Quem educa?
Família

Educação que transforma nasce da aliança entre escola e família 

Por Tatiane Zan

Estimativa de leitura: 6min 15seg

27 de abril de 2026

Recentemente, estive em uma palestra para pais, promovida por uma escola, e saí de lá com uma reflexão importante: o quanto essa parceria entre escola e comunidade é importante e como deveria acontecer de forma mais frequente. Infelizmente, ainda é pouco explorada. Deixo aqui minha opinião, como especialista, de que essa parceria escola/família deveria ser prioridade e entrar no calendário oficial. 

A reunião não foi de cunho pedagógico, mas sim de explicação da fase da adolescência e de escuta aos pais e professores presentes, que colocaram suas dúvidas e dificuldades vivenciadas. Contribuiu com orientações teóricas, mas, principalmente, com demonstrações práticas de como se relacionar melhor com os adolescentes. 

Acredito que, ao fortalecer a parceria entre escola e família, todos sairemos ganhando e muito como sociedade, pois sabemos que ambas são responsáveis pela formação de crianças e adolescentes. São elas que inserem princípios, valores, orientação para a vida, respeito às pessoas e ao espaço individual e coletivo, entre tantas outras coisas. 

O distanciamento entre essas instituições, infelizmente, não é neutro; ele impacta de forma negativa na formação desses adolescentes que, em breve, ocuparão lugares relevantes na sociedade. Para eles, quanto mais sólida for a base, mais chances terão de se tornarem pessoas íntegras, resilientes e capazes de contribuir de forma saudável para a sociedade. 

Afinal, a infância é uma terra que vamos pisar ao longo de toda a nossa vida. Por isso, é fundamental que ela seja bem-cuidada. 

Quem educa? 

A estrutura da sociedade vem mudando ao longo dos anos e, com isso, os papéis, antes mais definidos e rígidos, foram dando lugar a funções mais flexíveis e transitórias. Hoje, os pais são convocados a estarem mais atuantes no mercado de trabalho, tendo que gerenciar melhor o tempo diante de todas as obrigações que envolvem o âmbito profissional, a família e as demais demandas da vida adulta. Com isso, têm estado menos tempo com os filhos, educando, orientando, corrigindo e acompanhando no dia a dia. 

Muitas vezes, essa função acaba sendo parcialmente assumida pelos próprios adolescentes, que buscam nos pais, via celular, a ajuda de que precisam. Trata-se de uma ferramenta que auxilia muito na comunicação diária, principalmente quando são necessárias respostas rápidas para atender demandas urgentes. 

Com isso, os filhos vão ganhando mais autonomia, ao mesmo tempo em que se observa uma diminuição do que chamamos de autoridade parental. 

Um dos problemas que podemos compreender a partir dessa perda de autoridade e, consequentemente, de referência dos pais é que os adolescentes passam a tomar decisões para as quais ainda não possuem maturidade. Do ponto de vista do desenvolvimento neuropsicológico, sabemos que o córtex pré-frontal, região responsável pela tomada de decisão, controle de impulsos e análise de consequências, só atinge sua maturidade completa por volta dos 25 anos. 

Antes disso, crianças e adolescentes ainda não dispõem plenamente dos recursos necessários para decisões consistentes e responsáveis. Soma-se a isso o alto custo da sobrecarga mental envolvida no ato de decidir. Se, para nós adultos, tomar decisões já é algo complexo, para crianças e adolescentes torna-se ainda mais difícil. 

Nesse contexto, a fragilização da autoridade parental tende a produzir um efeito importante: a transferência, ainda que implícita, dessa função para a escola. No entanto, essa substituição não se sustenta.

A escola é uma instituição de ensino, socialização e desenvolvimento, mas não pode ocupar o lugar estruturante da família. 

Mas daí surge um problema, e você sabe qual é? Nosso modelo de relacionamento para a vida nasce na nossa família e, a partir dele, passamos a reproduzir nossas relações. É na família que se constrói o modelo relacional primário. É ali que se estabelecem as primeiras referências de respeito, limite, frustração e convivência. 

Como apontado por Salvador Minuchin, na perspectiva da terapia familiar, a clareza de papéis e a hierarquia parental são fundamentais para o desenvolvimento emocional saudável. Quando essa organização se fragiliza, as consequências aparecem nos diversos contextos, inclusive no ambiente escolar. 

Na prática, isso se reflete em dificuldades crescentes dentro das salas de aula: resistência a regras, baixa tolerância à frustração, dificuldade em reconhecer figuras de autoridade e maior impulsividade. Professores passam a lidar não apenas com o ensino de conteúdos, mas também com demandas emocionais e comportamentais que extrapolam sua função principal. 

E, nesse cenário, nos deparamos com pais e escola exaustos, culpabilizando-se mutuamente, apontando falhas uns dos outros. Com isso, todos saem perdendo, principalmente nossos pequenos em formação. Crianças e adolescentes precisam de coerência por parte dos adultos que os orientam. 

Educação vem de berço! 

Essa frase é antiga, mas continua verdadeira. A família permanece como o principal núcleo formador de valores, sendo responsável por oferecer direção, referência e sustentação emocional. Cabe a ela, inclusive, validar o papel da escola, reforçando a importância de suas regras, de seus profissionais e de seu espaço como ambiente de desenvolvimento. 

E aos pais direciono minha fala neste momento: imagine o quão difícil é quando seu filho ou sua filha não quer obedecer. Agora pense dentro de uma sala de aula, com um adulto tentando conduzir dezenas de crianças e adolescentes ao mesmo tempo. A sua ajuda, orientando seu filho a obedecer e respeitar o professor, faz toda a diferença nesse processo. 

Adultos precisam se comportar como adultos!  

Esta é outra máxima: crianças e adolescentes, de modo inconsciente, buscam por limites, pois estes trazem sensação de segurança. Quando não encontram adultos que sustentem esses limites, tendem a intensificar esse movimento, muitas vezes por meio de comportamentos desafiadores. 

E qual é o papel do professor e da escola nesse lugar de estabelecer limites? Tornar as regras bem explícitas, assim como as consequências que terão de ser assumidas caso não sejam seguidas. Ao apresentar regras e consequências, o próximo passo é fazer cumprir todos os acordos. 

Limites consistentes não são formas de repressão, mas instrumentos fundamentais de segurança emocional. Como já apontava Donald Winnicott, é dentro de um ambiente suficientemente estável e previsível que a criança pode se desenvolver de forma saudável. 

Por isso, a parceria entre escola e família é indispensável. Quando essas instituições se reconhecem, se respeitam e atuam de forma alinhada, reforçam mutuamente seu papel na formação dos jovens. Essa coerência oferece às crianças e aos adolescentes aquilo de que mais precisam: segurança, direção e pertencimento. 

Crianças que crescem amparadas por essa dupla referência, família e escola, tendem a se tornar mais seguras, resilientes, cooperativas e emocionalmente equilibradas. Desenvolvem maior capacidade de se posicionar, de lidar com frustrações e de se relacionar de forma saudável consigo mesmas e com o outro. 

Educar é, antes de tudo, um compromisso coletivo, mas que começa, inevitavelmente, dentro de casa. 

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Tatiane Zan
Psicóloga, terapeuta sistêmica familiar. Amo a vida e o conhecimento! Adoro ajudar as pessoas e tornar a vida mais leve! leia também Família De quem é a culpa?  Família O Poder da Família  O Poder da Família  Família  Mudança de escola: como ajudar o seu filho  Mudança de escola: como ajudar o seu filho Família […]
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