatizada, a escola deixa de ser comunidade e se torna palco de autoexigências silenciosas

Nesse cenário, a discussão sobre motivação ganha outra espessura. Motivação não é excitação emocional, nem um pico de energia induzido por estímulos externos. Não se produz motivação por decreto, nem por slogans, nem por campanhas de entusiasmo. A psicologia contemporânea mostra que motivação verdadeira é direção interior, vínculo, reconhecimento, pertença e finalidade compartilhada. É o que se fortalece na convivência, na cooperação, na cultura institucional que legitima a experiência humana sem apagar sua complexidade. 

Ao pensar a escola como espaço de produção de sentido, entendemos que motivação não é aquilo que o professor tem ou não tem, mas aquilo que a comunidade constrói ou destrói. A questão, portanto, não é pedir mais engajamento, mas criar condições para que professores e estudantes encontrem propósito. Não é exigir entusiasmo, mas permitir que vínculos floresçam. Não é esconder o sofrimento, mas reconhecê-lo como parte da vida escolar e, ao mesmo tempo, como ponto de partida para transformações coletivas. 

Há um desafio ético e pedagógico. É preciso transformar a escola de palco paliativo em espaço de verdade. Isso exige repensar horários, cargas de trabalho, práticas de gestão, processos de escuta, formação continuada e projetos que realmente dialoguem com o cotidiano. Exige admitir que há dor e que a dor não é fracasso, mas pedido de transformação. Exige compreender que motivação não é brilho nos olhos o tempo todo. É pertencimento. Não é euforia. É sentido. Não é engajamento superficial. É compromisso compartilhado. 

Aliás, muitas vezes, aquilo que chamamos de formação continuada na escola acaba se reduzindo a encontros pontuais que pouco dialogam com a realidade concreta da docência. São momentos fragmentados, compostos de palestras que, embora recebam o rótulo de motivacionais, utilizam sobretudo artifícios de excitação: vídeos emotivos, músicas crescentes, iluminação estratégica, frases de impacto que prometem força instantânea. Esses recursos produzem um efeito imediato, às vezes até empolgante, mas não geram aprofundamento, transformação de prática ou sentido pedagógico. Confundir isso com formação continuada é distorcer o próprio conceito de formação, que supõe tempo, vínculo, reflexão e continuidade. 

Do ponto de vista neuroquímico, o efeito dessas palestras é conhecido. Estímulos intensos ativam o sistema límbico, liberando dopamina, adrenalina e noradrenalina, substâncias que produzem aceleração emocional, sensação de energia e entusiasmo momentâneo. Mas esse pico é transitório e rapidamente se dissipa, porque não cria conexões estáveis nem sustentação cognitiva. A excitação evapora, e o cotidiano real da escola retorna com toda a sua complexidade. A verdadeira formação continuada precisa operar em outro registro, bem mais profundo. Ela nasce de processos reflexivos que ampliam o repertório teórico, fortalecem a identidade docente, analisam práticas, criam diálogo entre pares e devolvem sentido ao trabalho educativo. É isso que forma, e não a excitação passageira de uma experiência estética. A escola merece uma formação que sustente, e não que apenas distraia daquilo que precisa ser transformado. 

A sociedade paliativa tenta evitar a dor. A escola, quando fiel à sua vocação, acolhe, elabora e transforma a dor em experiência educativa. Essa é a grande diferença. É nesse ponto que motivação deixa de ser um estado emocional e passa a ser uma escolha comunitária. A escola que reconhece isso reencontra sua força formadora, porque se torna lugar de cuidado, de reflexão e de esperança, aquela esperança da qual fala Agnes Heller, que é bússola para futuros possíveis. 

E talvez seja essa a tarefa educativa mais urgente. Devolver à motivação sua verdade humana. Fazer com que professores e estudantes reencontrem o fio do propósito, mesmo em tempos difíceis. Permitir que a escola seja, outra vez, o lugar onde a dor pode ser nomeada, onde o sentido pode ser construído e onde a vida pode, pouco a pouco, recuperar o seu fôlego. 

Referências 

  • HAN, Byung-Chul. Sociedade paliativa. Petrópolis: Vozes, 2021. 
  • HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. Paz e Terra, 2021. 
  • BRACKETT, Marc. Permissão para sentir. Rio de Janeiro: Sextante, 2021. 
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Professor, estudante, filósofo, psicólogo, ator, dançarino e brincante de rua… Pessoa com sede de pessoas numa busca constante do entendimento do maior mistério da existência: o fenômeno da formação humana. 
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