autismo
Família

Inclusão além do acesso: os desafios reais das famílias atípicas nas escolas brasileiras 

Por FTD Educação

Estimativa de leitura: 14min 27seg

1 de abril de 2025

Mãe e educadora relata as barreiras enfrentadas na inclusão de crianças autistas, destaca a importância da formação docente, da parceria com a família e propõe caminhos para uma Educação verdadeiramente inclusiva. 

Muito se fala sobre inclusão escolar, mas pouco se compreende o que ela realmente significa na prática. Garantir que uma criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA) esteja matriculada em uma escola é apenas o começo — e não o fim — do processo inclusivo. Quem vive essa realidade de forma intensa é Ednna de Paiva Repolês Coelho: mãe atípica, educadora e mestre em Educação Tecnológica pelo CEFET-MG. Com um olhar que une teoria e vivência, ela denuncia as barreiras invisíveis que ainda isolam alunos autistas dentro das próprias salas de aula. 

“Nosso clamor hoje não é mais apenas pelo direito de estar na escola, mas por uma inclusão que seja real, respeitosa e eficaz”, afirma Ednna Coelho. 

Ao longo de sua trajetória pessoal e profissional, ela tem testemunhado os avanços e, principalmente, os obstáculos enfrentados por famílias atípicas: desde a falta de preparo dos profissionais da Educação até o capacitismo enraizado, passando pela escassez de tecnologias assistivas e pela desconexão entre as áreas da Saúde e da Educação. 

“Incluir é diferente de integrar. Incluir exige estudo, cuidado e muito trabalho”, afirma Ednna Coelho. 

Nesta matéria, Ednna compartilha aprendizados, propõe caminhos e revela o que, de fato, faz a diferença quando o assunto é inclusão de verdade. Acompanhe! 

Formação docente: um elo frágil na inclusão 

Ednna Coelho, observa que os currículos de cursos de graduação no Brasil, como o de Pedagogia, vêm sendo objeto de estudo por diversos pesquisadores — e os diagnósticos não são animadores. Segundo ela, ainda há uma lacuna significativa na formação dos futuros educadores no que diz respeito à compreensão dos processos neurais envolvidos na aprendizagem. “Se os profissionais que se dedicam ao ensino e à aprendizagem não têm, durante a graduação, contato com conhecimentos sobre como o cérebro — seja neurotípico ou neuroatípico — aprende, é difícil esperar uma prática pedagógica realmente eficaz”, afirma. 

Segundo ela, “os cursos de Pedagogia permitem ao profissional compreender como se dá a transmissão de conhecimentos e habilidades, mas em geral não abordam como ocorre essa aprendizagem no cérebro do aluno. Por isso, a formação continuada se faz necessária no panorama atual. Especializações como a Psicopedagogia, Neuropsicopedagogia e as Neurociências têm ampliado os horizontes da compreensão sobre o cérebro que aprende. Os estilos de aprendizagem, por exemplo, quando negligenciados na prática docente, segregam o aluno do seu maior potencial, que é a criatividade”.  

Essa realidade, agrava ainda mais os desafios da inclusão dos alunos autistas. Conforme Ednna Coelho, “muitos precisam se movimentar para regularem o comportamento, mas são impedidos ou considerados inadequados ao ambiente da sala de aula. Outros apresentam resistência a escrever ou colorir, pois o atrito do lápis com a folha causa estímulos sensoriais desagradáveis a eles, e isso é compreendido como rebeldia. A rigidez cognitiva é comum em alunos com autismo, mas seu comportamento pode ser interpretado como agressivo ou desequilibrado. Esses são alguns exemplos do despreparo que está diante dos nossos olhos. Conhecer o cérebro humano, os transtornos mentais e suas particularidades, é uma necessidade atual e urgente para o profissional da Educação. Esse conhecimento deveria ser implementado na formação docente”. 

Quais estratégias pedagógicas têm sido mais eficazes para apoiar o desenvolvimento e a aprendizagem de uma criança atípica? 

Segundo Ednna Coelho, a primeira estratégia para apoiar o desenvolvimento e a aprendizagem de uma criança autista é escolher a escola mais adequada — não necessariamente perfeita. “A escola para todos os nossos alunos, não só o aluno autista, é aquela que acolhe e compreende que a instituição deve se adequar às necessidades do aluno, e não o aluno se enquadrar em padrões pré-estabelecidos”, afirma ela. 

Outra estratégia essencial, segundo Ednna, é considerar os interesses ou hiperfoco do momento. “Aprender é mais fácil quando se gosta do que se aprende”, destaca. Ela explica que o ambiente e a rotina precisam ser previsíveis, por isso tudo é previamente conversado com a criança. Essa antecipação contribui para melhores resultados tanto nas atividades cotidianas quanto nas pedagógicas. 

“Abusar de recursos visuais também é uma estratégia pedagógica de sucesso”, afirma. Ednna observa que costuma obter resultados surpreendentes quando associa diferentes sentidos no processo de aprendizagem — sempre com equilíbrio. Reforçar comportamentos desejáveis também é um ponto-chave. 

Por fim, ela enfatiza a importância de manter um canal de comunicação aberto entre família, escola e terapeutas: “O profissional precisa perceber que a família se dedica e acredita no desenvolvimento do aluno. Essa parceria faz toda a diferença.” 

Como você enxerga o papel da família no processo de inclusão escolar e no desenvolvimento da criança autista? Quais desafios e oportunidades surgem nessa relação entre escola e família? 

Conforme Ednna, a família é a base do desenvolvimento humano. “A inclusão inicia-se com a aceitação pela família de que aquele aluno não é menos ou mais importante que os outros, mas sim que ele é único. Portanto, há de serem consideradas as particularidades de cada um. A participação ativa e o suporte da família são diferenciais no desenvolvimento de todos os alunos. E participar requer também conhecer os direitos e necessidades, incluindo a colaboração na elaboração do Plano de Educação Individual (PEI).  

Ela ressalta a importância de manter um canal aberto de comunicação com professores, administradores e outros profissionais, isso facilita muito a compreensão das estratégias que funcionam bem fora do ambiente escolar, bem como permite a permuta de informações sobre o comportamento do aluno com os pares e seu progresso/regressão. “Além de suporte emocional, a família também pode proporcionar experiências complementares ao currículo escolar, como habilidades funcionais e sociais reforçando o que foi estimulado na escola”, reforça.  

“Não podemos nos esquecer da importância que a família tem ao apoiar o aluno no desenvolvimento da autonomia. Mesmo que existam disfunções no neurodesenvolvimento, sabemos cientificamente que é possível melhorar a funcionalidade e capacidade de adaptação do aluno autista por meio de estimulação adequada. Enfim, a família desenvolve um papel crucial no processo de inclusão escolar” afirma ela.  

Você percebe diferença no acolhimento e no suporte oferecido por diferentes instituições de ensino? Quais fatores considera essenciais para uma escola ser verdadeiramente inclusiva? 

Segundo a pesquisadora e mãe atípica, “sem dúvidas existem diferenças! O fator mais relevante, além da formação dos profissionais, é o recurso financeiro para contratação desses profissionais. Profissionais capacitados demandam um investimento que na maioria dos casos excede o planejamento financeiro das instituições. Nesses casos, o professor de apoio realmente capacitado para o processo de inclusão escolar acaba sendo substituído por monitores. E infelizmente o suporte à aprendizagem fica em segundo plano”.  

Para ela, “os fatores essenciais para uma escola ser verdadeiramente inclusiva incluem, a meu ver, a valorização dos diferentes saberes, culturas e identidades. O diálogo contínuo entre profissionais e famílias, a oferta de recursos de acessibilidades, a formação contínua dos profissionais, a compreensão e respeito aos direitos do aluno de inclusão. Se faz essencial a construção de um ambiente de aprendizagem flexível, acolhedor e igualitário, bem como a promoção da participação da comunidade”.  

A falta de dados sobre autismo no Brasil pode impactar as políticas públicas e o acesso aos direitos das pessoas autistas. Como você vê essa questão e quais ações acredita que poderiam melhorar esse cenário? 

“Quando recebemos o diagnóstico do meu filho, há 9 anos, sofremos muito com a desinformação. Me recordo que até o caixa do supermercado questionava o diagnóstico médico. Com o passar do tempo, observei uma sutil mudança nos locais públicos. Mas essa mudança, sem dúvidas, partiu da luta das famílias pela inclusão e reconhecimento dos seus direitos. Em consonância a esse movimento, tenho observado uma participação da sociedade na divulgação de informações a respeito do autismo nas redes sociais. Entretanto, essa é uma via de mão dupla, podendo ampliar a conscientização a respeito do Transtorno tanto quanto contribuir para a desinformação e Fake News nas redes sociais” destaca Ednna Coelho.   

Segundo a pesquisadora, o ideal seria a criação de um Banco de Dados Oficial do Governo sobre o autismo no Brasil. Integrando os Sistemas de Saúde, Educação e Assistência Social. Isso porque, a ausência de dados oficiais mantém planejamentos ineficazes com relação a diagnósticos precoces, terapias, suporte às famílias e a própria inclusão escolar. Além disso, a ausência de dados robustos dificulta a conscientização da população, bem como a formação de profissionais capacitados para lidar com as especificidades do Transtorno. 

autismo: niveis de suporte

­­

O diagnóstico precoce é apontado como um fator essencial para intervenções eficazes. Como foi esse processo na sua vivência e quais dificuldades você enfrentou ao buscar um diagnóstico e apoio adequado? 

Apesar de não sermos formadas em medicina, os primeiros sinais e sintomas foram observados por mim e minha mãe. Os pediatras acreditavam que nossas observações com relação aos atrasos do neurodesenvolvimento do meu filho eram fruto da ansiedade natural da maternidade. Percebi que em determinado momento meu filho simplesmente parou de se desenvolver, falou algumas palavras antes de 1 ano e depois simplesmente parou de falar, retornando aos 6 anos a verbalizar o que queria. O choro era intermitente, chorava para entrar no banho, mas também chorava ao sair do banho. Amamentou exclusivamente do leite materno até os 3 anos de vida, com uma seletividade alimentar extrema. O desfralde foi extremamente difícil, sair de casa era desafiador, deixá-lo no berçário aos berros era um sofrimento, até mesmo fazê-lo dormir era quase impossível”, conta Ednna Coelho. 

Os desafios não pararam por aí. Segundo Ednna, “apesar de precoce, me recordo que o processo diagnóstico foi demorado e contou com os relatórios de diversos profissionais. Mas especialistas foram cruciais. Percebi que não resolvia simplesmente procurar por um bom fonoaudiólogo, neurologista, psiquiatra, terapeuta ocupacional ou psicólogo se esses não fossem experientes. Muitos profissionais afirmaram veementemente que meu filho não falava aos 4 anos de vida porque era mimado e recebia tudo nas mãos. Um completo absurdo! 

No meio do caminho decidi me especializar no assunto e assim tudo mudou. Me especializei inicialmente em neuropsicologia, neuropsicopedagogia, psicopedagogia e neuroeducação. Tudo isso, partiu da inquietação de ver meu filho aos berros porque não queria utilizar o banheiro ou se desregulava ao calçar os sapatos. Foi desesperador, mas compreendi que se eu quisesse auxiliar meu filho precisava mudar meus conceitos e comportamentos, mas isso só era possível se acabasse com minha ignorância a respeito do Transtorno. Busquei e continuarei buscando ampliar meu conhecimento teórico a respeito do funcionamento do cérebro, mas o maior aprendizado é a convivência. Percebo a diferença do meu olhar como profissional antes e depois da maternidade atípica”. 

Quais adaptações e recursos tecnológicos você considera mais importantes para apoiar a aprendizagem e a socialização de crianças autistas na escola? 

Conforme a pesquisadora e mãe atípica, “as adaptações e tecnologias só irão apoiar a aprendizagem e a socialização de crianças autistas na escola se os profissionais considerarem seus estilos de aprendizagem. A melhor adaptação para um aluno, provavelmente será um problema para outro, visto que o autismo se trata de um Espectro. A maioria dos autistas apresentam diagnósticos comórbidos à Superdotação, ao Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, ao Transtorno do Desenvolvimento Intelectual, à Epilepsia ou à Depressão. O grande diferencial na verdade é o uso que se faz da adaptação e da tecnologia e não a tecnologia em si, por isso em minha concepção, a formação dos profissionais é o principal pilar na inclusão escolar. O melhor e mais inovador recurso tecnológico pode ser inclusive desacreditado em mãos despreparadas”.   

Quais são as maiores barreiras que a sociedade ainda precisa superar para garantir uma inclusão real e significativa para pessoas autistas? 

 “O capacitismo é a maior barreira. Observo em minha prática profissional e como mãe atípica que o potencial de nossas crianças tem sido negligenciado. A inclusão escolar perpassa o respeito ao direito de acesso ao conhecimento, entretanto é muito comum que uma criança autista receba materiais completamente alheios aos conteúdos que a turma está estudando. Isso não é incluir! Infantilizar o autista cria barreiras físicas e mentais que os impedem de exercer as atividades diárias e pedagógicas, inclusive de maneira independente. No mercado de trabalho essa realidade não é diferente, as dificuldades de adaptação ao ambiente de trabalho podem levar a sérios prejuízos funcionais e emocionais. Na esfera familiar ou no ciclo de amizades o autista também sofre com o preconceito e a incompreensão do Transtorno. Por isso, a conscientização deve apresentar-se de maneira mais eficiente, e não existe maneira mais eficiente e eficaz de transformar uma sociedade do que por meio da Educação”, relata Ednna.    

Você acredita que o Dia Mundial do Autismo e campanhas de conscientização como o Abril Azul têm impacto real na vida das famílias e na inclusão escolar? O que mais poderia ser feito para gerar mudanças concretas? 

“Certamente! O impacto na vida das famílias inicia-se quando seu filho autista participa de um evento da escola, ou é convidado para o aniversário do coleguinha, ou para uma brincadeira na casa do vizinho. Ver seu filho sendo aceito como ele é configura a maior vitória para uma mãe atípica. Esses pequenos avanços na socialização são possíveis de serem observados pela disseminação de belas atitudes que fazem a diferença na inclusão. Tenho visto movimentos também na atenção primária à saúde, na garantia dos atendimentos prioritários, na criação da CIPTEA – Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, em Benefícios Sociais como o BPC/LOAS, em direitos adquiridos para o lazer, em descontos em viagens, medicamentos e em atendimentos especializados nas provas e concursos como o ENEM. Contudo, acredito que existem ainda barreiras a serem quebradas como, por exemplo, o acesso efetivo ao mercado de trabalho e Políticas Públicas Intersetoriais que integrem a Saúde, a Educação e a Assistência Social para um cuidado integral da pessoa autista. Centros Especializados seriam um salto importante na inclusão, visto que mesmo em condições financeiras para arcar com um plano de saúde, as famílias sofrem meses em filas de espera e acabam desistindo de tratar seus filhos” reforça Ednna Coelho.  

Se pudesse dar um conselho para pais que acabaram de receber o diagnóstico de autismo para seus filhos, qual seria? 

“Cada ser humano é único! Então, um conselho que pode ser muito bom e enriquecedor para um, talvez seja um verdadeiro desafio para outro. Mas sem dúvidas respirar fundo e seguir em frente é o melhor conselho para as famílias atípicas. Isso também vai passar! O diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista traz inseguranças profundas aos pais, familiares e ao próprio autista. Não saber como lidar, por onde começar, a quem recorrer, além de lidar com olhares atravessados de julgamentos cruéis do tipo: “Você não sabe educar seu filho!”; “Seu filho é tão lindo, nem parece ser autista!”; “Se fosse meu filho não estaria fazendo essa pirraça!” é, sem dúvidas, uma experiência difícil. Neste caminho árduo e pedregoso, por vezes estaremos cansados, desesperados, desanimados, sozinhos e desconfiados. Mas se pudesse dar mais de um conselho seria, você não é superpoderosa(o)! Aceite ajuda, peça ajuda, crie redes de apoio, fortaleça laços, perca o medo, esqueça a vergonha, leve seu filho ao parquinho, leve-o em festas, e acredite, você é o maior terapeuta dele!”, conclui Ednna Coelho.  

Gostou do nosso conteúdo? Siga-nos também nas redes sociais do Conteúdo Aberto!  

O que achou dessa matéria?

O que achou dessa matéria?

Clique nas estrelas

Média da classificação 4.2 / 5. Número de votos: 21

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

mais recentes
Ebook: Saberes e práticas do Ensino Religioso: unidades temáticas do Ensino Religioso na BNCC.
Conteúdo formativo

E-book – Saberes e práticas do Ensino Religioso: Unidades temáticas do Ensino Religioso na BNCC

Família

Saúde mental das crianças nas férias: 9 atitudes que fortalecem o bem-estar infantil

Saúde mental das crianças nas férias: 9 atitudes que fortalecem o bem-estar infantil

brincadeiras nas férias
Família

15 brincadeiras para as férias com as crianças: diversão, vínculo e desenvolvimento longe das telas 

brincadeiras nas férias

15 brincadeiras para as férias com as crianças: diversão, vínculo e desenvolvimento longe das telas 

Silêncio, som e descanso: por que o professor precisa reaprender a ouvir nas férias?
Conteúdo formativo

Silêncio, som e descanso: por que o professor precisa reaprender a ouvir nas férias? 

Silêncio, som e descanso: por que o professor precisa reaprender a ouvir nas férias?

Silêncio, som e descanso: por que o professor precisa reaprender a ouvir nas férias? 

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro:

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro:

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro: